TUDO SOBRE A COMUNIDADE DAS ARTES

Mantém viva a cultura independente — apoia o Coffeepaste e ajuda-nos a chegar mais longe.

Mantém viva a cultura independente — apoia o Coffeepaste e ajuda-nos a chegar mais longe.

Selecione a area onde pretende pesquisar

Conteúdos

Classificados

Notícias

Workshops

Crítica

Artigos

Hipertexto - Trigger Warning

Por

 

Sara Inês Gigante e Simão Freitas
8 de Junho de 2026

Partilhar

Hipertexto - Trigger Warning

Sara Inês Gigante e Simão Freitas escrevem, depois de verem “Gatilho da Felicidade”, de Ana Borralho e João Galante, no dia 04/06/2026 no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, Guimarães, no âmbito dos Festivais Gil Vicente.


 

Sara Inês aponta uma pistola à cabeça, dispara e rebenta uma nuvem de pó de uma cor difícil de decifrar

 




Não é uma partilha da minha adolescência, mas é da minha juventude porque sou uma jovem.


Um dia recebi uma chamada do Bruno para escrever a partir da experiência de assistir a um espectáculo. Esta proposta passava por também escrever com o Simão, que só conheci no dia do espectáculo.


Quando estava a entrar na sala para ver esse espectáculo, estava com uma amiga e a ter uma conversa sobre a sua vida. Tivemos de interromper a conversa porque os nossos lugares eram separados. Lembro-me que o que ela me estava a contar continuou a ecoar em mim algum tempo. Era sobre relações amorosas.


Vemos muitas vezes na história dos outros um bocadinho da nossa.


Sentei-me e fiquei presa ao que já estava a acontecer em palco, e lembro-me de ter pensado que dançar livremente para uma plateia de pessoas deve ser - ou seria para mim - tão constrangedor quanto libertador. E ao mesmo tempo a delícia do voyeurismo que é poder estar do lado das pessoas que veem, e sentir coisas com isso. Sentir vontade de dançar com elas, e ao mesmo tempo uma espécie de desconforto por elas.


O espectáculo passava muito pela partilha de histórias de cada um dos treze jovens que estavam em cena. Partilhas íntimas, como se entrássemos no quarto de cada um deles por uns momentos e tivéssemos acesso a episódios, muitos deles duros, das suas vidas.


Foi mais ou menos como vê-los a dançar livremente, uma linha ténue entre ter vontade de fazer o mesmo, e uma espécie de desconforto pela exposição de cada um.


Vemos muitas vezes na história dos outros um bocadinho da nossa.


Durante o espectáculo ia tentando colecionar pensamentos que poderia reflectir no tal exercício de escrita para o qual fui convidada.


Ir ver um espectáculo é como uma roleta russa, sabemos como entramos (ou achamos que sabemos), mas não fazemos ideia de como vamos sair. É uma roleta russa que aceitamos jogar quando nos propomos a ir ver o que quer que seja que ainda não tenhamos visto.


Não posso negar que a vulnerabilidade de se tratarem de jovens em cena a partilharem histórias das suas vidas trouxe um poder na sua força que me arrebatou, e que me colocou num lugar muito esquisito em vários aspectos.


A tensão e o desconforto que senti pela sensação de que aquelas histórias de facto lhes pertenciam, geraram em mim uma sensação muito particular de que também eu estava a ser exposta. Como se na exposição deles, visse a minha também.


Talvez testemunhar um tipo de liberdade me ponha nessa linha ténue, entre esse desconforto e a vontade de usufruir dela daquela forma. No fundo, talvez entre o medo e a alegria.


O que seria se eu fizesse uma partilha daquele género com estas idades (ou até na vida adulta), com os meus familiares a assistir na plateia?


Uma sensação vertiginosa e ao mesmo tempo um confronto comigo própria, como se eu sentisse na pele naquele momento que eu não seria capaz de me expor com aquela liberdade em função dos que estão a assistir, imaginando que os meus pais me ouviriam a fazer determinada partilha, por exemplo. Como se isso me enclausurasse ao invés de me empoderar.


Também me questionei sobre o meu preconceito de eventualmente estar a colocar neles uma infantilidade que não lhes pertence. São maiores de idade, escolheram partilhar aquelas histórias, ninguém os obrigou, obviamente. Mas não deixam de ser jovens e de estarem a poder querer simplesmente corresponder a uma premissa que alguém lhes propôs. Ou então isto sou só eu a temer as consequências que hipoteticamente eu poderia ter no lugar deles, não sei.


A roleta russa disparou com uma cor que não sei bem decifrar. Saí deste espectáculo diferente do que àquilo que entrei, não haja dúvida. Este espectáculo foi um gatilho para a maior fragilidade de todas. Obrigou-me, sem querer, a olhar-me por dentro.


Dei por mim à procura, nos olhares à minha volta, dos pais daqueles jovens, para ver as suas reações ou o seu desconforto.


Depois percebi que se calhar estava à procura dos meus. Ou se calhar estava só à procura da minha liberdade.


E o processo racional de perceber este percurso mental de quem se vê menos livre do que à partida gostaria, é-me perturbador, e por isso é que isto também é abrir a porta do meu quarto para quem estiver a ler.


Também podemos ver no quarto dos outros um bocadinho do nosso.


Enquanto procurava esses pais que também são filhos, a verem os filhos que um dia poderão ser pais, pensava que se um dia eu tiver filhos, quero que eles se sintam livres. E isso pode ser tão básico quanto extremamente difícil. Mas quero mesmo. Quero que se sintam livres, quer seja para partilharem uma história que possa gerar desconforto em alguém, quer seja a dançarem livremente para uma plateia cheia de gente, quer seja a convidarem alguém a entrar nos seus quartos. Seja “os seus quartos” o que for. Uma história, um segredo, um lugar mais íntimo. Ainda que também queira que o façam com a devida consciência, mas talvez isso seja incontrolável.


O espectáculo acabou e dei por mim nervosa pelos gatilhos que ali se podem ter activado nos pais presentes, naqueles filhos, ou num outro espectador qualquer.


O que na verdade significou que se tinha activado um gatilho meu e que de repente estava eu no meu quarto, despida, e sem dar conta disso de imediato.


Umas horas depois do espectáculo ter acabado, o Simão sugeriu, que para o tal exercício de escrita, fizéssemos também nós uma partilha, à semelhança do dispositivo do que tínhamos visto.


Esta foi a história que decidi partilhar, com a liberdade que me foi possível, ou enquanto a procuro, entre a alegria e o medo - como se estivesse a tentar dançar livremente para quem está a ler, ou como se abrisse a porta do meu quarto e vos convidasse a entrar.

 

 

Simão engatilha outra pistola, dispara e rebenta uma nuvem de pó vermelho

 


O mais difícil de contar não é o que queremos esconder dos outros, mas o que não queremos ver em nós.


Começou quando andava na escola, na pré-adolescência, e foi comigo até sair da faculdade. Pode ter começado antes, não saberia dizer. Era uma sensação estranha a ver-me ao espelho. Não é que não gostasse de me ver, da minha cara, do meu corpo. Também era, mais vezes do que gostaria. Mas era uma coisa mais estranha, mais interior. Deixei de me olhar, já não gostava de ser fotografado. Passei a não me ver de todo.


Ainda hoje, que já podia não ter idade para jogar ao gatilho da felicidade, mas se a Sara tem eu também tenho, sinto o mesmo. Já não marco os meus braços como fazia a versão adolescente emo que fui, mas é o mesmo, e ainda me lembro do vermelho. Faço a barba sem olhar de frente, os meus olhos azuis são para os outros na rara ocasião de os conseguir mostrar a alguém, não enfrento fotografias, as atuais ou as antigas, de ânimo leve, evito-as.


Olho, descrevo, exponho, a minha sensação de desrealização, despersonalização, comigo mesmo, não sentir que eu exista naquele corpo que existe no espelho, nas fotografias, no que eu consigo ver de mim. Hoje percebo que não sinto que me pertenço, nem aquele Camões triste de que me vesti em criança nem o bigode mal feito de hoje. Não sou mais eu quando vou para o trabalho já com dois cafés bebidos do que quando, sonâmbulo, dou por mim de pé na marquise sem saber como me chamo ou em que ano estamos. Não consigo ver-me, reconhecer-me, aceitar-me, naquele corpo. Neste corpo.


Quando via “Gatilho da Felicidade”, pensava, de facto, no que seria para mim subir a um palco, com amigos e outras pessoas da minha idade, ali pelos tempos da faculdade, para contar histórias. Essa potência catártica não dá para ignorar neste espetáculo. Imaginava como me sentiria ansioso com o risco a que estava a dispor-me, eu e os meus amigos. À coragem que a adrenalina nos daria. Não consigo ver-me a ter medo das consequências que hoje teria, mas a mesma ideia de poder sim.


Imagino o dia seguinte. As conversas pós espetáculo, com família, amigos e conhecidos. Sentiria o coração bater na garganta, antes de dormir, o peito apertar. Os olhos pregados na Uma Thurman, ao fundo, e o medo do que ia chegar. Via-me, de fora do meu corpo, a perder todos os meus amigos, a enfrentar enfim o olhar largado que sempre reservei a mim próprio, e que sempre esperei que os outros me dessem. A confirmação da rejeição. A ter de fugir de casa. Mudar de nome. Faria uma lista mental do que levar na mochila. Onde arranjar trabalho sem ter de mostrar o BI, para não alertar a PJ de onde andava. Dedicaria pelo menos 25 minutos a pensar quanto tempo duraria a traficar droga sem acabar esfaqueado ou preso. Quanto tempo até decidirem usar o meu corpo, aquele que eu não vejo como meu, como mula de droga. Não saber, na altura, que ia poder ver a Zendaya nesses preparos, tantos anos depois.


Talvez por defeito profissional, fui imaginando uma possível estrutura deste texto, para propor e discutir com a Sara, e isso acabou por me escudar, retirar-me momentaneamente do desconforto que ia sentindo, talvez justo dada a proposta artística. Talvez tenha podido marginalizar a minha sensação e, assim, vi naquela dúzia de jovens, mais valentes do que eu alguma vez serei, do que nós fomos ou seremos, uma conquista invencível.


Mostrar aos outros o que não queremos dizer a nós mesmos, sem contraditório, num estado de preparação que espero que tenha de facto existido, sido vivido, é um gesto artístico. O espetáculo que aquela dúzia entregou à abertura dos Festivais é algo que vou chamar, e lembrar, por muito tempo. E isso já é bastante.

Apoiar

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Como apoiar

Se tiveres alguma questão, escreve-nos para info@coffeepaste.com

Segue-nos nas redes

Hipertexto - Trigger Warning

CONTACTOS

info@coffeepaste.com
Rua Gomes Freire, 161 — 1150-176 Lisboa
Diretor: Pedro Mendes

Publicidade

Quer Publicitar no nosso site? preencha o formulário.

Preencher

Inscreve-te na mailing list e recebe todas as novidades do Coffeepaste!

Ao subscreveres, passarás a receber os anúncios mais recentes, informações sobre novos conteúdos editoriais, as nossas iniciativas e outras informações por email. O teu endereço nunca será partilhado.

Parceiros

Copyright © 2022 CoffeePaste. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por

Hipertexto - Trigger Warning
coffeepaste.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile