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Boa! Good! Sorte! Luck!

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Gonçalo Lamas
24 de Março de 2026

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Boa! Good! Sorte! Luck!

Durante meses, a Sara ocupou a Culturgest com um elogio ao que as paredes brancas escondem.


Deixado o casaco e a mochila nos cacifos de caução automática, em que a minha moeda de 1£ parece ter o mesmo valor funcional que 1€, começo a cantar na minha cabeça o título que a Sara deu à exposição. Ouço-me pensar: Boa! Good! Sorte! Luck!, como se o baralhar simétrico entre a expressão portuguesa e inglesa fizesse de cada palavra um voto por si só, para quem aqui entra, num bilinguismo menor ou maior em que a artista, muita da sua geração, e a cidade de Lisboa se cruzam.


Dá vontade de dizer que a Sara põe o mundo de pernas para o ar. Há dois manequins em pino de cabeça pela exposição, um que equilibra uma trama de pauzinhos dourados – “42% Poliéster” – outro que faz malabarismo com um pedaço de RoofMate, material de isolamento para tetos – “58% Poliéster”. Entre um e o outro, há “Sai em breve”, um vídeo em loop, com um loop dentro: a câmara do telemóvel vê o que o raio de uma bicicleta vê, atravessando London Bridge. Quem pela lente passa, faz a roda também, a andar, a saltar, ou parado.


Esta ponte é há séculos um ponto nevrálgico no lado leste da cidade. Tem estação de metro, várias paragens para autocarro e uma enorme estação de comboio com ligações a aeroportos e regiões vizinhas, onde muitos commuters vivem no conforto que Londres a pouquíssimos proporciona, gente que diariamente faz o vai-e-vem até à City, esse enclave jurisdicional onde a alta finança acelera a centrifugadora de capital e força laboral de que Londres, no seu todo, é o centro.


Pontuando a navegação ao longo de todo o espaço, vamos também encontrando uma série de desenhos a grafite em tamanho A2. Às vezes em díptico, outras em solo, cada um estabelece uma vinheta onde o interior da serpente é um balão de pensamento, abrindo um confessionário, um safe space, para pensamentos intrusivos, pequenas paranóias e boas verdades, do tipo does your boyfriend have keys now?.... É um gesto à Principezinho pós-pós-pós-puberdade em que, em vez de elefantes, se imaginam esqueletos com rabiscos em nuvem no lugar de caixas torácicas.


Remendo é um imperativo aqui, uma estratégia afirmativa. Praticamente todo o chão da exposição é um grande remendo, uma longa manta cosendo placas de MDF, provavelmente paredes de exposição numa ou noutra vida passada. Também na língua inglesa, to mend significa reparar ou, de facto, remendar. A viagem entre línguas não conheço, mas em “Boa Good Sorte Luck” é mesmo este gesto de cuidado tornado visível, uma forma de virar do avesso a infraestrutura material que sustenta a estética de um espaço expositivo e, assim, iluminar os traços que cada objeto leva consigo, na viagem obtusa e trabalhosa entre a galeria e o aterro.


Na altura em que conheci melhor a Sara, ela estava a construir as paredes do seu quarto na Safa House, uma squat no sudeste londrino, que foi outrora um espaço recreativo para os trabalhadores da fundição vizinha. Hoje em dia, as pessoas que a habitavam já de lá foram despejadas e o edifício aguarda a sua vez no ciclo de gentrificação da área, ou como diz um dos projetos que se propõe à obra: It awaits rejuvenation, ready to once again echo with the sounds of life and laughter [à espera de rejuvenescimento, pronta para ecoar de novo os sons da vida e do riso].


Já fora da Culturgest, Lisboa está muito molhada, capital de um país assolado há semanas por tempestades. Pessoas morreram, muitas outras sem teto ficaram. O primeiro-ministro fala ao país e endereça condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida.


Tanto governante como imobiliária usam figuras de estilo para aveludar a violência da realidade material em cima da qual falam. Não admira aliás que a palavra artista seja também um título pejorativo na língua portuguesa, tanto o subterfúgio como a glorificação unem o poder e a arte há séculos. Mas o trabalho da Sara passa-se lá nesse chão onde rejuvenation [rejuvenescimento] não é personificação bacoca, é mesmo gentrificação. Onde a vida não pede à arte que seja mais que a vida ou, nas palavras de Robert Filliou, figura importante do movimento Fluxus do qual Sara é de certo modo herdeira: L’art est ce qui rend la vie plus intéressante que l’art [a arte é o que torna a vida mais interessante que a arte].


Ao atravessar a estrada, vejo aos meus pés aviões, cruzar a piscina do céu. Ou então sou eu que estou de pernas para o ar.


Culturgest

22 novembro 2025 - 22 fevereiro 2026


Foto: © António Jorge Silva

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