Conteúdos
Agenda
COFFEELABS
Recursos
Sobre
Selecione a area onde pretende pesquisar
Conteúdos
Classificados
Notícias
Workshops
Crítica
Por
Partilhar

O Teatro Taborda recebe, nos dias 26 e 27 de Setembro, a 19.ª edição do Try Better, Fail Better, festival produzido pelo Teatro da Garagem que este ano apresenta quatro novos projectos de teatro, performance e criação multidisciplinar. As propostas, seleccionadas através de uma open call realizada entre Abril e Maio e desenvolvidas ao longo de um mês de residência artística, estreiam em absoluto, em ambos os dias, entre as 15h00 e a meia-noite, no Auditório e na Sala de Ensaios do Taborda.
Desde 2008 que o Try Better, Fail Better funciona sem júri, prémios ou vencedores, afirmando-se como plataforma de apoio à criação em que o erro, o risco e a experimentação são assumidos como motores do processo artístico. Nesta edição, o festival reforça ainda a sua rede de cumplicidades institucionais e artísticas em Lisboa, ao colaborar com o La Rage e a Tasca das Artes.
Falámos com Carlos J. Pessoa, director artístico do Teatro da Garagem, sobre esta 19.ª edição.
O Try Better, Fail Better chega à 19.ª edição sem júri, prémios ou vencedores. Passados quase 20 anos, sentes que essa recusa da lógica competitiva se tornou mais necessária ou mais difícil de sustentar num contexto cultural cada vez mais orientado para resultados?
Apesar de todas as dúvidas e crises que acompanham esta longa gesta que é o Try Better, ou por isso mesmo, tenho para mim que se tornou mais premente, e a resposta está no contexto que vivemos. Cada vez mais tudo se organiza por resultado, o que torna raro um lugar onde o resultado não é a medida. Prefiro sempre a lógica colaborativa à competitiva. A competição por tudo e por nada redunda em exclusão e empobrece aquilo que me interessa na experiência cultural: a interferência entre gerações, entre linguagens, entre pessoas que, sem esta oportunidade, não se escolheriam umas às outras. É aí que algo acontece. Sustentar isto não se tornou mais difícil: continua a haver participantes que abraçam o Try Better com empenho e generosidade. O que se tornou mais difícil foi explicá-lo a quem só vê rankings e estrelinhas.
Como é que o Teatro da Garagem escolhe, entre as candidaturas da open call, os quatro projectos que vão ocupar o mês de residência? O que procuram ver nessa fase inicial?
Todos os anos reavaliamos a metodologia de escolha. Este ano centrámo-nos na consistência e na diversidade. Consistência entre aquilo que o projecto quer fazer e os meios que propõe para o fazer; não é preciso estar resolvido, é preciso ter critério. Diversidade porque quatro projectos semelhantes comprometeriam a oferta. É da ponderação destes dois factores que se faz a escolha, que é colegial: conversamos muito e decidimos em equipa. Este procedimento motiva desde logo o espírito de colaboração de que falei, e obriga-nos a perceber a equipa e o papel de cada um antes de pedirmos o mesmo aos artistas.
Fala-se do erro, do risco e da experimentação como "motores" da plataforma. Na prática, como é que isso se traduz no acompanhamento que dão aos artistas durante o mês de residência?
De ano para ano temos melhorado as condições de trabalho dos participantes, e isso representa um enorme esforço de que nos orgulhamos. Os artistas têm tempo, espaço, recursos logísticos e financeiros, uma equipa que os acompanha e, principalmente, empenho na concretização das suas ideias. E essa concretização faz-se por tentativa e erro; querer acertar à primeira pode ser uma borla dos deuses, não mais que isso. Isso aplica-se também a nós: houve edições em que se votou o espectáculo preferido, a pedido dos próprios participantes, e abandonámos essa via porque se revelou injusta; punha a competir projectos que não são comparáveis, e era exactamente isso que o festival existia para evitar. A excepção não invalida o método.
Esta edição reúne linguagens muito diferentes: palhaçaria e teatro físico, criação multidisciplinar em torno da fotografia, performance tragicómica, encenação coral a partir de Alice no País das Maravilhas. Há algum fio condutor que reconheças entre estes quatro projetos, mesmo que não tenha sido procurado?
Há uma recusa comum, embora não tenha sido procurada, porque não há tema na open call. Os quatro projectos, a meu ver, recusam coincidir com aquilo que se espera deles, e nenhum o faz em nome próprio: todos criam intermediários, figuras de alteridade, que são a condição para poderem dizer alguma coisa. Isso repete-se de tal modo que não me parece escolha. A inevitabilidade, porém, não é artística, é existencial: é a condição em que estes artistas se encontram, e não é uma condição simpática. Artisticamente, fazer dela matéria de trabalho, de resistência em vez de a sofrer, de forma mais ou menos resignada, exige coragem, imaginação e sentido de humor. Como se concretiza, e se é levado até ao fim, é o que os espectadores terão de descobrir. Importa sublinhar que constato uma insistência, não proponho uma moldura, porque o que me mobiliza no Try Better é precisamente a resistência ao quadro estável e previsível. Cada projecto tem uma inquietude própria, de quem indaga através da cultura em vez de se exibir ou de se aproveitar.
O festival cresce este ano para novas cumplicidades com o La Rage e a Tasca das Artes. O que representa esta abertura da Garagem a outros espaços e estruturas de Lisboa?
Representa a vontade de tratar o festival como um acontecimento aberto. O La Rage e a Tasca das Artes são espaços com público próprio e vida própria, e essa rede de cumplicidades faz com que o festival não dependa apenas de quem já sabe onde é o Teatro Taborda. É sempre bom cativar para lavrar melhor, porque as sementes voam.
As conversas conduzidas por Rui Maria Pêgo, no Varandim, são um elemento recorrente do festival. Que papel achas que esse espaço informal de conversa tem na forma como o público se relaciona com os espectáculos?
O Rui é um excelente comunicador e, sobretudo, alguém interessado e atento. Essas qualidades permitem que as obras acabadas de estrear, ainda a quente, encontrem uma ressonância crítica informal que me parece extremamente válida e coerente com os princípios colaborativos do festival. Permite também que o público faça parte activa de um processo que não termina nas apresentações públicas; pelo contrário, começa e difunde-se a partir delas.
Desde 2008 que o Try Better, Fail Better apoia a criação em teatro, dança e performance. Olhando para trás, há algum projecto ou artista que tenha passado pela plataforma e cujo percurso posterior sintam como prova de que o modelo funciona?
Há vários, uns mais públicos que outros. Não é elegante fazer destaques e não queremos condicionar o mérito de ninguém. E para o que importa creio que o tecido teatral já reconhece no Try Better um espaço-tempo de experimentação e apresentação com um lugar particular. Curiosamente, é um festival onde a curadoria não ofusca os artistas, onde estes são de facto protagonistas.
O nome do festival é também uma declaração de intenções. Depois de 19 edições, achas que o meio artístico português já incorporou essa ideia de que falhar faz parte do processo criativo, ou continua a ser uma excepção que o Teatro da Garagem defende sozinho?
Infelizmente ainda não está interiorizado, e creio, pela minha experiência ao longo de tantos anos, que cada vez menos. Sei que estas coisas são cíclicas; não me parece que este seja apenas mais um ciclo. Procura-se cada vez mais uma arte panfletária, assente em certezas que comprometem o espaço crítico e criativo que a experiência artística pressupõe. Cada vez se duvida menos.
Para quem vai ao Teatro Taborda nestes dois dias, das 15h00 à meia-noite, qual é a experiência que gostavas que tivessem? Mais próxima de uma maratona de descobertas ou de um convívio prolongado à volta da criação?
As duas coisas, e não por indecisão: uma alimenta a outra. A maratona é necessária porque o tempo, a duração, a gestação são o que dá sentido a isto; não se atravessam quatro estreias sem que algo sobressalte, desloque ou estabilize. E é precisamente essa travessia longa que cria a convivialidade: as pessoas ficam, comem, discutem entre espectáculos, e sem esse laço com os outros não saímos de nós para nos encontrarmos enquanto artistas e, sobretudo, enquanto pessoas. Uma maratona sem convívio seria consumo acelerado de shopping center; um convívio sem maratona não teria assunto nem conversa.
Há um plano ou desejo para o que o Try Better, Fail Better possa ainda vir a ser, duas décadas depois de ter começado?
Ouvir melhor para dizer bem. É um mote que se tem vindo a consolidar e que já é quase um método, não apenas a título pessoal, mas no que concerne às responsabilidades de uma companhia como o Teatro da Garagem enquanto serviço público diversificado. Duas décadas depois, é o que ainda há para aprender: quase tudo.
Foto © Carlos Porfírio
Apoiar
Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.
Como apoiar
Se tiveres alguma questão, escreve-nos para info@coffeepaste.com
Mais
INFO
CONTACTOS
info@coffeepaste.com
Rua Gomes Freire, 161 — 1150-176 Lisboa
Diretor: Pedro Mendes
Inscreve-te na mailing list e recebe todas as novidades do Coffeepaste!
Ao subscreveres, passarás a receber os anúncios mais recentes, informações sobre novos conteúdos editoriais, as nossas iniciativas e outras informações por email. O teu endereço nunca será partilhado.
Parceiros