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A PT-BR – Mostra de Teatro Brasil chega à terceira edição maior do que nunca. Até 28 de novembro apresenta 16 espetáculos de teatro, teatro-circo, dança, música e performance, vindos da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ao todo, envolve mais de 80 artistas e técnicos, em Portugal, Moçambique, Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau. Em Lisboa, o Chapitô volta a receber a programação, que este ano chega também a Cascais, ao Teatro Gil Vicente, e inclui três residências artísticas. Nos países africanos, a Mostra trabalha em parceria com os festivais Kuphanda, Mindelact, FESTIJ e DJINTIS.
Entre os destaques estão Meu Amor é Cego, uma comédia romântica protagonizada por dois atores cegos, Tybyra – Uma Tragédia Indígena, de João Nyn, e Migraaaantes, um espetáculo de teatro-circo construído a partir de relatos de refugiados na Europa.
Nesta conversa, Bruno Mariozz, promotor da Mostra, fala do percurso desde 2023, quando tudo começou com Mãe de Santo no Chapitô. Fala também da relação com os festivais africanos, do Brasil plural que a curadoria quer mostrar e do desafio de financiar uma mostra internacional desta dimensão.
A Mostra começou em 2023 com uma única apresentação, Mãe de Santo, no Chapitô. Três anos depois, são 16 espetáculos em cinco países. Como explicas este crescimento?
Acredito que esse crescimento seja resultado de um trabalho construído com muita persistência, afeto e, principalmente, através das relações que estabelecemos ao longo dos anos. Em 2023, chegamos ao Chapitô com o espetáculo Mãe de Santo, praticamente como uma experiência de intercâmbio. Queríamos apresentar o nosso trabalho, conhecer o público português e perceber quais caminhos poderiam surgir daquele encontro.
O que começou com uma apresentação transformou-se numa rede de colaboração entre artistas, produtores, festivais e instituições culturais. Fomos percebendo que existia um desejo muito grande de aproximação entre os países que compartilham a língua portuguesa, mas que ainda conhecem pouco da produção artística contemporânea uns dos outros.
O crescimento não aconteceu porque tínhamos uma grande estrutura financeira. Pelo contrário, ele nasceu das parcerias, da confiança e da vontade coletiva de fazer acontecer. Hoje, quando olhamos para essa trajetória, percebemos que a Mostra deixou de ser apenas uma programação de espetáculos brasileiros em Portugal e começou a tornar-se uma plataforma de circulação e intercâmbio cultural no espaço lusófono.
Em 2025 a programação passou por Portugal, Angola e Cabo Verde. Este ano chega também a Moçambique e à Guiné-Bissau. O que muda quando um projeto pensado a partir de Lisboa se torna uma mostra que circula pelo espaço lusófono?
Muda praticamente tudo, sobretudo a nossa responsabilidade.
Quando começamos, Lisboa era o nosso ponto de chegada. Hoje, Lisboa tornou-se também um ponto de partida, uma espécie de porto de conexão entre diferentes territórios da língua portuguesa.
Essa expansão faz-nos compreender que a lusofonia não pode ser pensada apenas a partir de Portugal e do Brasil. Precisamos reconhecer o protagonismo cultural dos países africanos, as suas produções artísticas, as suas histórias e as suas formas de interpretar o mundo.
Existe uma diversidade imensa dentro da língua portuguesa. Compartilhamos um idioma, mas temos experiências históricas, culturais e sociais muito diferentes. E é justamente nessa diversidade que está a riqueza do encontro.
O nosso objetivo não é simplesmente levar espetáculos brasileiros para outros países. Queremos construir relações de reciprocidade, conhecer os artistas locais, promover encontros e criar caminhos para que essas trocas aconteçam também no sentido inverso.
A presença em África faz-se com festivais locais como o Kuphanda, o Mindelact, o FESTIJ e o DJINTIS. Como se constroem estas parcerias e o que procuras em cada uma delas?
Essas parcerias são construídas a partir do diálogo e do reconhecimento do trabalho que esses festivais já desenvolvem nos seus territórios.
O Mindelact, em Cabo Verde, por exemplo, possui uma trajetória muito importante na promoção do teatro internacional e no encontro entre artistas de diferentes países. O FESTIJ, em Angola, o Kuphanda, em Moçambique, e o DJINTIS, na Guiné-Bissau, também representam espaços fundamentais de criação, resistência e circulação artística.
Não queremos chegar a esses países com uma programação pronta, desconsiderando os seus contextos culturais. Procuramos compreender as características de cada festival, as suas necessidades, os seus públicos e as possibilidades de intercâmbio.
Acredito muito numa relação horizontal. O Brasil tem muito a compartilhar, mas também tem muito a aprender com as experiências artísticas africanas.
O que procuramos é construir parcerias duradouras, que não terminem com uma apresentação.
Queremos que, a cada edição, essas relações se fortaleçam e possibilitem novas circulações, residências artísticas e projetos de criação conjunta.
Nesta edição, a curadoria abre-se ao teatro-circo, à dança, à música e à performance. Ainda faz sentido chamar-lhe uma mostra de teatro?
Faz todo o sentido, porque entendemos o teatro como um território de encontro entre diferentes linguagens.
O teatro contemporâneo já não cabe numa definição rígida. Hoje, a cena dialoga com a dança, o circo, a música, as artes visuais, a performance e as novas tecnologias. Essas linguagens cruzam-se constantemente e ampliam as possibilidades de criação.
A nossa curadoria acompanha esse movimento. Não queremos estabelecer fronteiras entre as expressões artísticas, mas apresentar trabalhos que tenham força poética, relevância cultural e capacidade de provocar encontros com o público.
O próprio Brasil é um país de enorme diversidade artística. Seria muito limitador apresentar apenas uma linguagem ou uma determinada estética teatral.
A Mostra continua a ser de teatro porque é a partir das artes da cena que construímos esse diálogo. Mas é também uma mostra da multiplicidade da criação brasileira.
Os espetáculos vêm da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Que Brasil é que a PT-BR quer mostrar ao público português e africano?
Queremos mostrar um Brasil plural, diverso e que muitas vezes não aparece nas representações mais tradicionais do país no exterior.
O Brasil não é uma única identidade cultural. Somos um território de muitas histórias, sotaques, manifestações artísticas, ancestralidades e formas de compreender o mundo.
A nossa curadoria procura valorizar essa diversidade, trazendo trabalhos que dialogam com questões sociais, raciais, identitárias e políticas, mas também com o humor, a música, a infância, a afetividade e a celebração da vida.
Temos um compromisso muito forte com a presença de artistas negros, indígenas, mulheres e grupos que historicamente tiveram menos espaço nos circuitos culturais.
Queremos que o público português e africano conheça um Brasil contemporâneo, criativo, contraditório e profundamente conectado às suas raízes.
E queremos também combater a ideia de que a cultura brasileira se resume a determinados estereótipos. A nossa produção artística é muito mais ampla e complexa do que aquilo que habitualmente circula internacionalmente.
Meu Amor é Cego é uma comédia romântica protagonizada por dois atores com deficiência visual. Porque é que era importante incluir este espetáculo na programação?
Porque acredito que a representatividade também precisa estar presente nas histórias que contamos e, principalmente, em quem tem o direito de contá-las.
Meu Amor é Cego, protagonizado por Sara Bentes e Jefinho Farias, é uma comédia romântica que coloca dois artistas cegos no centro de uma narrativa sobre amor, desejo, encontros e desencontros.
E isso é muito importante porque rompe com uma expectativa recorrente de que artistas com deficiência precisam necessariamente abordar a deficiência como tema central das suas obras.
Eles estão em cena para contar uma história de amor, provocar o riso, emocionar e mostrar a potência do seu trabalho artístico.
A Sara, inclusive, já participou da primeira edição da Mostra, e é muito especial acompanhar esse percurso.
Para nós, inclusão não significa apenas garantir o acesso do público aos espaços culturais. Significa também reconhecer que pessoas com deficiência são criadoras, protagonistas e produtoras de conhecimento artístico.
Tybyra recupera a história de um indígena Tupinambá executado em 1614. Que lugar ocupa a memória indígena na Mostra deste ano?
A memória indígena ocupa um lugar fundamental porque não podemos falar da identidade brasileira sem reconhecer os povos originários e as violências que marcaram a nossa formação histórica.
Tybyra – Uma Tragédia Indígena, de João Nyn, traz para a cena uma história atravessada pela colonização, pela intolerância e pelo apagamento de identidades.
Apresentar esse espetáculo em Portugal tem também uma dimensão simbólica muito importante. Estamos a dialogar com uma história colonial que conecta diretamente os nossos países, mas que nem sempre é discutida a partir da perspectiva dos povos indígenas.
A arte tem essa capacidade de revisitar a história e questionar as narrativas oficiais.
Ao incluir Tybyra, queremos contribuir para que essas memórias sejam reconhecidas e para que os artistas indígenas tenham cada vez mais espaço para contar as suas próprias histórias.
Não se trata apenas de olhar para o passado. Trata-se de compreender que os povos indígenas estão vivos, produzem arte contemporânea e continuam a lutar pelo direito à existência, à memória e à representação.
Migraaaantes parte de relatos de refugiados na Europa. Como recebe o público português um espetáculo brasileiro sobre migração, sabendo que a comunidade brasileira é hoje uma das maiores no país?
Acredito que Migraaaantes chega num momento muito significativo, porque a migração é uma realidade presente na vida de milhares de pessoas que vivem em Portugal.
O espetáculo utiliza a linguagem do teatro-circo para abordar deslocamentos, fronteiras, pertencimento e as dificuldades enfrentadas por quem precisa deixar o seu território de origem.
Embora parta de experiências de refugiados, a obra também nos convida a refletir sobre questões mais amplas: o que significa pertencer a um lugar? O que acontece quando somos vistos como estrangeiros? Quais são as fronteiras invisíveis que construímos entre as pessoas?
Para a comunidade brasileira em Portugal, essas questões podem ganhar uma dimensão muito próxima da experiência cotidiana. Mas acredito que o espetáculo também pode provocar reflexões importantes no público português.
A arte não precisa oferecer respostas prontas. Muitas vezes, o seu papel é criar condições para que possamos olhar para o outro com mais humanidade.
Num momento em que os discursos de intolerância e xenofobia ganham espaço em diferentes sociedades, considero fundamental que o teatro continue a promover o diálogo e a empatia.
As três residências artísticas em Lisboa, Danças Possíveis, A Vida Privada das Árvores e Notícias em Cena, levam a Mostra para lá da apresentação de espetáculos. O que esperas que fique destes encontros entre artistas brasileiros e portugueses?
Talvez esse seja um dos desdobramentos mais importantes desta edição.
Durante muito tempo, a circulação internacional de espetáculos esteve concentrada na lógica de chegar a um país, apresentar uma obra e regressar. É uma experiência importante, mas acreditamos que podemos ir além.
As residências artísticas permitem que os artistas permaneçam juntos, compartilhem metodologias, confrontem diferentes formas de criação e desenvolvam novas experiências coletivas.
Com Danças Possíveis, A Vida Privada das Árvores e Notícias em Cena, queremos transformar a Mostra num espaço de investigação e formação, e não apenas de exibição.
O mais importante é aquilo que permanece depois do encerramento da programação: as relações profissionais, as amizades, as ideias e os projetos que podem surgir desses encontros.
Gostaria muito que, daqui a alguns anos, pudéssemos olhar para trás e identificar espetáculos, companhias e processos criativos que nasceram dessas residências.
Quando um festival consegue estimular novas criações, ele deixa um legado que ultrapassa o período das apresentações.
Este ano a Mostra chega a Cascais, ao Teatro Gil Vicente, e abre com um musical inspirado nas canções de Arlindo Cruz. Porquê Cascais e porquê começar com este espetáculo?
A chegada ao Teatro Gil Vicente, em Cascais, representa um passo importante na ampliação territorial da Mostra em Portugal.
Queremos que a PT-BR dialogue com diferentes cidades e públicos, para além do circuito cultural de Lisboa. Cascais possui uma relação muito próxima com a comunidade brasileira e oferece uma oportunidade importante de aproximação entre diferentes públicos.
E abrir a Mostra com Quando a Gente Ama tem um significado muito especial.
Arlindo Cruz é um dos grandes cronistas da vida cotidiana brasileira. As suas composições falam de amor, encontros, separações, amizade, alegria e resistência. São histórias que atravessam gerações e que encontram identificação em diferentes culturas.
O espetáculo acontece dentro de uma roda de samba, um espaço que, para nós, representa muito mais do que música. A roda é um lugar de convivência, partilha, memória e construção coletiva.
E acredito que essa imagem traduz muito bem o espírito da Mostra: pessoas diferentes reunidas em torno da arte, compartilhando histórias e experiências.
Começar com o samba é também celebrar uma das expressões culturais mais importantes do Brasil, profundamente ligada às nossas matrizes africanas.
Além disso, a abertura contou com interpretação em Língua Gestual Portuguesa, reforçando o nosso compromisso com a ampliação do acesso à cultura.
Montar uma mostra com mais de 80 artistas e técnicos em cinco países exige muito em termos de produção e financiamento. Quais foram os maiores desafios desta edição?
Sem dúvida, o maior desafio continua a ser o financiamento.
Realizar uma mostra internacional dessa dimensão exige uma estrutura muito complexa.
Estamos a falar de passagens aéreas, alojamento, alimentação, transporte de cenários, equipamentos técnicos, direitos autorais, comunicação e toda a logística necessária para garantir que os espetáculos aconteçam em diferentes países.
Quando ampliamos a circulação para Angola, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau, essa complexidade aumenta consideravelmente. Cada território possui as suas particularidades, estruturas, custos e desafios de produção.
E existe uma questão que considero importante destacar: muitas vezes, os projetos culturais brasileiros conseguem apoio para a criação e a circulação internacional, mas ainda enfrentam dificuldades para financiar a sua permanência e operação nos países de destino.
Por isso, as parcerias com festivais, teatros, instituições culturais e representações diplomáticas são fundamentais.
Também precisamos reconhecer o enorme esforço dos artistas e das equipas de produção, que muitas vezes trabalham muito além das condições ideais para garantir que os projetos aconteçam.
Mas o desafio não é apenas financeiro. É também construir uma rede de colaboração que seja sustentável e que permita a continuidade da Mostra.
Não queremos realizar uma grande edição e depois desaparecer. Queremos consolidar um projeto permanente de circulação das artes cênicas brasileiras no espaço lusófono.
Acredito que a cultura precisa ser compreendida como investimento, e não apenas como despesa. Quando levamos um espetáculo brasileiro a outro país, estamos a movimentar a economia criativa, promovendo a nossa língua, fortalecendo relações diplomáticas e criando oportunidades de trabalho para dezenas de profissionais.
A PT-BR nasceu de um encontro e continua a crescer porque acreditamos que a arte é uma das formas mais potentes de aproximar pessoas e territórios. O nosso maior desejo é que essa rede continue a expandir-se e que a circulação cultural entre Brasil, Portugal e África seja cada vez mais uma via de mão dupla.
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