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A Garota não apresentou "Carta Branca: A vulgar mulher extraordinária" este fim de semana no CCB. Já sigo o trabalho dela há algum tempo, mas não tinha tido oportunidade de ver nenhum concerto; por isso, decidi: é este.
Enquanto comprava os bilhetes, dei por mim a trautear a música 'Que mulher é essa'. E dei por mim a pensar que a mãe, quem quer que tivesse sido, nada teria de vulgar e muito teria de extraordinário pelo que oiço, leio e vejo da Cátia.
Sábado. 19h. Sala cheia.A fila à porta do CCB está expectante, entusiasmada. Pronta a mergulhar de cabeça sem perceber que esta é a piscina dos Grandes.
Sabíamos todos ao que íamos — a homenagem à mãe da Cátia. Mas não sabíamos que íamos ser adotados como irmãos na partilha daquela mãe tão sua que é, afinal, o reflexo das mães de muitos de nós. A Maria Fernanda, durante aquelas duas horas, foi a minha Maria da Ressurreição.
Na simplicidade de abordagem — não por ser simplista, mas por ser simplificada — conseguimos ir adentrando vários temas que, em sociedade, nos parecem difíceis de definir e até compreender.
Começamos no Luto. Porque sabemos que a perda existiu. E podíamos ficar pela dor, pelo peso, pelo desalento. Mas a Cátia levou-nos, antes, à celebração. A celebração da vida. Com todas as rasteiras, com todas as injustiças. Com toda a força que vem de quem sabe o mundo que quer deixar para quem fica. E essa celebração da vida não é, efetivamente, uma festa. É o reconhecimento de cada cicatriz da Maria Fernanda. De cada cicatriz de todas as Marias, de todas as Fernandas, de todas as Cátias, de todas as Tânias. De cada ferida - aberta, infetada ou a sarar - de quem perde pais, de quem perde filhos, de quem luta (com quantos braços consegue) para que nada falte aos seus. De quem se anula.
Quem terias sido se tivesses tido a possibilidade de seres tu?
De quem é invisível - mas à custa das suas mãos, dos seus baldes, dos seus aventais - continua a deixar a cidade limpa para tantos que as desprezam.
De quem segue o papel de dar prazer sem nunca se descobrir a si própria, porque a sociedade calada, envergonhada dos seus desejos, prefere manter a imagem da mulher submissa, puritana e obediente.
E, pasme-se, o ponto de interrogação dirige-se também ao homem. Ao pai. O que ensinas ao teu filho? O que explicas à tua filha? E este é, para mim, dos pontos mais sublimes desta apresentação: porque nenhuma sociedade é justa ou completa se o trabalho de educar e formar cidadãos ficar unicamente nos ombros das mulheres.
Passamos pelos cuidados de saúde nos nossos hospitais — e sobre o que será preciso para tirar o SNS dos cuidados intensivos. Falamos da violência doméstica, de quem não se cala e do orgulho que estes nos dão.
Sempre, sempre à beira da quebra emocional, com certeza. E mesmo que o aviso de sala tenha dito que seria preferível palmas no fim, há demasiada emoção contida no peito de cada um para não rebentar entre o estalar descompassado das mãos.
Porque, afinal, a Cátia está a abrir a sua porta — a escancarar-se a todos. E nós limpamos os pés à entrada e sabemos que não somos os mesmos depois de visitar todas estas divisões. Porque, como já li em alguns comentários, nós não fomos assistir a um concerto. Fomos atravessados pela vida.
Não sabemos o que a Maria Fernanda teria sido se pudesse escolher ter sido ela própria. Mas temos todos a certeza única que parte do que podia ter sido passou para a Cátia e está livre, de guitarra na mão e de coração aberto, por muito que as cicatrizes deixem marca.
A todas as Marias Fernandas — a da Cátia e as nossas. De cada um de nós. As que ainda podemos abraçar e fazer carinhos e as que levamos no peito em cada luta que havemos de travar.
Obrigada Cátia.
Foto: © CCB e Nuno Magalhães
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