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Cartas ao Panteão

Cartas ao Panteão (II)

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Ricardo Cabaça
24 de Novembro de 2022

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Cartas ao Panteão (II)

 Meu caro Heiner,

 

Uma coisa que liga o passado ao futuro é a ideia de herança e aquilo que nos é legado. A herança que recebemos nem sempre é material, por isso é desvalorizada quando não tem forma nem peso. Gosto de me sentir um herdeiro de coisas imateriais, daquelas que ocupam um espaço interior, daquelas que nos preenchem em absoluto. É assim que vivemos na solidão temporária, quando nos viramos em direção aos ossos e descobrimos novamente, mas como se fosse a primeira vez, tudo aquilo que guardamos do passado.

Um gesto delicado pode chegar ao futuro, ligar pessoas que nunca se encontraram, claro que não é o nosso caso, esta carta faz parte da nossa troca de correspondência. As minhas palavras brotam de um tempo anterior, como numa gestação lentíssima, onde caminho para o passado a tentar encaixar as minhas pegadas nas tuas. Espero que me perdoes, mas acredito que foram as tuas palavras a dar o nascimento às minhas. Imagina alfabetos imensos transformados em seres vivos que geram vidas, o amor pela melodia das frases a dar sentido ao futuro. Seria um amor livre, não concordas?

Assististe à construção do Muro de Berlim, por certo terás passado a mão na sua rugosidade, a sentir como o mundo é áspero e agressivo. Também te sentaste à sua frente a imaginar a vida do outro lado, tão diferente da tua. Duas realidades tão antagónicas realçadas pela construção de um muro imenso. A fatalidade da sua existência não se resumiu à fantasia presente em cada um dos lados, existiu também a separação das pessoas, um isolamento forçado que antecipou ou evitou despedidas. De certa forma imagino um lamento contínuo, as pessoas mergulhadas num pranto desesperado. No final, houve algum vencedor? Esses muros espalharam-se pelo mundo, e hoje países separam-se de outros, como uma grande fratura na terra. As separações são fictícias. Na aldeia onde eu vivo vejo muros por todo o lado, neste caso a separar uma propriedade da outra. É essa a função dos muros, separar e proteger propriedades. Serão as pessoas propriedade do poder? O mundo dentro de muros.

Enfim, não escrevo esta carta para falar sobre o teu tempo, conhecê-lo melhor do que eu, o meu propósito é outro. Comecei por falar sobre heranças imateriais, eu que não tive oportunidade para receber nas mãos dinheiro ou terras, continuo então a minha narrativa para enfatizar um agradecimento devido. As tuas peças são a minha afirmação enquanto dramaturgo, pois a elas devo aquilo que escrevo, foram as tuas peças que iluminaram o meu caminho quando ainda me encontrava na penumbra das palavras. Quando comecei a dialogar com o teu trabalho fiquei absolutamente tomado pela dimensão da tua linguagem, sobretudo a forma como entendeste os clássicos e os tornaste do nosso tempo, como se a passagem do tempo tivesse sido uma ilusão. Encontro nos teus textos qualquer coisa de alquimia, o talento para revelar ouro entre linhas, ou no meio do silêncio. É muito inquietante abrir os teus livros como se fossem mapas que ocultam segredos particulares, não os teus, mas os segredos daqueles que te leem. A tua Máquina Hamlet é um monumento autêntico, onde sublimas a elevação da personagem a figura humana para esquecermos por completo o passado. Acredito que a Ofélia ou o Hamlet viveram na Alemanha do teu tempo.

A poesia é o complemento do desencanto, e o desespero consegue voar na boca daqueles que acreditam num futuro, qualquer que ele seja, pois futuro deve ser sinónimo de esperança. Não acredito num porvir tirânico, isso é a morte antecipada. A tua vida e a tua obra encontram-se nesse instante imediatamente a seguir ao próximo segundo, foi esse o espaço que construíste para que o futuro fosse possível.

Escrevo depois de ti, mas talvez também antes, como se eu não  estivesse exatamente neste tempo, porém, a minha obra é contaminada e construída por camadas, tento que os tempos se envolvam e se misturem numa coisa nova. O clássico e o contemporâneo. Persigo a minha Ofélia e o meu Hamlet, mas também Medeia ou Sísifo, talvez sejam os meus fantasmas, aqueles que estão atrás de mim enquanto escrevo as minhas peças.

Heiner, espero um dia ter forças, ou quem sabe perca por completo a vergonha, e envie para Dorotheenstadt os textos que escrevi em 1995. Creio que nesse ano escrevi poesia, alguns contos e tentativas de romance. Antes de o fazer, devo alertar para o facto de ainda não seres, nessa altura, uma das minhas influências, estas eram outras. Mas não fiques aborrecido comigo, garanto-te que em 1995 ainda não vivia plenamente. Nascer não significa que comecemos a viver imediatamente, isso é um processo que pode levar anos. Nalguns casos morre-se sem sequer ter vivido, noutros, os virtuosos, não se morre nunca porque a morte é demasiado limitada para espíritos grandiosos.

 

Teu amigo e admirador,
Ricardo Cabaça

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