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Hipertexto - Dupla Exposição

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Mariana Dixe e Simão Freitas
9 de Junho de 2026

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Hipertexto - Dupla Exposição

Mariana Dixe e Simão Freitas escrevem (e comentam o que escrevem), depois de verem “Álbum de Família”, de Lúcia Pires, no dia 05/06/2026, no Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, no âmbito dos Festivais Gil Vicente.

 

A cara de todas as pessoas sentadas naquela fila, que tiveram de se desviar para nos deixar chegar aos nossos lugares, por termos entrado pela porta errada.

O figurino azul. O cabelo enorme. Mãos herdadas da mãe.

A primeira bola que tem a rebeldia de se afastar da composição e seguir o seu próprio caminho.

O susto das senhoras sentadas à nossa frente quando se ouve o som de um tiro.

Uma criança que brinca à caça: POUM!, POUM!, POUM!, POUM!

O corpo de Lúcia de frente para o espelho com um javali no colo.

O momento em que descobrimos o espelho como tela de projeção.

Uma criança, que já não é, a posar em roupa interior.

A gata que foge pelo palco, não se deixa agarrar e arranha em sua defesa.

A barriga do lobo, cheia de pedras.

A imagem mental que aparece automaticamente ao ouvir as palavras “pudim boca doce”.

Gestos tão precisos que não desfocariam na fotografia, uma e outra vez.

O escuro por termos fechado os olhos quando o strobe se tornou demasiado intenso.

O corpo de Lúcia a inclinar-se sobre uma avó que não vemos, exigindo-lhe que pare de envelhecer.

Lúcia, a pequena, acusada de desperdiçar as palavras da avó como rebuçados. Corações dilacerados, um grito de dentro que não pode sair, e por isso é pior do que se saísse.

Os nossos olhos ainda marejados, no final do espetáculo.

Um espaço para preencher mais tarde: o recorte do jornal que destaca este espetáculo entre os melhores do ano.

 

💬 Sim, quanto a escrevermos no plural da primeira pessoa. Começar isto com uma série de imagens, também sim! A do boca doce então...

 

Em 2017, uma seguradora, a Aviva, dedicou-se a sondar a opinião de dois mil inquiridos sobre ver fotografias de viagens de outras pessoas. 73% das respostas considerou detestável que se publiquem galerias de férias nas redes sociais. Ao que tudo indica, sentirmos um aborrecimento profundo perante as férias dos nossos conhecidos é incrivelmente comum. Imagens de paisagens genéricas, quartos de hotel ou monumentos turísticos são impessoais. A verdade é que só nos interessamos por esse tipo de conteúdo se fizermos parte dele.

É um lugar-comum banalíssimo, esta nova moda de dizer que não há experiências singulares, mas a ideia que defende é precisamente a de um lugar comum, por isso o cliché não a fere. Em “Álbum de Família”, há muitas experiências partilhadas: a mãe fotografada junto à mesa, mas sempre de pé, porque o cuidado não lhe permite sentar-se tempo suficiente para se ver revelada; as caralhadas de uma avó do norte, que usa o palavrão como vírgula; as cartas escritas na infância e a nostalgia constrangida de as lermos anos depois; a revolta para com a velhice de alguém.

Podia ser arriscado criar um espetáculo em que se mostram fotografias de uma família que não é a nossa, em lugares que não conhecemos, como veículos para avivar memórias que não sabemos quais são. Podia gerar um desinteresse brutal. Só que aquelas paisagens não são genéricas. Andamos lá perto.

 

💬 A única hiperligação num projeto que se chama Hipertexto não pode ser para a pesquisa de uma seguradora, descrita pela Fox News. Devíamos ter lido “A Câmara Clara”. Vamos tentar usar aqui coisas que lemos numa Electra e numa New Philosopher e que possam ter algum significado.

 

Oliver Wendell Holmes viu a fotografia, no século XIX, como “um espelho com memória”. Bernd Stiegler, um bocadinho mais chegado ao nosso tempo, diz delas, das fotografias, que “pelo menos quanto àquilo que mostram, não têm presente, mas apenas um passado mais ou menos distante”. Dir-se-ia então que convocam o tipo de espectro de que viveram, ainda vivem, histórias infindas de fantasia e ficção científica mais ou menos negra, mais ou menos assustadora. Tanto mais quanto é essa cristalização do que, depois do instante em que é, nunca mais pode ser.

 

💬 É por isso que afinal de contas talvez faça sentido dizer “se eu morrer”. “Quando eu morrer” descreve uma inevitabilidade, mas podemos continuar vivos muito depois da nossa morte. Nas fotografias e nos áudios, claro, como explora o espetáculo, mas também nos corpos, nos trejeitos, nas expressões que deixamos como herança. (Isto é uma pirosada? Somos demasiado piegas para ser juízes desta questão?)

 

Neste “Álbum de Família” vivem esses espectros, ao arrepio do esquecimento mas também da musealização e da arquivação, vivem como só eles podem, explorando a nossa culpa e o nosso sofrimento, bebendo do nosso êxtase e descansando no segundo entre um fôlego e um suspiro. O funambulismo entre uma imagem que possa ser eterna e instantaneamente descartável, no teatro, esse sítio onde se vai para ir ver. Dali, sai-se com a sensação de que mais do que testemunhas fomos quase cúmplices, e ainda assim, é nesse balanço entre violência e ternura que as imagens ganham vida. Mais do que sentidas, são vividas, e a observação faz parte do ritual tanto quanto o que se desenrola em palco.

 

💬 Isto se calhar não quer dizer nada a não ser que é tarde e que estamos a tentar traduzir o que temos pensado sobre este espetáculo já com o cansaço em cima.

 

A frase do texto “Dá-me ternura, mas é um sinal” sintetiza o que é o espetáculo, enquanto descreve o envelhecimento. Todos os gestos da avó que Lúcia nos dá a ver (curvar-se, pigarrear, arrastar os pés) são típicos da velhice e inspiram-nos afeto, mas são também sinais da aproximação de uma morte com que não queremos lidar. Há um lado nele de muita ternura, mas também de grande violência. A experiência sonora é violenta, bem como a luz e os seus contrastes; há descrições mais ou menos sombrias de velórios, caixões, cães que se ocupam das pernas das meninas; até a ideia de um cenário em que tudo pode, de repente, sair do sítio e descontrolar-se. Ao mesmo tempo, a ternura nunca deixa de estar presente. Os próprios álbuns de família serão, muitas vezes, objetos dessa dualidade. A morte é uma iminência, no espetáculo como nas fotografias.

 

💬 A impermanência e a instabilidade do álbum representada pelas bolinhas no chão, mini espelhos andantes, que ora troçam da Lúcia ora a ajudam, ora a fazem tropeçar ora lhe desenham um caminho para outro lugar. Talvez quando chegarmos à dualidade, já não tenhamos tão presente quais são essas duas forças, a ternura e a violência.

 

A plateia é também convocada para ver mais do que aquela família. Para ver a sua, a que está lá atrás e a que, hoje, algures, estará a cozinhar e a suspirar pela morte que há-de vir. Este convite a olhar para o luto, a culpa, para o valor da memória e para os animais, os selvagens e os domésticos, que nos habitam, remete também para um olhar interno, onde é mais difícil fazer do esquecimento uma arte e os objetos de atenção exigem mais de nós.

 

💬 Relacionarmo-nos a este ponto com o espetáculo só contribui para a lembrança. Manteremos vivas aquelas pessoas por quanto mais tempo nos lembrarmos delas, o que é o mesmo que dizer por quanto mais tempo elas nos fizerem lembrar de alguém.

 

Há histórias e histórias dentro destas fotografias, incluindo as nossas. Qualquer observação de fotos de crianças vai devolver-nos parecenças. Há um ar perdidinho de sono, de confusão, de qualquer coisa, que qualquer um pode rever na pequena Lúcia. A nossa avó, a vossa, está sentada naquela cozinha, a rir-se para dentro, olhos baixos atrás das lentes garrafais. Podia ser a mãe a tirar as fotografias, porque é sempre suspeito o que está do outro lado da fotografia. Por que olha daquela forma e por que dispara no momento em que dispara.

Volto, sempre, ao “Mergulhando até ao naufrágio”, traduzido por Ana Luísa Amaral (1956-2022):

Somos, eu sou, tu és

por cobardia ou coragem

quem encontra o caminho

de volta a esta cena

levando uma faca, uma máquina fotográfica

um livro de mitos

onde

os nossos nomes não aparecem

 

💬 Queremos dizer que a autora é Adrienne Rich, ou os intelectuais só mencionam os tradutores?

 

Dizer “as várias crianças de Lúcia Pires” faz parecer que há, em cena, uma carrada de filhos, como ouvi-la dizer “a nossa mãe” nos leva a crer que se dirige a uma irmã, mas só porque não temos vocabulário para abarcar todos os eus que fomos e já não somos mais.

 

💬 Estamos a ir para aqui porque "a nossa mãe" quase nos denuncia a nós, público? Às tantas, sentimos um pouco isso, que Lúcia fazia por nos dar essa sensação de que é connosco.

 

Estamos a ir para aqui porque o corpo é capaz do que as palavras não conseguem. O corpo de Lúcia prende — ou melhor, guarda — todas as crianças que foi e, por conseguinte, todas as mães e avós que teve, que são as de todas as Lúcias, em todas as idades. Quando ouvimos a voz da avó, sabemo-la gravada e transmitida por um sistema de som a quase duzentos quilómetros de Bragança. Quando vemos a boca de Lúcia mexer ao ritmo das palavras proferidas, numa espécie de lip-sync em testamento, e vemos os gestos que acreditamos ser próximos do movimento original que acompanhou a fala, sabemos que não carregamos só os nossos mortos, carregamos as várias vidas dos nossos vivos.

 

💬 Pintamos, com a nossa vida, por cima delas. Devemos fazer referência à Helena Almeida. Uma busca no Google por "Helena Almeida Azul" dá imensas opções, mas são azuis mesmo muito próximos. Para além do trabalho em torno da fotografia, há esta ideia de pintar por cima. E é mais um hipertexto.

 

Não seja por isso.


 

💬 Adoramos!

 

A luz nunca é imparcial - ela transforma o que ilumina, ou deixa na escuridão, e muda também o julgamento de quem vê. Fotografar é abrir uma janela para a interpretação, noutro tempo, que é lá para a frente. Fotografar constantemente, como hoje em dia (e não, dá ideia, nos registos que Lúcia Pires nos traz), é (pode tornar-se) autovigilância. O que nos remete para uma pergunta sobre o espetáculo, ou não, uma pergunta não, porque a pergunta não é o que vemos, mas porque é que queremos vê-lo. O que é que nos atrai para sombras que nos cortam e nos obrigam a um posicionamento, mesmo no conforto dos assentos do CCVF?

 

💬 Ao ver o espetáculo, parecia-nos impossível que as palavras tivessem surgido como um texto escrito, antes de serem ditas. O que nos atraiu foi que aquela parecia a sua forma natural, quase como se tudo estivesse a acontecer pela primeira vez. Ficámos com a sensação de que o texto podia ter sido pensado, dito em voz alta e gravado e essa gravação soaria exatamente como o espetáculo. Parece-nos mágica a impressão de que tudo nasceu assim. Mas, claro, ainda mais mágica a verdade: o trabalho que terá dado lapidar a forma de um espetáculo para que ele soasse tão acabado de nascer quanto possível.

 

💬 Assim sem ter grande cuidado com historicismos, era precisamente como a fotografia funcionava dantes: "fica quieta um segundo, agora aguenta meia hora". Os chamados daguerreótipos que demoravam até 30 minutos a sair,

 

💬 (o que é um da-gue-rreó-tipo?)

 

💬 o que deixava as pessoas tão zangadas como o Alexandre Herculano no retrato que fizeram dele, ou a transformação na imagem parecida à que se sente por dentro.

 


Augusto Bobone, Condessa de Bardi, 1880-1890

 

💬 Achamos isto muito Lúcia-Pires-core.

 

💬 Até me sinto mal a assinar isto contigo porque tu fizeste 95% do trabalho de EVT e eu vou ter 5 na mesma.

 

💬 SIMÃO ISSO DESCREVE TODA A MINHA IDADE ESCOLAR

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