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Assimétrico, o dueto de dança que Beatriz Valentim criou com Miguel Santos, estreou-se a 3 de outubro no Pequeno Auditório do Theatro Circo, em Braga. Foi um dos três projetos escolhidos na segunda convocatória do Supracasa, o programa de apoio às artes performativas da Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura. A residência de criação decorreu no Theatro Circo em setembro de 2025.
A peça parte das performances de David Byrne com os Talking Heads. Vai buscar-lhes a frontalidade no palco, a geometria na disposição do espaço e muitos dos movimentos criados pelo próprio Byrne. Em cena, os dois intérpretes são movidos por uma composição original de Débora Coquim, de ritmo complexo e frenético. A música é uma metáfora para as regras, obrigações e ansiedades da vida adulta.
O espetáculo é dirigido a adolescentes e quer aproximá-los da música e da dança, e chamar também as suas famílias. Nesta conversa, Beatriz Valentim fala do processo de criação, da relação entre o som e o corpo e da razão por que cria para esta faixa etária.
Assimétrico parte das performances de David Byrne com os Talking Heads. O que é que te atraiu na forma como ele usa o corpo em palco, e como passaste isso para um dueto de dança?
Já conhecia os Talking Heads, mas conheci mais a fundo o trabalho do David Byrne enquanto performer e escritor enquanto estava a trabalhar numa peça da Sílvia Real, em 2019. O que me entusiasmou foi a forma como bailarinos e músicos se unem num coletivo sem haver um lugar específico para músicos e um lugar que normalmente é mais espacial para bailarinos. Toda a estética é bastante geométrica e rítmica e eu adoro isso; remete-me para um lugar de marcha, protesto, revolução harmoniosa. Foi isso que eu quis trazer para este dueto, que inicialmente seria um grupo maior com músicos também; sendo um dueto, o que retiramos mais foi a frontalidade no uso do palco, a geometria na disposição espacial, e muitos dos movimentos criados pelo próprio Byrne. Ele não é bailarino de formação, mas tem uma identidade performática e corporal extraordinária. A nível coreográfico, os seus movimentos são muito particulares. Encontrei até um pequeno livrinho onde ele explica de onde vem os seus movimentos e, portanto, fui mesmo beber dessas influências para coreografar esta peça.
A peça mostra os intérpretes "movidos pelo poder do som ". Como trabalhaste com a Débora Coquim na composição original? A música veio antes do movimento, ou foram crescendo em conjunto?
Como metáfora para a vida adulta, os adultos em cena, os bailarinos, são movidos pelo poder do som como metáfora para as nossas regras, obrigações, imposições, medos e ansiedades e por isso a música precisava de ter esse critério, ter um lado frenético. Esses foram os primeiros inputs passados à Débora; basicamente foi-lhe pedido que fizesse algo complexo ritmicamente para que o corpo pudesse absorver essa complexidade da música. Ou seja, a música veio antes do movimento - nós já estávamos a construir alguns materiais coreográficos, mas sempre sem ter um ritmo específico; a música chegou muito cedo por isso começamos logo a colocar a coreografia na música e depois, mais no final, como a composição já estava quase terminada, o corpo é que se foi adaptando a ela. Tivemos de trabalhar bastante o nosso lado rítmico e capacidade de escuta dos diferentes instrumentos.
O projeto é dirigido a adolescentes e quer despertá-los para a música, a sua história e as suas formas de criar. Porquê este público? E porque achaste que a dança era o caminho para lá chegar?
Eu trabalho para este público há algum tempo porque ao longo da minha vida fui trabalhando com vários grupos de adolescentes, tanto em escolas de dança, mas mais particularmente, e o que mais me interessa, são os projetos comunitários com associações, com o Plano Nacional das Artes, com escolas secundárias, etc.
Acho que é uma fase da nossa vida particularmente complexa e onde ainda também há lugar para a imaginação, mas muitas vezes esse lugar não é desenvolvido. Como sabemos, não é na escola que essa imaginação é desenvolvida, infelizmente. O consumo cultural é escasso tambem e existe uma grande falha no desenvolvimento da nossa imaginação, da nossa capacidade empática, e estes adolescentes são os futuros adultos e estão muito próximos da idade adulta. Penso que deveríamos dar-lhes mais atenção e ouvi-los mais. Partir então de um espetáculo de dança que trabalha a musica foi uma forma de chegar até estas idades, convocá-los para este trabalho e, mais do que isso, levar este espetáculo para escolas e a estas idades. Levar também para as famílias destes jovens. O consumo cultural é muito reduzido no nosso país e por isso não me interessa só chamar estes adolescentes, mas também as suas famílias e criar assim novos públicos.
A dança, como sabemos, é uma área ainda com pouca visibilidade, principalmente nestas faixas etárias, onde muita gente nunca viu um espetáculo dança, não sabem o que é trabalhar na dança e por isso achei que lhes introduzi a dança e a música num não só espetáculo e num espetáculo que os convoca pode resultar numa energia bonita. É isso que eu quero fazer.
Assimétrico é um dos projetos escolhidos na segunda convocatória do Supracasa, o programa da Braga 25 para as artes performativas, e foi ao Pequeno Auditório do Theatro Circo. O que significou para ti este apoio, entre a residência e a estreia?
Este foi o apoio que desencadeou esta criação porque foi o primeiro apoio que o projeto teve. Foi por isso muito importante para que tudo se começasse a concretizar, desde a equipa, aos ideais cenográficas, etc. Entre a residência no Theatro Circo, em setembro de 2025, e a estreia, tivemos um ano, o que foi ótimo para trabalhar e pensar o que queríamos trazer a cena. Só tenho a agradecer pela oportunidade do programa da Braga 25 que sei que vai continuar e espero que traga muitos frutos para a criação artística em Portugal.
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