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A Ghost Story

Por

 

Ivo Saraiva e Silva
28 de Junho de 2024

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A Ghost Story

A Ghost Story é uma história de fantasmas. O filme saiu em 2017, dirigido por David Lowery, e acompanha a vida quotidiana de um romântico casal comum, com uma diferença essencial: o rapaz morre nas primeiras cenas, vítima de um acidente de viação.


Pode assentir-se que A Ghost Story trata de um (não) romance sobre um (não) casal.


Enquanto que, para ele, a ideia de amor eterno tem de ser cumprida, uma paixão maior que a vida e para além da morte, para ela, a viúva, o luto do namorado é chorado e consumado, para abrir portas a uma nova vida, ao encontro com outras pessoas, outros amores e outros objetivos. A tragédia reside aqui: enquanto o primeiro quer sobreviver deambulando pela casa que já não é sua, insistindo e sofrendo porque assiste ao desmoronamento da sua própria memória em virtude de uma vida nova, a segunda propõe-se a novas relações amorosas e vende a casa, que depois é habitada por várias outras pessoas das mais variadas faixas etárias ao longo de várias gerações até ser, por fim, destruída por completo e substituída por portentos arranha-céus.


Nesta obra, o drama não é morrer, mas tão simplesmente permanecer vivo e acompanhar os tempos a mudar. Esta ordem de ideias produz um paradoxo crucial inerente aos nossos hábitos e costumes: apesar de defendermos a viúva e de sabermos que o que faz é o mais acertado, e apesar de compreendermos que a vida se faz de coisas que nascem e que morrem para o ciclo vital se reestruturar e restaurar, o filme acaba por nos fazer sentir uma enorme complacência pelo fantasma deambulatório do rapaz, pela alma que espera sofregamente por algo que nunca irá acontecer, ou por um passado que já morreu. Esteticamente, a ideia de fantasma leva-nos para uma remota memória daquela figura de lençóis vestida, com dois buraquinhos para os olhos; pois bem, o fantasma deste filme apresenta-se tal qual a nossa memória, como se a oferecesse a nós para ficarmos do lado dele durante a película. É a forma do reconhecimento operar, não nos é desconhecido aquele vulto, apesar de ser um fantasma, é um espectro como nós o imaginamos, e por isso acompanhamos a sua desgraça como se fosse a nossa desgraça.


Na verdade, imaginarmos o infortúnio do falecido como nosso, permite que o filme denuncie o espetador enquanto o acarinha: dessa forma, desvela dogmas invisíveis que parecem estar em nós desde sempre, alguns antes do nascimento. A ideia de amor romântico (“felizes para sempre”), de possessão, de crença no vínculo monogâmico eterno (“até que a morte nos separe”), assumem-se como caraterísticas e desejos pessoais mas que se foram pegando à nossa pele, como uma imposição exterior.


Talvez esta narrativa queira ser a metáfora de toda a nossa vida, onde morremos de amor por entes queridos ou por algo que conquistamos, e nunca conseguimos lidar muito bem com a mudança ou com a sua natureza camaleónica.


Ser-se extremamente possessivo é da nossa natureza estrutural, e é muito difícil ver aquilo que autointitulamos como “nosso” levar outro rumo e a servir-se de novas formas.


Esta impossibilidade de ver, explica Geni Guatari, ativista indígena Guarani, autora de Descolonizando Afetos (2024), está intrinsecamente ligada com o crescimento de um monoteísmo cristão tradicional, ao longo dos tempos: “Há diversos trechos bíblicos nos quais se menciona o ciúme de deus ao se ver “traído” pelo seu povo, em momentos em que esse povo estaria cultuando outros deuses ao mesmo tempo.


Diante disso, é possível entender o motivo de a conversão cristã não admitir a possibilidade de múltiplas espiritualidades em sua base. Não se diz que esse é um dos caminhos entre muitos, mas o “único caminho, a verdade e a vida”. (...) Esse direcionamento espiritual, segundo o qual só se prova que ama alguém se não amar outras pessoas em concomitância, é o que fundamenta a monogamia. (...)


Para ilustrar o quanto a imposição da monogamia estava diretamente relacionada aos valores do monoteísmo cristão, compartilho aqui um trecho de uma carta escrita em 1633 pelo padre Diogo Ferrer, que afirma sobre indígenas Guarani: “vivem juntos quanto tempo querem, e quando o marido quer se casar com outra mulher deixa aquela, e não parece que estes índios em seu natural conhecem a perpetuidade do matrimónio. A nenhum deles isso soa ofensivo”.


Em nosso povo, desde antes de 1500 já havia o entendimento de que, se alguma das pessoas não quisesse mais permanecer naquela relação, ela tinha o livre direito de interrompê-la. As relações indígenas não se guiavam pela indissolubilidade do vínculo e também por isso não eram categorizadas como monogâmicas, ainda que fossem compostas de apenas duas pessoas. Reafirmo que nem monogamia nem não monogamia têm a ver com quantidade, mas com o modo como as relações acontecem – em que tempo, sobre tudo.

(NÚÑEZ, Geni, Descolonizando Afetos, São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2024, pp. 30 e 31)


A característica profunda da tradição ocidental é irremediavelmente não conseguir adequar-se ao novo porque teme a sua própria anulação; em bom rigor, a aceitação da novidade pela tradição só lhe dá valor e apenas a faz viver em harmonia com o outro - mas isto é sempre muito difícil.


Esta obra trabalha per si a destruição de uma memória (e inscrita numa tradição), é certo, mas o que é realmente pertinente é pressentir a nossa aptidão para lidarmos com a mudança, numa tentativa de que nos tornemos nós os produtores ou promotores dessa mesma transformação. De um lado a tradição, e do outro lado a revolução - uma não vive sem a outra: os lençóis brancos que cobrem o fantasma e lhe dão a morte são os mesmos lençóis brancos que outrora lhe deram a vida, ao som do primeiro choro, entre sangue e bisturis, mas também são os mesmos que o fizeram sentir-se vivo num intenso ato de amor. Numa das cenas do filme, prevemos os corpos dos namorados que, entre os lençóis, celebram o amor e o desejo, um com o outro, um contra o outro – nada mais tradicional, nada mais revolucionário. A tradição e a revolução acontecem ao mesmo tempo.


Foto de Alípio Padilha

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