Conteúdos
Agenda
COFFEELABS
Recursos
Sobre
Selecione a area onde pretende pesquisar
Conteúdos
Classificados
Notícias
Workshops
Crítica
Por
Partilhar

Abrir Fogo, novo espetáculo da Escola de Mulheres com texto e encenação de Ana Sampaio e Maia, chega ao palco entre 20 de maio e 7 de junho. Com Marta Lapa e Mélanie Ferreira em cena e espaço cénico da artista plástica Lea Managil, o espetáculo parte da erosão do espaço público para questionar o ativismo, o corpo e a possibilidade do protesto dentro de uma sala de teatro. Conversámos com a encenadora sobre o processo de criação.
Abrir Fogo foi escrito à mão e entregue às intérpretes fora dos circuitos habituais de produção. O que havia de urgente nesse gesto de escrever à margem das formatações?
O teatro é um objeto de consumo. Alguém ou muitos alguéns idealizam uma coisa (à qual eu, carinhosamente, chamo de material poético) e depois materializa-se sob a forma de texto, de luz, de voz, por exemplo, e depois outro alguém assiste e bate, ou não, palmas e vai-se embora.
Se repararmos é o mesmo processo de consumo da nossa alimentação. A vaca nasce, dão-lhe erva e farinhas cheias de coisas para engordar rápido e produzirem muito leite, depois matam-na mas não vai logo para a panela. A partir daqui a vaca já não é vaca, ela torna-se num objeto com uma odisseia pela frente até chegar ao nosso prato e que faz com que achemos que estamos a comer vaca debaixo de um molho de ostras que não são ostras há muito tempo, também. Tenho vindo a observar o número infindável de fases que ocorrem nestes processos e que nos distancia da necessidade primordial (comer), que nos afasta do verdadeiro sabor e da qualidade bruta das substâncias em prole do consumo do objeto bonito e pronto.
O teatro dos nossos dias também padece da mesma pressa para ser bonito, uma pressa em ser o escolhido e pronto a consumir. É um tipo de teatro que não faz mossa no dia de ninguém. Este tipo de fruição artística, falo enquanto espectadora e criadora, não tem acrescentado nada à minha lista de questões por resolver antes de morrer. Então propus-me a criar, neste espetáculo, de forma a que fosse ao encontro do início das coisas, da génese das ideias, do busílis das questões, do que mexe cá dentro e que não está pronto e é imperfeitamente bonito.
A peça nasce de um momento específico: quando nos tiraram os bancos dos jardins, quando o espaço público se fechou. Como é que uma experiência tão concreta se transforma em material dramatúrgico?
Não faço a mínima ideia de quem é que me está a perguntar isto, por isso vou tratar-te, daqui para a frente, por Xuxu. Pode ser? É para parecer que estou a falar com alguém e não estar aqui só a cumprir uma obrigação profissional.
Olha, queride Xuxu, eu gosto muito de caminhar. Gosto muito de andar a pé por Lisboa, normalmente sozinha, mas comecei a encontrar pessoas, amigos e conhecidos nessas caminhadas que às vezes são o trajeto para o trabalho, às vezes são escapadelas à solidão, outras vezes servem apenas para ouvir um álbum novo. Aos encontros que foram surgindo faltou-lhes sítio onde sentar, sem ter de pagar um valor demasiado alto por um café, para que a caminhada pudesse ser transformada numa boa conversa. É um facto: há poucos bancos que proporcionem conversas que ecoam em nós durante dias, em Lisboa, muito menos com sombra, para podermos continuar a fingir que o aumento das temperaturas não é real. Os bancos gratuitos que existem no espaço público com sombra são raros e a arquitetura existente apenas suporta um – Olá Xuxu, tudo bem? Beijinhos! – e isso revolta-me. As conversas transformadoras, o contacto humano recreativo que gera evolução de espirito critico está em vias de extinção e isto não é obra do acaso. Nós escolhemos diariamente dizer que sim a uma lógica capitalista que nos torna funcionais e alheios ao que demora e àquilo que às vezes não chega a lado nenhum como, por exemplo, ser-se humano. Olha Xuxu, é pelo facto destas condições me revoltarem que elas se tornam material dramatúrgico para um espetáculo meu. Xuxu, a revolta pela falta de amor é o que tenho para dar neste momento.
O espetáculo coloca a fisicalidade como veículo de protesto. De que forma trabalhaste com Marta Lapa e Mélanie Ferreira essa dimensão corporal do manifesto?
Xuxu, eu tinha uma grande vontade de que este espetáculo criasse, verdadeiramente, a oportunidade de encontro entre os seus intervenientes. Não queria que fosse um espetáculo que falasse sobre o encontro mas que fosse esse encontro, queria testar se ainda era possível fazê-lo no teatro e através dele. A fisicalidade das intérpretes foi o primeiro ponto de trabalho ao qual nos lançámos, quando lhes propus que trouxessem para a sala de ensaio as suas dores, as suas vontades e dúvidas. Era muito claro que durante a pesquisa física individual, de cada uma das intérpretes, à minha frente, eu assistia ao manifesto de dois corpos que neste contexto comunicavam códigos universais por si só. Duas intérpretes com idades distintas, com percursos nas artes performativas distintos e com lutas, ainda assim, muito semelhantes. A esse trabalho de manifesto físico individual, surgiram matérias que me foram dadas pelos seus corpos, pelas suas cabeças e espíritos e compus em combinação com outros elementos do meu universo imersivamente cotidiano, transformando tudo isto naquilo a que chamo de Abrir Fogo, Xuxu.
Há uma tensão no espetáculo entre a impotência do ativismo de ecrã e o desejo de ocupar o espaço real. Onde é que o teatro entra nessa equação?
Vivemos tempos de uma enorme confusão nas posturas que adotamos, quer nas redes sociais, quer na vida real, relativamente ao nosso ativismo que por vezes pode ser chamado de exibicionismo. Julgo que a mesma confusão se estende à falta de pensamento sobre o entretenimento que, por diversas vezes, é chamado de arte. Sabes, Xuxu, eu acho que é sobre este último ponto que o teatro tem espaço e vocabulário para construir discurso sobre a atualidade convocando a poesia, sua parente próxima, e dialogar com pontos de vista divergentes.
A pergunta que atravessa Abrir Fogo, como chegar à celebração por entre guerrilhas, ficou respondida ao longo dos ensaios, ou permanece em aberto em cada noite de espetáculo?
Prefiro viver rodeada de questões do que de respostas soberanas. As possibilidades de celebração, de abrir fogo e de, até, não se apresentar o espetáculo são as minhas melhores companheiras nestes últimos dias de criação, Xuxu.
A parceria com a artista plástica Lea Managil trouxe elementos visuais do espaço público para dentro do palco. Como foi construir essa linguagem partilhada entre teatro e artes visuais?
Criámos desde logo, quando encontrámos condições para colaborar, um plano de trabalho que fosse eficaz na articulação dos diferentes tempos de materialização de ideias, que estas duas artes necessitam. Após a residência de criação que fizemos durante uma semana, sucedeu-se um período de um mês destinado à construção das peças que compõem o espaço cénico, para então depois voltar a convocar as intérpretes e lançarmo-nos ao trabalho performativo. Xuxu, estou muito satisfeita com o resultado desta conversa entre o teatro e as artes visuais que foi desenvolvido no sentido de levantar questões entre a realidade e ficcão.
Foto: © Bruno Simão
Apoiar
Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.
Como apoiar
Se tiveres alguma questão, escreve-nos para info@coffeepaste.com
Mais
INFO
CONTACTOS
info@coffeepaste.com
Rua Gomes Freire, 161 — 1150-176 Lisboa
Diretor: Pedro Mendes
Inscreve-te na mailing list e recebe todas as novidades do Coffeepaste!
Ao subscreveres, passarás a receber os anúncios mais recentes, informações sobre novos conteúdos editoriais, as nossas iniciativas e outras informações por email. O teu endereço nunca será partilhado.
Parceiros