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Breves Crónicas do Tempo

Estranhos que nos Ajudam

Por

   

Guilherme Gomes
18 de Novembro de 2022

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Estranhos que nos Ajudam

Há gente que nunca chegamos a conhecer e com quem podemos dizer que colaboramos. Talvez se possa mesmo dizer que maior é o número de pessoas com quem colaboramos sem saber o nome do que aquelas que reconhecemos - nem o digo para denunciar arrogância, mas quem foi que construiu esta cadeira, quem a desenhou logo à partida; a quem devo a construção deste computador?

 

Esta lista de anónimos - à qual, de certa maneira, também pertencemos - espalha-se para além do tempo. Devemos a tanta gente que ignoramos gestos quotidianos, vícios, ideias, enfim, tanta coisa boa ou má ou simplesmente o que é e que constitui a nossa vida tal como a conhecemos.

 

Depois, há quem, sem sair do anonimato, se anuncie mais directamente - gente a quem temos a impressão de ver a silhueta, ou o que resta de um movimento. Como o livro que compramos em segunda mão, e vem com algumas páginas dobradas. Estás perante uma estranha correspondência: entre o que alguém deixou marcado e o que procuras quando abres o livro há uma relação de fidelidade, como se o tivessem preparado para ti.

 

Quando acontece encontrar princípios de diálogo com pessoas que talvez nunca venha a conhecer, eu presto-lhes atenção. Muitas vezes não sei o que significam, mas guardo-os como companheiros ou amuletos -  por vezes transbordam para textos que escrevo.

 

Há uns anos, visitei pela primeira vez o túmulo de Samuel Beckett, em Paris. Repeti a visita outras vezes, sempre que me apanhei na cidade. De uma das últimas vezes, havia uma novidade: um canteiro com a planta de orégão. Debrucei-me sobre o canteiro, e vi qualquer coisa escondida. Era um caderno. Durante a noite, Paris tinha sido varrida por uma tempestade. O caderno estava encharcado, mas tinha coisas escritas - que guardei num bloco de notas, para o poder deixar (com algo que eu próprio deixei escrito) junto do túmulo. Ainda tenho as palavras das pessoas anónimas, e entre elas o que me parece ser o título de um espectáculo.

 

Semanas depois, numa outra cidade francesa, no meio de uma corrida matinal, dou com um papel perdido na lama, no parque da cidade. Falava sobre ser feliz, e ofereci-o a uma pessoa amiga.

 

Destes guardo apenas a memória. Mas na minha carteira acompanha-me um botão de chumbo que encontrei aos pés do jazigo da família Pessoa, onde todos os anos me ponho, no aniversário da morte do poeta, a ler a Tabacaria em voz alta. Dei com o botão, numa dessas visitas. Não sei como foi ali parar. Nesse dia, deixei lá, na porta de metal, um pedaço de tecido verde, uma pulseira. E todos os anos tenho regressado para confirmar que ainda lá está.

 

Algumas destas são só isto: coisas com que nos cruzamos; mas por vezes são muito mais: esclarecem. Recentemente, levantei o “Diário de Luto”, do Roland Barthes. Comprei a propósito da pesquisa para um espectáculo. Dobro uma página que me parece interessante, e lembro-me de olhar para o livro de lado. Havia quatro páginas dobradas. Leio-as. Poderia ter sido eu. E este acaso, se não for qualquer coisa mais, ensina-me o caminho da pesquisa.

Foto por Guilherme Gomes

BREVES CRÓNICAS DO TEMPO são pequenos episódios, registos, princípios de reflexão pelo dramaturgo Guilherme Gomes.

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