TUDO SOBRE A COMUNIDADE DAS ARTES

Mantém viva a cultura independente — apoia o Coffeepaste e ajuda-nos a chegar mais longe.

Mantém viva a cultura independente — apoia o Coffeepaste e ajuda-nos a chegar mais longe.

Selecione a area onde pretende pesquisar

Conteúdos

Classificados

Notícias

Workshops

Crítica

Entrevistas

Carlo Ratti: Desenhar cidades num mundo em mudança

Por

 

Pedro Mendes
21 de Março de 2026

Partilhar

Carlo Ratti: Desenhar cidades num mundo em mudança

Entre a arquitetura, a engenharia e a investigação aplicada, Carlo Ratti tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais consistentes na forma como pensamos a cidade contemporânea. Diretor do MIT Senseable City Lab e fundador do estúdio Carlo Ratti Associati, o seu trabalho cruza dados, tecnologia e espaço urbano, propondo uma leitura da cidade como sistema vivo, em constante adaptação.


Ao longo dos últimos anos, tem explorado de forma prática aquilo que muitas vezes permanece apenas no campo teórico: como é que a tecnologia pode transformar a experiência urbana sem perder a dimensão humana. Esse equilíbrio, entre eficiência e significado, entre inovação e cultura, tornou-se central no seu percurso.


Em 2025, assumiu a curadoria da Bienal de Arquitetura de Veneza, sob o título “Intelligens. Natural. Artificial. Collective.”. A proposta aponta para uma mudança de foco: da ideia de mitigação para uma lógica de adaptação, convocando diferentes formas de inteligência - humana, artificial e ecológica - para repensar o papel da arquitetura num contexto de crise climática.


Nesta conversa, partimos do seu percurso e dos seus projetos para chegar a uma questão mais ampla: o que pode hoje a arquitetura, e o pensamento urbano, responder a um mundo em rápida transformação.


O seu trabalho cruza arquitetura, design, engenharia e tecnologia. Como se define hoje: arquiteto, investigador, inventor, ou um pouco de tudo?

Os desafios que enfrentamos hoje, das alterações climáticas à segregação social e à transformação digital das cidades, exigem uma forma de conhecimento mais ampla e mais interligada. Gosto de pensar nos arquitetos… como dizemos em Open Source Architecture… como parte de uma nova geração “coral” de profissionais, pessoas que trabalham entre disciplinas e, crucialmente, lado a lado com as comunidades para dar forma a soluções coletivas criativas. Tanto no MIT Senseable City Lab como na CRA–Carlo Ratti Associati, movemo-nos entre investigação, design e prototipagem, espaços onde as fronteiras se diluem e a descoberta acontece.


Que influências marcaram mais o seu percurso inicial e como é que elas ainda ressoam no seu trabalho atual?

Cresci em Turim, rodeado tanto pelo rigor da engenharia como pela cultura da arquitetura. O meu pai e o meu avô eram engenheiros, por isso esse diálogo entre precisão e imaginação fez sempre parte do meu crescimento. Com o tempo, fiquei fascinado pela forma como a arquitetura se liga a outros campos. Como escreveu Vitrúvio em De Architectura, ela situa-se na interseção entre ciência e arte. Mais tarde, quando era estudante em Cambridge (numa fase um pouco mais rebelde), ajudei a lançar o “Manifesto di Cambridge”, do qual Umberto Eco foi um dos primeiros signatários; a sua Opera Aperta, com a sua visão da obra inacabada e coletiva, marcou profundamente o meu pensamento. Essas influências continuam hoje a orientar-me na forma como vejo as cidades como sistemas vivos que evoluem através da inteligência coletiva.


No MIT Senseable City Lab e no seu estúdio em Turim, tem trabalhado entre academia e prática. Como concilia estes dois mundos?

Para mim, não são dois lados da mesma moeda. A academia oferece a liberdade de explorar, prototipar, arriscar, falhar de forma produtiva. A prática, por outro lado, ancora essas ideias na realidade, traduzindo-as em forma e impacto.


No MIT Senseable City Lab, o nosso trabalho culmina frequentemente no que chamamos um urban demo, um protótipo tangível testado diretamente na cidade. A partir daí, na CRA, essas experiências evoluem para projetos construídos. Cada lado alimenta o outro num tipo de ciclo recursivo, criando um diálogo dinâmico entre investigação e concretização.


Muitos dos seus projetos, do Copenhagen Wheel ao Digital Water Pavilion, exploram a interação entre pessoas, tecnologia e cidade. Que projeto considera ter sido mais transformador para si?

Se quisesse fugir à pergunta, diria que o próximo projeto é sempre o mais transformador, e de certa forma isso é verdade. Mas, olhando para trás, Real Time Rome, um estudo que fizemos no Senseable City Lab, mudou realmente a forma como vejo as cidades. Ao mapear os rastos digitais do movimento em Roma, revelámos o pulso vivo da cidade. Essa ideia continua a ecoar nos projetos que fazemos hoje…


Mais recentemente, apontaria talvez para uma forma de trabalhar mais do que para um único projeto. A curadoria da Bienal de Arquitetura de Veneza 2025, Intelligens. Natural. Artificial. Collective., reuniu mais de 750 participantes, de arquitetos a chefs, através de uma convocatória aberta que explorou como diferentes formas de inteligência (natural, artificial, coletiva) podem trabalhar em conjunto. Introduzimos também o primeiro Manifesto de Circularidade da Bienal e enquadrámos Veneza como um laboratório vivo, redefinindo a autoria, privilegiando a colaboração em detrimento da hierarquia e ligando a exposição a iniciativas globais como a COP30 e a C40.


A sustentabilidade e a adaptação climática estão no centro do debate urbano. Que soluções concretas vê emergir nas cidades?

Precisamos de passar da mitigação à adaptação, de reduzir danos para aprender a viver com a mudança. O passo mais urgente é reconhecer que já não precisamos de construir mais. Em muitas partes do mundo, as populações estão a diminuir, e o verdadeiro desafio agora é adaptar o que já existe para que responda a um clima em mudança. Em diferentes contextos urbanos, a arquitetura começa a adotar sistemas adaptativos: estruturas que evoluem com as condições em vez de lhes resistirem.


Foi curador da Bienal de Arquitetura de Veneza 2025. O que significou pessoalmente este convite?

Ser nomeado foi simultaneamente uma honra e uma responsabilidade. Veneza sempre encarnou o diálogo entre humanidade e natureza, uma cidade literalmente construída sobre a água, que negoceia a sua fragilidade com engenho. Curar aqui significa envolver-se não apenas com a arquitetura, mas com a resiliência do nosso futuro comum. Nesse sentido, está profundamente alinhado com os temas que temos explorado na nossa investigação: como o ambiente construído pode adaptar-se e “sentir”, e como a tecnologia pode ajudar-nos a aprender com a natureza em vez de a dominar.


O tema escolhido, “Intelligens. Natural. Artificial. Collective.”, é bastante amplo. Como o sintetizaria em poucas palavras?

Trata-se de expandir a forma como pensamos a inteligência. Hoje tendemos a reduzi-la a algoritmos ou à inteligência artificial, mas Intelligens olha para todo o espectro — natural, artificial e coletivo. A ideia é simples: enfrentar desafios complexos como as alterações climáticas exige muitos tipos de inteligência a trabalhar em conjunto. A Bienal torna-se um espaço onde essas formas se encontram, de arquitetos e cientistas a chefs e filósofos, para imaginar novas formas de habitar um planeta em transformação.


Descreveu a exposição como um “organismo fractal”. O que quer dizer com isso?

Um fractal repete-se em diferentes escalas, da menor parte ao todo. A Bienal segue a mesma lógica: um sistema vivo onde cada instalação responde à anterior e gera a seguinte. Do plano geral à mais pequena exposição, emergem os mesmos padrões de colaboração e feedback, transformando a mostra num espaço de experimentação em vez de uma exposição estática.


O manifesto lançado em Madrid fala de uma “arquitetura da adaptação”. Na prática, o que muda em relação à ideia mais clássica de “mitigação” climática?

A mitigação centra-se em reduzir emissões. A adaptação, por sua vez, implica abraçar a incerteza. Significa projetar edifícios e cidades que consigam ajustar-se, transformar-se e responder a condições em mudança. A arquitetura também tem de se tornar responsiva, capaz de aprender com dados e experiência. É uma passagem da previsão para a resiliência, do controlo para a evolução. Não me interpretem mal: a mitigação continua a ser importante… mas, face ao estado do mundo, a adaptação tornou-se imperativa.


Veneza, como laboratório vivo, enfrenta os seus próprios desafios ambientais. O que pode ensinar ao mundo?

Para citar Italo Calvino… “Sempre que descrevo uma cidade, estou a dizer algo sobre Veneza.” Veneza ensina-nos que a sobrevivência depende do engenho e da coexistência. Durante séculos, adaptou-se às marés e ao turismo. Hoje, enfrentando a subida do nível do mar e novas pressões sociais, continua a experimentar, das barreiras MOSE a novos sistemas de gestão de visitantes. Veneza evolui e resiste, lembrando-nos que a resiliência não consiste em resistir à mudança, mas em repensar a forma como habitamos a fragilidade. Em muitos aspetos, a Veneza de hoje é o mundo de amanhã.


Acredita que a inteligência artificial vai transformar o urbanismo tanto quanto o automóvel ou a eletricidade transformaram as cidades no passado?

A inteligência artificial vai transformar as cidades. Não redesenhará o mapa urbano, mas mudará a forma como as cidades sentem, aprendem e respondem.


Que conselho deixaria a jovens arquitetos ou criadores que querem trabalhar nesta interseção entre arte, ciência e tecnologia?

Mantenham-se curiosos e interdisciplinares. A colaboração entre disciplinas — e entre inteligências, naturais ou artificiais — é essencial. Os desafios que temos pela frente, das alterações climáticas à desigualdade social, exigem que projetemos em conjunto, aprendamos com o feedback e permaneçamos abertos à mudança.


Como nos lembra Jules et Jim, de Truffaut, “o futuro pertence aos curiosos”. A arquitetura, tal como a cidade, é uma obra viva e inacabada, e cabe à próxima geração continuar a compô-la, em conjunto.


Foto: © CRA Carlo Ratti Associati

Apoiar

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Como apoiar

Se tiveres alguma questão, escreve-nos para info@coffeepaste.com

Segue-nos nas redes

Carlo Ratti: Desenhar cidades num mundo em mudança

CONTACTOS

info@coffeepaste.com
Rua Gomes Freire, 161 — 1150-176 Lisboa
Diretor: Pedro Mendes

Publicidade

Quer Publicitar no nosso site? preencha o formulário.

Preencher

Inscreve-te na mailing list e recebe todas as novidades do Coffeepaste!

Ao subscreveres, passarás a receber os anúncios mais recentes, informações sobre novos conteúdos editoriais, as nossas iniciativas e outras informações por email. O teu endereço nunca será partilhado.

Apoios

03 Lisboa

Copyright © 2022 CoffeePaste. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por

Carlo Ratti: Desenhar cidades num mundo em mudança
coffeepaste.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile