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Alex Cassal e Marco Mendonça no Hotel Paradoxo

Por

 

Pedro Mendes
18 de Maio de 2026

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Alex Cassal e Marco Mendonça no Hotel Paradoxo

Num planetário, o céu é uma ilusão controlada. As estrelas projectadas na abóbada não existem onde as vemos. São luz encenada, tempo falsificado. É precisamente nesse entre-lugar que Alex Cassal instala o Hotel Paradoxo, espectáculo que chega ao Planetário de Marinha, em Lisboa, entre 21 e 23 de maio, com o ator Marco Mendonça como guia por esse vácuo onde a memória, o cosmos e a ficção científica se sobrepõem. Falámos com os dois sobre viagens no tempo, autobiografias inventadas e o que pode acontecer quando saímos do caminho pré-determinado.


ALEX CASSAL


O Hotel Paradoxo nasce de uma memória de infância: a visita a um planetário em Porto Alegre. Quanto tempo essa imagem andou contigo antes de se tornar um espectáculo?

Alex Cassal (AC): Ufa. Já não sou capaz de rastrear o percurso de transformação desta memória num espetáculo. Em miúdo, era obcecado por tudo o que estivesse relacionado com o espaço - estrelas, planetas, fenómenos cósmicos. Era uma obsessão sem grande critério: eu consumia com o mesmo entusiasmo tanto enciclopédias científicas sobre astronomia, cosmologia e exploração espacial como a ficção mais descabelada, com naves espaciais a viajar mais depressa do que a luz, aventuras em mundos distantes e alienígenas tentaculares e ameaçadores. Esse gosto acompanhou-me pela adolescência e pela vida adulta e continua a ser um ponto de referência que orienta a minha sensibilidade em praticamente tudo o que crio. O meu primeiro monólogo autoficcional (que criei e apresentei numa piscina desativada ao pé do Teatro Maria Matos em Lisboa, em 2009) já misturava viagens no tempo e no espaço com memórias de infância. Hotel Paradoxo vem coroar esse percurso, mas é pouco provável que eu tenha esgotado esta obsessão. O bom das viagens no tempo é que há sempre a possibilidade de recomeçar.


Disseste que a personagem abdica de ser o herói que muda a história do mundo e opta por um destino mais íntimo, mais narcísico. Identificas-te com essa escolha?

AC: Ao escrever Hotel Paradoxo, sabia que o protagonista não seria um herói individual capaz de tomar nas mãos o destino da humanidade, mudando como um deus o rumo da História por causa da mulher (de acordo com Superman, Gilberto Gil e Felipe Rocha). Apesar de adorar aventuras extravagantes que misturam dinossauros, raios laser e figurinos de época, o meu desejo era refletir sobre o nosso tempo e sobre as pequenas odisseias vividas diariamente por nós, personagens anónimas que não ficarão nos livros de História. Gosto da ideia de contrapor o minúsculo - um encontro íntimo, uma única noite num quarto de hotel - ao imensurável - a vastidão do universo, que mal e mal somos capazes de compreender e explicar. Nesse sentido, sim, estou razoavelmente reconciliado com a minha irrelevância perante o grande esquema das coisas. Ao mesmo tempo, não abdico de me posicionar em relação ao tempo e ao lugar em que vivo, nem de acreditar que as personagens anónimas são o verdadeiro motor da mudança.


O espectáculo é descrito como uma autobiografia falsificada. Que liberdade te dá essa ficção? Poder mentir sobre ti mesmo em palco?

AC: Uma das coisas que sempre me encantou no teatro é o facto de mentir - inventar, fabricar, fabular - não ser um defeito, mas uma condição fundamental. Ninguém espera que, no final de Hamlet, o elenco esteja realmente a esvair-se em sangue sobre as pedras de esferovite do cenário; o que procuramos é a sensação de que todo aquele fingimento é capaz de lançar luz sobre as nossas vidas e emoções. A permissão para mentir na arte é libertadora, embora me pareça óbvio que há assuntos sobre os quais não se pode mentir. Não me interessa, de forma alguma, negar a realidade do Holocausto, da Escravatura ou dos horrores perpetrados ao longo da nossa trajetória colonial, patriarcal e capitalista, por exemplo. Para mim, a mentira é uma ferramenta de trabalho, como os truques com cartas e balões de um mágico de festas infantis. E a pequena escala da minha vida permite que esses truques tenham alguma verosimilhança ou, pelo contrário, provoquem o riso pela evidência do engano. No caso de Hotel Paradoxo, o primeiro truque de prestidigitação foi convidar Marco Mendonça para interpretar esta personagem que é uma versão fantasiosa de mim próprio. Esse é, sim, o grande salto narcísico: fingir que o autor partilha algo da pinta, da juventude, da inteligência e da força deste ator que está diante dos espectadores.


A revisão científica do texto obrigou-te a abandonar algumas ideias que usavas. Há alguma que tenhas lamentado perder?

AC: Hum, acho que não. Ao longo do processo de criação, para além de conversas breves com astrofísicos portugueses como Pedro Machado e Clara Sousa-Silva, tive um feedback simultaneamente generoso e rigoroso de Paulo Pereira e Filipe Pires, do Planetário do Porto, que acompanharam o projeto desde o início. Na fase final, João J. G. Lima, investigador e professor do Instituto de Astrofísica da Universidade do Porto, reviu o texto e alertou-me para uma série de incongruências físicas e erros básicos de compreensão, típicos de alguém como eu que nunca teve grande talento para as ciências exatas. Mas todos estes especialistas foram sempre muito positivos e cúmplices em relação a este projeto, que não pretende ser uma peça didática, mas uma criação artística. No fim de contas, não tive de abdicar de nada fundamental para a história que queria contar; apenas adaptar alguns conceitos e expressões.


O planetário é um espaço de passagem, transitório, como os hotéis e os veículos que referes como fascinantes. O que é que esses não-lugares têm de teatral?

AC: Hotéis, veículos coletivos e espaços culturais são lugares liminares, em que estamos entre um sítio e outro - espaços regidos pela impermanência, pelo trânsito e pela desorientação. A nossa presença nesses lugares é efémera, geralmente de apenas algumas horas, o que nos convida à reinvenção e a abandonar, ainda que provisoriamente, os nossos hábitos e rotinas. De certa forma, são lugares onde nos transformamos noutras personagens - pelo anonimato, pela transitoriedade e pelo contacto breve e intenso com pessoas fora do nosso círculo habitual. O que uma poltrona num avião, num comboio, na plateia de uma sala de espetáculos ou num planetário têm em comum é a possibilidade de viajar para destinos longínquos sem sairmos do lugar. E o que me fascina é imaginar a hipótese de essa viagem controlada ser interrompida ou desviada enquanto ainda estamos nesse entre-lugar. O que pode acontecer então? Hotel Paradoxo parte precisamente dessa ideia: os imprevistos que podem surgir a meio de uma viagem. Tudo o que pode correr bem ou mal, as descobertas, os encontros, os prazeres e as catástrofes que nos atingem quando saímos do caminho pré-determinado.

 

MARCO MENDONÇA


Interpretas uma personagem que é uma autobiografia falsificada do encenador. Um brasileiro branco de quase sessenta anos. Como é que construíste essa distância em relação ao Alex sem te perderes a ti próprio?

Marco Mendonça (MM): Creio que nunca li os textos do Alex como histórias muito distantes das minhas. Nascemos no mesmo hemisfério, partilhamos o signo do zodíaco (se me lembro bem), vivemos desgostos amorosos como jovens adultos e gostamos de filmes de ficção científica. Mais ainda, quando eu nasci, o meu pai também era um jovem de quase sessenta anos. A familiaridade das suas histórias, principalmente na sua relação íntima com as emoções, anula qualquer intervalo geracional. Qualquer ator ou atriz que tenha o privilégio de trabalhar um dos seus textos, ganha acesso a reflexões profundas sobre a vida e o mundo, carregadas de humor e simplicidade, sem nunca precisar de esquecer a sua biografia no processo. Com o Alex nunca é estranho trabalhar a partir daquilo que sou para honrar as suas ideias e a sua imaginação.


O espectáculo acontece sob a abóbada de um planetário, com o público a olhar para cima. Como é que isso muda a tua relação com o espaço e com quem te vê?

MM: Neil DeGrasse Tyson, no fim de cada episódio do seu podcast sobre astrofísica, diz sempre a mesma frase: “keep looking up.” Para mim, esse é um dos convites mais satisfatórios do espetáculo: abrir as portas de um lugar onde as pessoas se podem reclinar, confortáveis, de olhos arregalados para eventos cósmicos, ou de olhos fechados para deixar fluir a imaginação. Eu sirvo como uma espécie de guia turístico pelo vácuo espacial. A minha voz está sempre presente, mas a minha imagem pode ser apenas um vulto que o público sente de vez em quando.


O Hotel Paradoxo situa-se em 2009, antes de teres chegado ao teatro. O que representa esse ano para ti? É um tempo que reconheces ou que tens de imaginar?

MM: Esse ano representa para mim um momento de transição. Uma viagem íntima onde refletia muito sobre o amor e o tempo. Acabado de chegar a Portugal, era um adolescente a conhecer as suas feridas e os seus desejos. De certa forma, sinto que estive hospedado no mesmo Hotel Paradoxo que o Alex imaginou, a ouvir barulhos estranhos nos quartos ao lado, sem saber a que tempo pertenciam, mas todos estranhamente reconhecíveis.


Recebeste o Prémio Revelação Ageas em 2025. Sentes que este espectáculo chega num momento de viragem na tua trajectória?

Trabalhar neste espetáculo é, sem dúvida, um ponto alto. Tive a sorte de me cruzar profissionalmente com o Alex ainda no início da minha trajetória e isso também definiu, sem eu me aperceber, muito do que seria o meu futuro. Graças a ele e tantos outros artistas que pude conhecer, hoje posso olhar para o meu 2009, 2012, 2015, e ter certeza de que tudo o que sonhava na altura valeu a pena.


Foto: © Renato Cruz Santos

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