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Há espectáculos que nos chegam com uma pergunta antes de subirem o pano. Tahiti! é um desses. A nova produção que chega a quatro palcos do Algarve e de Lisboa, Lagoa, Loulé, Lagos e CCB, começa por nos perguntar o que aconteceu antes do início: como é que dois pessoas se tornam estranhas uma para a outra?
Tahiti! é uma double bill que junta a ópera Trouble in Tahiti (1952) de Leonard Bernstein com Pacific Pleasures (2016-17), uma obra nova com música de Alannah Marie Halay e libreto de Jorge Balça, que assina também a encenação. Num subúrbio residencial como tantos outros, Sam e Dinah têm tudo o que sempre quiseram, e ainda assim não são felizes. A pergunta que paira: até que ponto as suas vidas já estavam traçadas antes de as começarem a viver
Para construir esta história, Jorge Balça foi buscar o que falta em Bernstein, o antes. Pacific Pleasures funciona como prequela, uma história de amor antes da história de desamor, com teatro físico, marionetas e uma forte inspiração visual na obra de Paula Rego, desenvolvida em colaboração com o MAC/CCB e os SA Marionetas.
Encenador com mais de 30 anos de carreira entre Portugal, Londres e Amesterdão, Jorge Balça é também aqui libretista pela primeira vez numa obra sua, um desafio duplo que, como veremos, se revelou mais fértil do que assustador.
Tahiti! junta Pacific Pleasures e Trouble in Tahiti numa “double bill”. O que te interessou neste formato de sessão dupla e que tipo de diálogo querias criar entre as duas obras?
Quando ideia surgiu, eu era director artístico da Bloomsbury Opera em Londres, uma companhia que se focava em ópera de câmara apresentada em espaços não-convencionais. Durante esse período explorei bastante o conceito de ‘double-bill’ – por vezes com duas óperas, outras com uma ópera e uma peça de teatro. Uma ‘double-bill’ pode ser simplesmente a justaposição de duas óperas para fins de programação; para que o público sinta que o dinheiro que pagou pelo bilhete é justificado pelo comprimento do espectáculo. Contudo, para mim, foi sempre importante pensar em como uma peça pode informar a outra; como o público pode ser convidado a fazer ligações dramatúrgicas entre uma peça e outra. No caso de Tahiti! conseguimos ir ainda mais longe: expandimos a história ao criarmos uma nova obra de raiz.
Pacific Pleasures funciona como prequela de Bernstein. Em que momento surgiu a vontade de “imaginar o antes” de Sam e Dinah, e o que sentiste que faltava contar na história original?
Trouble in Tahiti é uma obra extraordinária pela sua densidade e intensidade emocionais, pela constante variedade de atmosferas que vão do cómico a trágico, e por conseguir tudo isto em apenas 40 minutos. É uma polaroid na vida deste casal; um dia que expõe o desamor entre Sam e Dinah. Contudo eles deverão em tempos passados ter gostado um do outro… devem ter tido um primeiro beijo e ter-se apaixonado um pelo outro. Para mais, concluí que a nossa compreensão do que se passa em Trouble in Tahiti mudaria e intensificar-se-ia se não víssemos o Sam e a Dinah simplesmente como um casal que não se ama, mas como um casal que foi deixando de se amar, ou esquecendo de como amar o outro. Foi então que decidi escrever uma história de amor como preâmbulo da de desamor – primeiro simplesmente como uma nota de programa, mas depois como uma nova ópera.
Assinas também o libreto de Pacific Pleasures. Como foi equilibrar o lado dramatúrgico (escrita) com o lado cénico (encenação e imagem), sem que um “engolisse” o outro?
Foi um desafio interessante e, confesso, um pouco assustador. Tanto a Alannah enquanto compositora como eu enquanto libretista quisemos escrever uma nova ópera que, apesar de a acção decorrer antes de Trouble in Tahiti, lhe prestar homenagem e se inspirar no seu material dramático e musical, tem linguagens mais contemporâneas. Acho que o Jorge libretista pediu bastante ajuda ao Jorge encenador que, por sua vez, não se coibiu de influenciar o processo de escrita para que o material mais tarde na fase de encenação pudesse ser mais fértil. Foi também a experiência de encenar textos dramáticos bastante diferentes que encorajou o jovem Jorge libretista a experimentar uma maior variedade estilística na escrita das diferentes cenas que compõem Pacific Pleasures.
Trouble in Tahiti é de 1952, mas o tema parece muito atual. O que é que esta obra diz hoje sobre relações, rotinas e expectativas sociais?
Será que nós evoluímos alguma coisa? Será que as questões domésticas e os males-de-amor mudaram assim tanto? Será que conseguimos resolver os problemas de comunicação que separam (ou unem) duas pessoas? Será que ultrapassámos a camisa de forças imposta pelo patriarcado tanto a homens como a mulheres? Trouble in Tahiti põe a nu a incapacidade que tanto Sam quanto Dinah têm em comunicar um com o outro e, de forma ainda mais trágica, de alterar o quão infelizes se sentem.
No texto, perguntas: “Até que ponto as suas vidas já estavam mapeadas antes de as começarem a viver?” Que tipo de determinismo social ou emocional te interessava explorar aqui?
É exactamente neste ponto que a metáfora das marionetas foi bastante útil. O processo de educação e aculturação é-nos geralmente apresentado com a melhor das intenções pelos nossos pais e educadores, mas este é geralmente apresentado como uma linha recta. Existem sempre mãos que nos guiam de etapa em etapa do nosso crescimento num caminho que é raramente posto em causa. Mas a certa altura (e isso muda de indivíduo para indivíduo) tiramos as rodinhas de apoio da bicicleta e a mão do papá desaparece do selim (ou, neste caso, de dentro da marioneta)… e temos de ser nós a nos equilibrarmos sozinhos, e a decidir onde e quando virar. Por vezes somos confrontados com situações para as quais ninguém nos tinha alertado: passámos a vida toda a treinar para um campeonato de futebol mas, quando entramos no estádio, trata-se de um torneio de xadrez. E enquanto para alguns este modelo funciona na perfeição, para outros não. Então alguns gritam e esperneiam porque não foi isso que lhes foi prometido, outros aceitam que este descontentamento é a normalidade a que têm de se habituar. Talvez esta seja uma das poucas situações em que crianças queer se encontrarão em vantagem, pois sabem desde mais cedo que há coisas que não encaixam e nunca encaixarão.
O espetáculo recorre a teatro físico e marionetas, com inspiração em Paula Rego. Como é que essa influência entra na cena: pela imagem, pela violência simbólica, pelo humor, pela intimidade?
Um pouco por tudo isso. É um espectáculo que abraça o trágico e o cómico da vida de um casal. A presença da criança na segunda ópera, para mim, foi de extrema importância. As crianças são frequentemente público da violência emocional entre os pais, e ter a oportunidade de re/apresentar isso em palco foi bastante importante. Quanto à inspiração na Paula Rego, visitámos o MAC/CCB e pesquisámos bastante acerca das imagens dela tanto na pintura como nos seus bonecos; o grotesco no dia-a-dia. A colaboração com os SA Marionetas e, mais especificamente, com a Natacha, foi muito importante. Foi a interpretação dela com base nas nossas conversas e na sua inspiração no obra da Paula Rego que deu origem às figuras que verão em cena.
Em termos de encenação, como distingues visualmente as duas partes (Pacific Pleasures e Trouble in Tahiti) mantendo a unidade do espetáculo?
Tentei que ambas as obras habitassem o mesmo mundo. Contudo, esse mundo é visto de forma diferente. Na primeira, ambas as personagens habitam juntas esse mundo; na segunda, estão frequentemente separadas. Na primeira, existem sempre mãos e vozes que as guiam, na segunda exercitam o seu livre arbítrio enquanto agentes individuais.
A direção musical é de Pablo Urbina. Como foi a colaboração entre encenação e direção musical, sobretudo na gestão de ritmo, transições e tensão emocional?
É a primeira vez que estou a trabalhar com o Pablo e posso afirmar sem qualquer hesitação que está a ser uma colaboração muito fértil. Não é incomum as relações encenador-maestro serem complicadas ou, pelo menos, tensas. Contudo, tal não aconteceu com o Pablo. É um músico com consciência de palco e de espectáculo, e com excelentes instintos dramáticos e perspicácia dramatúrgica. Por outro lado, espero que ele tenha encontrado em mim um encenador com uma compreensão não só da música quanto da mecânica necessária para que música aconteça.
Em palco estão cinco cantores e dois marionetistas, com a Orquestra do Algarve. Que tipo de “coreografia de palco” exige esta convivência entre corpos, vozes, objetos e música?
A obra do Bernstein está escrita para dois solistas e para o que ele chama um trio de jazz, ou seja, cinco cantores. Em Pacific Pleasures decidimos reequilibrar as intervenções dando mais protagonismo aos três cantores do trio. O resultado é um ensemble de cinco cantores de igual peso em Tahiti!. Na primeira ópera temos dois marionetistas porque temos duas crianças (o Sam e a Dinah em miúdos), na segunda apenas um (o filho do casal). Quanto a objectos cénicos, os mundos são simplesmente apontados com uma economia de elementos cenográficos, mas com uma grande variedade de adereços. Para esta clareza narrativa, a minha colaboração com o Nuno Esteves (Blue) e a designer de luz Wilma Moutinho foram imprescindíveis.
O dispositivo cénico, para colmatar a inexistência de fosso de orquestra nestes auditórios, é um pouco mais complicado, pondo a orquestra atrás da cena, com o maestro de costas e um sistema de câmaras e monitores.
Tendo trabalhado entre Londres, Portugal e Amesterdão, que marcas dessas experiências internacionais entram nesta criação. Na linguagem visual, na abordagem à ópera, no método de ensaio?
Acho que esta produção tem muito de mim… não só porque sou libretista e encenador, mas porque abraça os elementos de comédia que estão necessariamente presentes no drama mais sério. Creio que sou necessariamente uma amálgama de todas as experiências pela quais passei, e por todos os sítios em que vivi. O Reino Unido desenvolve e promove com muita força o que intitula de fringe opera; ópera independente, para elencos mais pequenos, espaços alternativos e com orquestrações mais reduzidas. Este projecto nasce dessa conjuntura, mas agora com a maturidade de um homem já com 30 anos de teatro profissional e com apoios financeiros e institucionais que a ópera totalmente fringe por vezes não tem.
Tem sido Portugal, com o meu retorno durante a pandemia, que me tem proporcionado a manutenção de uma actividade consistente e o desenvolvimento de relações criativas com alguns co-criadores, dos quais destaco a produtora Sara Lamares da Fadas e Elfos. Uma amizade de três décadas que se tornou recentemente numa das mais férteis colaborações criativas que alguma vez tive a sorte de poder desenvolver.
Para quem nunca viu ópera e está a pensar ir “pela primeira vez”, o que dirias que Tahiti! tem de especialmente acessível (ou surpreendente) para esse público?
Acima de tudo, é uma história que nos diz respeito a todos. Adoro mitologia, reis e princesas, ou os heróis da literatura romântica, mas o Sam e a Dinah somos todos nós… ou os nossos vizinhos num subúrbio de uma cidade qualquer.
Pensando agora do ponto de vista dramático e musical, é uma ‘double-bill’ muito variada e surpreendente. Há sempre algo ao virar da esquina para reavivar a atenção do público.
Por último, é toda cantada em inglês com legendagem em português, e a sessão em Lagoa terá interpretação em língua gestual portuguesa (LGP).
Obrigado por esta oportunidade para falar um pouco mais desta criação e espero ver muitos de vocês num dos nossos quatro L’s: Lagoa, Loulé, Lisboa e Lagos.
Foto: © Bruno Simão
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