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Anna Leppänen: "Os sentimentos ambíguos são os mais difíceis de encarar"

Por

 

Pedro Mendes
20 de Maio de 2026

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Anna Leppänen: "Os sentimentos ambíguos são os mais difíceis de encarar"

Quatro anos depois de Vocês que Vivem, Anna Leppänen regressa à criação com Nó do Hábito, espetáculo que escreveu e encena, e que estreou a 14 de maio no CAL — Centro de Artes de Lisboa. A peça começa no dia do velório do irmão mais velho de Marta e Ingrid, duas mulheres que nunca saíram da casa onde cresceram. Em cena até 24 de maio, Nó do Hábito é um retrato de clausura, luto e dos laços familiares que tanto sustentam como prendem. Falámos com a criadora sobre o que mudou nela desde a primeira criação, sobre a escrita como ato íntimo e sobre a coragem de expor o mundo feminino num momento em que, nas suas palavras, o mundo está novamente a piorar para as mulheres.

Nó do Hábito é a tua segunda criação, depois de Vocês que Vivem. O que mudou em ti como criadora entre os dois espetáculos?

Passaram-se quatro anos. Muito de mim mudou. A vida teve reviravoltas, o mundo está diferente, para pior, claro. Penso que também muito à custa disso, se vai ganhando mais coragem para expor certos assuntos íntimos do mundo feminino. O mundo está novamente a piorar para nós. Coibirmo-nos de falar sobre o que sentimos e pensamos não será certamente a solução. Concluindo, sinto que o que realmente mudou é que o mundo está uma catástrofe mas vejo, por outro lado, uma consciência a crescer de que sozinhas, será tudo muito mais difícil de alcançar.


Voltaste a assinar o texto. Como é que a escrita e a encenação se alimentam mutuamente no teu processo?

A escrita é um acto solitário, sem público. E por isso muito íntimo. A encenação, juntamente com as várias referências de autores e artistas que me acompanham desde há muito, vem diluir os vários universos, sobrepor, de forma a traduzir a minha perspectiva sobre as relações humanas. À medida que escrevo vou olhando para imagens, vendo filmes, revisitando ou encontrando novos livros etc, que dialoguem com o que quero dizer. Depois vem a equipa de criativos que trazem, cada um deles, o seu mundo. É importante que o processo criativo seja uma partilha, um lugar de experiências, conversas, milhares de dúvidas. Há sempre muito material que vai para "a gaveta". Ainda assim, acredito mesmo que foi também esse material que nos fez mover para o sítio chamado “o certo”.


A sinopse fala de morte, de velório, de cinzas, mas também de uma espécie de alívio que só chega quando os vivos morrem também. De onde veio este impulso para escrever sobre o luto e a dependência entre os vivos e os mortos?

Perder alguém é a sensação mais abstracta e concrecta ao mesmo tempo. Nunca mais vemos a pessoa (o corpo), mas sabemos o que vivemos com ela e imaginamo-la. Há certos lutos que se fazem assim, com a memória da pessoa presente no dia-a-dia. Perguntamo-nos: A pessoa já morreu, mas e se ela estivesse aqui a fazer isto ou a ouvir aquilo? Como seria a nossa relação? Como seriam as rugas, cabelos brancos, opiniões? Tudo isso está apenas na nossa cabeça. Mas a nossa cabeça, as nossas emoções são tudo. O ser humano tem um espaço criativo infindável. Tudo cabe. Por isso procuremos o que nos sustenta para vivermos com esperança.


Marta e Ingrid vivem na casa de onde nunca saíram. O espaço doméstico tem um peso específico nesta peça? Como é que isso se traduz cenograficamente, no trabalho com a Daniela Cardante?

No trabalho da Daniela existe um ambiente decrépito, uma degradação. Procurámos algo que explorasse a tristeza, os costumes, a clausura destas mulheres. A Daniela Cardante e o Manuel Abrantes escolheram cores, formas e texturas que trouxeram espessura à vida destas mulheres. Foi um trabalho bem bonito. Gostei mesmo muito.


O título Nó do Hábito sugere algo que prende, que não se consegue desatar. O hábito de quem, ou de quê?

O hábito como paradigma familiar difícil de desenlaçar. Amamos e odiamos, tudo ao mesmo tempo. Os sentimentos ambíguos são os mais díficieis de se encarar e modificar, precisamente por serem demasiado confusos, por vezes avassaladores. Ainda assim, por mais pequenas que seja, acredito sempre que a mudança é possível.


Como é que trabalhas com os intérpretes, Ana Baptista, Ana Valente e Nuno Pinheiro, num texto que é teu? Há lugar para a negociação ou a palavra é ponto de partida fixo?

A palavra é ponto de partida mas também pretexto para se ver outras coisas noutros planos. Há espaço, aliás, estas personagens precisam mesmo de vir deles (dos intérpretes). Quanto mais se apropriarem do texto, mais humanas serão estas figuras e mais vitalidade terá este espectáculo. Neste momento, se este texto tivesse que ser feito por outras pessoas, não conseguiria imaginar. Parece que foi tudo escrito para esta rica equipa.


O que te inspira hoje?

A minha mãe e a minha irmã.


Foto: © António Ignês

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