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C’est pas la vie en rose, mas é cinema - Leonor Bettencourt em entrevista

Por

 

COFFEEPASTE / Pedro Mendes
19 de Junho de 2025

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C’est pas la vie en rose, mas é cinema - Leonor Bettencourt em entrevista

Leonor Bettencourt apresenta C’est pas la vie en rose no encerramento do FEST – Festival de cinema que acontece em Espinho, a sua primeira longa-metragem e uma bomba de humor ácido, crítica urbana e caos muito pensado. O filme, que nasceu do videoclip de uma banda franco-portuguesa, evoluiu para um falso documentário onde se misturam géneros, línguas, cães falantes e sátira política. Lisboa é cenário e personagem, ao mesmo tempo que se questiona: o que é uma cidade sem os seus habitantes? Conversámos com a realizadora sobre as camadas da obra, o amor agridoce à capital, os processos criativos e o prazer de brincar com as regras do cinema.

O filme mistura documentário e ficção, e até várias línguas. Como foi trabalhar essa fusão e que peso tiveram as escolhas linguísticas na construção da narrativa?
Um ano antes da rodagem do filme, fui convidada pela Laetitia Duveau Philippe Duval, que têm realmente uma banda, os FreeFreeDomDom, para fazer um videoclip do seu single C'est Pas la Vie en Rose. 

O single era sobre o lado negro da fama, sobre ter cuidado com o que se dejesa, e fizémos um videoclip sobre umas estrelas ficionadas, quase como os seus alter egos exacerbados. Eles têm muito sentido de humor e eu gosto de usar o humor como recurso narrativo para pôr o dedo na ferida.

Correu tão bem, que um ano mais tarde, convidei-os para uma reunião e propus-lhes revisitar o material filmado, porque estava a pensar escrever um filme estendendo a história que criámos. E aqui estamos. Como eles são franceses, naturalmente fez sentido fazer um filme português, também falado em inglês e francês. É a "Nova Lisboa", como diz Alex Couto, que fez script supervision do meu guião!

Há uma crítica clara à gentrificação, ao turismo e à especulação imobiliária em Lisboa. Isto parte de vivências tuas? Foi mais um impulso emocional ou político?
É um filme sobre como a realidade ultrapassa a ficção. A maior parte das pessoas tenta a vida toda e sem sucesso. A vida é injusta. Tudo é político. As emoções, os afectos, a nossa personalidade, enfim... Adorava conseguir escrever histórias de amor, mas tenho vindo sempre a trabalhar temas que me são próximos como a psicologia, a política, a música e a moda, por exemplo.

Acho que este filme até pode ser uma história do meu amor por Lisboa, mas da Lisboa pré-gentrificação. Sabemos que é algo inevitável nos dias que correm, mas precisava de extremar tanto? O que é uma cidade sem os seus? O que é feito de um país se a juventude não tem lugar e vive em esgotamento, entre vários trabalhos e alguns colegas de casa? Precisamos de espaço e de tempo. A roda tem de desacelerar. Tudo o que temos é uns aos outros.

A sátira e o humor negro têm um papel forte no filme. Achas que o riso ajuda a processar estas realidades difíceis? Como decidiste o tom certo para equilibrar crítica e comédia?
O humor é uma característica minha, mas que fui aprendendo a não me levar demasiado a sério, senão a vida seguia para uma profundidade demasiado #emo. Free therapy for all, please! ahah

O tom do filme foi aparecendo quando comecei a escrever o guião. Nunca pensei em fazer comédia, ainda é uma grande surpresa para mim, mas confesso que fazer filmes que sejam meta-ficção ou de fronteira é um grande turn on para mim. Gosto de brincar com as regras, aqui acho que andei meio que a brincar ao Dogma 95, salvo o sacrilégio.

Falaste noutros contextos da presença de temas como inteligência artificial, cancel culture, queer baiting, transfobia… e até cães falantes. Como é que tudo isso entra no filme e o que te levou a abordar tantos tópicos?
Eu e o meu cérebro, cheio de tabs abertas. Foi mesmo sobre enfiar o Rossio pela Betesga! É o zeitgeist, ainda que um pouco meta. Vivemos numa distopia, tudo é possível!

Por que escolheste contar a história de Lisboa através dos olhos de uma banda estrangeira? O que te atraiu nesta perspetiva “de fora”?
Os actores principais do filme, também co-produtores do filme (Laetitia Duveau e Philippe Duval), que interpretam o papel de Nicole e Charles, são músicos mas descobri que são também talentosos não-actores-actores. Isto faz sentido?

Aqui fazem parte de uma banda cujo nome nunca descobrimos, porque o filme não é sobre a música deles. O que me atrai na perspectiva "de fora" é precisamente o afastamento que o observador tem do objecto. Perspectiva é importante, só assim conseguimos entender os vários ângulos de uma situação. É como ir ao jardim zoológico ver um espetáculo de golfinhos. Eu adoro vê-los, mas faço parte do problema ao sentar-me na plateia. O ciclo da opressão só é entendido com experiência e perspectiva. No one 's safe.

Há uma frase forte sobre os habitantes da cidade só poderem assistir “se ainda conseguirem pagar para ficar”. O que esperas que o público – especialmente quem vive em Lisboa – sinta ao ver isso no ecrã?
Acho que a mensagem do filme é meio universal, porque quem é que nunca se sentiu injustiçado?

Mas escrevi sobretudo para a faixa etária de 20-40 anos. Late Millennials, early Gen Z, porque são os nossos problemas. Temos de ficar em Portugal e criar um espaço seguro para nós. Eu quero viver no meu país.

Disseste que o filme podia passar-se em qualquer parte do mundo. Achas que o público internacional vai conseguir ligar-se à história da mesma forma?
Não exactamente da mesma forma, da mesma maneira que pessoas que não vivam em Lisboa poderão não identificar uma data de subtilezas e inside jokes da cidade. Mas é definitivamente um filme que traz problemas muito actuais para a tela, com que qualquer pessoa interessada em zelar pelo bem comum poderá indentificar-se. Talvez quem viva em Barcelona, Paris, Berlim, e por aí fora, quem já tenha sofrido processos de gentrificação profunda, se reveja aqui.

Como recebeste a notícia de que o teu filme ia encerrar o FEST? O que significa para ti esse momento?
Vai ser muito especial estrear o meu filme no FEST, onde há uns anos estreei também uma curta-metragem, a Intra Inter Subjective. É bom regressar, até porque sou natural de Espinho, onde apenas vivi verões. Passei muito tempo no Multimeios, sobretudo no planetário. Acho tudo isto um pouco mágico e ter a minha família na plateia, levar os meus avós à estreia da minha primeira longa-metragem? Belisquem-me. lágrima

Filmavas em situações reais, como na ModaLisboa, sem que as pessoas soubessem que estavam a ser filmadas. Houve alguma situação insólita ou especialmente marcante nesse processo?
A mais marcante foi precisamente durante a ModaLisboa. Estávamos a filmar na sala de desfiles e uma das actrizes, a Inês Correia Mendes aka Mojo, ficou lá fora com a Shuggie, a cadela falante do filme. Elas são as duas tão icónicas, que foram entrevistadas pela Maria Salgueiro, para uma rúbrica no Observador, sobre estilo. A Inês Mojo acabou for explicar que estavámos a rodar o C'est Pas la Vie en Rose e foi mais um momento de tangência que acho precioso e com muito sentido de humor. A coisas correu desta maneira desde a primeira pedra deste projecto. Mas não foi tudo rosas. É duro fazer um filme, é duro fazer qualquer tipo de projecto artístico hoje em dia. Estou muito, muito grata a toda a gente envolvida. Um filme é um colectivo! Acho que vou voltar a filmar com este colectivo que se formou...

Se pudesses deixar uma pergunta ou uma provocação ao público que vai ver o filme em Espinho, qual seria?
Se tudo falhar, preferiam:
A) tornar-se Inteligência Artificial
Ou 
B) morrer

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