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Luísa Guerra: partilhar, nunca demasiado

Por

 

Pedro Mendes
28 de Maio de 2026

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Luísa Guerra: partilhar, nunca demasiado

Luísa Guerra fez do seu computador pessoal um quarto, um confessionário e uma reivindicação. O novo espetáculo, cocriado com Joana Mont'Alverne e Mafalda Banquart, e vencedor da Bolsa Amélia Rey Colaço, estreia na Sala Estúdio Valentim de Barros, em Lisboa, e propõe uma pijama party sobre sexualidade, identidade e tecnologia. Numa conversa onde rejeita a palavra "overshare" e desconfia da pergunta sobre trauma, Luísa Guerra explica por que razão partilhar é sempre, e só, partilhar.


O título TOSHiiB4 remete para uma linguagem muito específica: a do chat, do fórum, do ecrã. Como é que esse universo visual e linguístico da internet entrou na construção do espetáculo?

O TOSHiiB4 acontece em duas frentes: a digital, dentro do meu computador pessoal, e a afk (away from keyboard, fora do computador), onde intérpretes e criativas vivem uma pijama party, nesta fluidez contínua entre online e offline, entre a operação e o usufruto do computador e a companhia física umas das outras. Este computador foi trabalhado dentro de uma estética algo revivalista da década passada, consequência de termos percebido que não teríamos direitos de autor para entrar em sites certificados e que, portanto, teríamos de inventar os nossos próprios fóruns, os nossos próprios sites, a nossa própria estética, a nossa própria tecnologia. No fundo, o nosso ciberespaço. Foi um desafio enorme. Nenhuma de nós tinha formação nesta área. A Beatriz Diniz foi aprendendo intuitivamente a criar plataformas e isso parece-me uma reivindicação feminina muito forte da própria tecnologia. De repente, temos uma tecnologia para nós, uma espécie de inside technology que nasce da mesma maneira que uma inside joke e que, por isso, vive da dinâmica do grupo, coletiva e íntima. Este take-over que a Beatriz fez, tão diferente da forma como a internet existe hoje, extremamente algoritmizada e baseada em métricas, e da qual nós fugimos completamente, é discursivo. As nossas aplicações, por exemplo, não têm memória, não acumulam dados, não fazem sugestões e são lentas, rudimentares. É uma forma menos techy e mais romântica de lidar com a tecnologia, algo que é constantemente retirado das mãos das girlies. No TOSHiiB4, essa linguagem de chats, sites e fóruns é trabalhada também do ponto de vista empírico, tal como a nossa biografia e a nossa relação com a sexualidade na era digital.


Há uma imagem forte no centro do projeto: um quarto girlie oversized onde o público entra. O que querias que esse espaço físico dissesse antes de qualquer palavra ser dita
Este quarto oversized é bifocal. Vive de uma relação contínua, porque tudo acontece no mesmo espaço, mas a ação divide-se entre ecrã e corpo, embora a nossa perspetiva esteja longe de ser separatista. A proposta é entrar num espaço íntimo e convocar a ideia de que TOSHiiB4 é um lugar. Na verdade, Toshiba são três coisas para mim: é um sujeito, uma alteridade a quem confiar o meu íntimo, seja na pele das minhas melhores amigas ou até da própria tecnologia que inventamos e reivindicamos para nós; é um objeto, algo de que cuidamos com carinho porque, otherwise, pode partir-se; e é um lugar, um espaço, um ecossistema que existe nesta temporalidade específica. O público pode entrar e sentir-se imerso, talvez até convocado para um lugar de permanência profundamente relaxante, íntimo e provocatório.



Trabalhas em cocriação com a Joana Mont'Alverne e a Mafalda Banquart, que são também intérpretes. Como é que a fronteira entre autoria e interpretação funciona neste processo?

Eu não defino essas fronteiras. Fizemos um processo verdadeiramente coletivo, todes. A Joana Mont’ Alverne, a Mafalda Banquart, a Stela, a Beatriz Diniz, a Sara Nogueira, o Gonçalo Alegria, o Bruno José Silva, a Cláudia Gomes e a Marta Lima. Todas as pessoas da equipa fazem parte da criação. No caso das intérpretes, muito daquilo que elas interpretam foram coisas que criaram para si próprias; outras, que aceitaram dizer, partiram da minha cabeça. Acho que existe uma aceitação radical do universo singular de cada uma, e isso mantém-se muito vivo neste trabalho.


Falam de superação de traumas sexual, identitário e tecnológico. Como é que se aborda em cena algo tão pesado sem cair no confessional ou no terapêutico?
Falamos de trauma sexual, identitário, tecnológico e até religioso. Há uma fala no espetáculo que diz: “odeio a palavra overshare, quando uma girl partilha é sempre share, nunca over”. Só parece excessivo porque expõe aquilo que o enquadramento patriarcal e capitalista prefere esconder, prefere manter screened out, sob a desculpa de que é demasiado confessional ou terapêutico. Parece-me que partilhar, e neste caso ocupar o espaço público com a nossa intimidade, é antes de mais um gesto político. Temos uma relação intuitiva com os materiais, que transforma o universo biográfico num trabalho quase de autoteoria, em correlação constante entre a escala micro e macro da nossa visão do mundo. Confesso que essa é uma pergunta de que não gosto particularmente. O espetáculo não se propõe a curar. Ainda assim, acaba por curar, pela convivência, pela proposta e pela própria experiência da pijama party, dentro e fora do dispositivo cénico, porque é isso que a amizade e a convivência continuada entre girls fazem.


O espetáculo joga entre não-ficção e fantasia. Onde é que esse equilíbrio é mais difícil de manter?

Decidimos trabalhar esta ideia de linguagem codificada para, por um lado, potenciar uma intimidade absoluta. Aqui, o texto e a experiência do texto são apenas uma camada, tal como todos os outros agentes do espetáculo. Parti de um estudo feito sobre correspondência entre raparigas adolescentes em Inglaterra, entre o século XV e o século XIX, que demonstra que grande parte das variações linguísticas do inglês nasce precisamente da escrita íntima e doméstica entre essas adolescentes. Foi importante pensar que a adolescência, sobretudo a feminina e a queer, é frequentemente desvirtuada e minorizarizada. Os seus gostos, os livros que leem, a música de que gostam, as séries que veem e até a forma como falam são tratados como inferiores. E, na verdade, elas são um motor criativo, cultural e linguístico absolutamente fundamental. Muitas das alterações que, vinte ou trinta anos depois, são absorvidas pela oralidade comum começam precisamente nelas. Queria experimentar elevar a forma como falamos. Independentemente de ser mais teórica, filosófica, coloquial ou online, queria que essa linguagem permanecesse num círculo fechado entre nós. Trabalhar esta ideia de que, se nunca nos querem ouvir e na maior parte das vezes apenas nos querem ver, então desta vez vão ouvir-nos sem necessariamente nos ver. Do you know what I mean? A feminilidade é demasiado circunscrita ao período mais fértil, mais desejável, mais jovem. Mas a adolescência é, na verdade, um momento de enorme fertilidade intelectual, um momento em que somos capazes de deslocar a sintaxe, de reinventar a linguagem, de refazer a cultura. Portanto, há também uma tentativa de reparação nesse gesto.


A Bolsa Amélia Rey Colaço financia este projeto. O que representa esse reconhecimento para uma criadora a trabalhar com estes temas neste momento do teatro português?

A Bolsa Amélia Rey Colaço, para além de me ter permitido conhecer espaços, pessoas e equipas que ainda não conhecia, e pelas quais estou muito grata, permitiu-me também circular e criar de uma forma mais institucionalizada. Não sei se isso me trará reconhecimento. Acho, na verdade, que o reconhecimento mais importante que conquistei durante este período de trabalho foi o da equipa e o das minhas amigas. Mas, sem dúvida, trouxe-me condições para continuar a trabalhar de forma consistente ao longo do tempo, em vários lugares e contextos, e isso foi fundamental para o processo. Claro que estar associada aos coprodutores desta bolsa é importante para mim enquanto criadora, sobretudo sendo tão nova. Mas existe também uma dimensão mais humana da experiência, menos ligada aos títulos ou àquilo que é projetado para o exterior, e mais próxima daquilo que acontece internamente, que me deixa profundamente feliz. Adorei, por exemplo, conhecer a Isabel, diretora de cena do Teatro Nacional D. Maria II. Um beijinho para a Isabel, porque sinto que, no fundo, é muito através destas experiências e destes encontros que tudo realmente ganha sentido.


Foto: © Filipe Ferreira

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