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Mais Papel do que Carne e Osso

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COFFEEPASTE
23 de Janeiro de 2023

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Mais Papel do que Carne e Osso

(DISPLACEMENT), MEMÓRIA E Documento


ENTREVISTA DÉLIO JASSE. POR MAFALDA RUÃO

 “Todos têm direito a recuperar o seu passado, mas não há razão para erigir um culto à memória; sacralizar a memória é outro modo de tornar estéril o pensamento.”

Ao percorrer o arquivo fotográfico - seu e dos outros -, Délio Jasse recupera memórias para construir no presente as vozes abafadas no passado, refletindo sobre a cultura e a política africana pós-colonial. Mas o artista sabe que a História, quando resgatada, é sempre um conto novo, acrescentado. Contar deforma, e tudo o que se conta não é mais do que aproximativo; embora verídico, a verdade não depende apenas de que as coisas sejam, aconteçam, mas que, de certa forma, permaneçam latentes, desconhecidas. Recuperar o passado é, assim, reescrevê-lo à sua maneira, erguendo novas narrativas entre a fotografia, a serigrafia e a gravura, que questionam a versão oficial das fontes. A revelação lenta da imagem, por meio das técnicas a que recorre, iluminam o esquecido através dessa poética de veracidade e deturpação.

Esta é a História Universal do Délio, que é a nossa também.

MR: Fazes parte de uma geração que vem para Portugal nos anos 1990, fruto da guerra civil em Angola. Como foi a experiência de ‘outsider’ e de que forma influenciou os teus interesses e criação artística?

DJ: Crescer em Angola no contexto da guerra civil é ouvir desde cedo “Um dia vocês vão sair daqui, porque a situação não é boa e não sabemos quanto tempo vai durar”. Chego a Lisboa com dezoito anos, onde já estavam todos os meus primos fugidos da frente de combate. Sair por imposição e não por escolha, implicou um rápido crescimento que envolveu vários trabalhos temporários para sobreviver. Até que, em 2003, fui para o ateliê de serigrafia do primo do meu pai, Aladino Jasse, e desenvolvi o meu interesse pela fotografia.

Durante esse tempo esperava a documentação, que vi negada durante sete anos. Vivi momentos de grande frustração e vergonha à custa da ilegalidade. Tinha medo de regressar a África. Este foi o grande problema da minha adaptação: não podia ter conta bancária, arrendar uma casa, nem sequer estudar. Motivo pelo qual me tornei autodidata, consumindo imensos livros de fotografia, câmaras e material fotográfico. No ateliê do Jorge Bastos aprendi a técnica fotográfica, enquanto nas feiras da ladra colecionava documentos e desenvolvia uma fixação por carimbos, selos, passaportes, cartas alheias, as memórias dos outros… Era como um estado de espírito, uma forma de encontrar o equilíbrio.

MR: Interessante o recurso à fotografia para abordar identidade e memória, já que ela é prova, o ‘isto foi’. Porém, nos teus trabalhos verifica-se uma deturpação dos factos devido à manipulação da imagem basilar. Como explicas o teu método criativo?

DJ: Eu questiono a validade de um documento A4 carimbado, recorrendo a processos fotográficos alternativos. Naquela altura em Lisboa, chega-me finalmente uma folha a casa a dizer que estou legal e, de repente, sou mais papel do que carne e osso. Um carimbo sentencia, veja-se a origem etimológica da palavra[2]. A colocação por cima da nossa cara marca-nos, é uma ação política. Até o barulho de carimbar é agressivo. Já o passaporte é tratado de forma imprópria e violenta: se hoje os serviços ficam com ele por questões de segurança (o mesmo que dizer que alguém fica com uma parte de nós), antigamente era rasgado ou devolvido com as marcas “caducado” ou “inutilizado”. E o seu valor muda por questões de política territorial.

Explorar a ligação entre fotografia, identidade e memória faz-me sentido através do arquivo, e ao manipulá-lo percebo os vários códigos que vão existindo: antes certificava-se com Bic azul, agora a preto; outrora solicitava-se fotocópia, hoje basta digitalizar; antes o carimbo, hoje a assinatura digital. A minha série “Sem Valor” reflete o absurdo dos documentos oficiais, ao recrutar vários motivos arquitetónicos angolanos dos anos 1970, os quais carimbo com diferentes mensagens que não combinam com a imagem, mas que desta forma a posicionam num espaço mais real. Não somos quem somos só porque um documento o diz.

Gosto de me envolver com as infinitas possibilidades que uma imagem tem, e a melhor forma de o fazer é assumir o processo. Desconstruo a imagem ao fundir processo e produto final; e ao expor o método, torno visíveis os vários estádios. Sem esses processos alternativos o meu trabalho não existia, já que é pela técnica que consigo comunicar várias linguagens. E adicionar o carimbo é como deixar a minha impressão digital. Crio documentos, não fotografias. 

MR: O recurso a técnicas antigas de impressão e a sobreposição de vários signos nas fotografias, criam múltiplas camadas que colocam as imagens finais num limbo - espaço nem inteiramente real, nem totalmente fictício. Onde dirias que se situam?

DJ: Eu aproprio-me de objetos e imagens já existentes, que não altero, mas torno transparentes. Existem naturalmente várias camadas em cada imagem ou documento; quantas vezes não vimos fotografias escritas no verso, normalmente referindo a data e o local, e só assim contextualizadas. Eu mantenho o número de camadas, apenas altero a sua ordem, trazendo a informação do verso para a frente, o que, por si só, muda a narrativa. Não quero adulterar a imagem, antes torná-la mais visível. Talvez seja ambíguo, de facto, se pensarmos desta forma: a imagem é real quando a encontro, mas ao transformá-la, evidencio coisas que estavam escondidas e não se viam bem. Ao terminar o processo, a imagem final é “mais real” - pois está livre de toda a superficialidade - do que a original, que talvez possamos ver agora como mais “fictícia”.

MR: Acreditas que ao reproduzir imagens alternativas, pela manipulação de eventos históricos, podemos resgatar o passado e, sob esse novo formato expositivo entre autenticidade/deturpação, entre inocência/autoridade, libertar-nos, metaforicamente, da violência e da opressão que evocam?

DJ: Todo o meu arquivo fotográfico tem uma carga colonial. O facto de não usar a imagem original, mas manipulá-la, é porque quero preservá-la e também porque é suja, carregada de negatividade pelo passado que contém. Refotografar, usando diferentes técnicas e métodos e fazer a sua lavagem, é colocá-las noutro contexto, retirar-lhes o peso colonial para contar uma nova história. De certa forma, trazer à luz o que se esconde nos arquivos para desmistificar o passado.

O colonialismo sempre refletiu a visão do fotógrafo. Imagens de propaganda que pretendiam mostrar ao governo como iam as coisas nas colónias. Não interessava o retrato mundano, mas sim exprimir controlo, exploração, subjugação. Tenho muitos aerogramas usados na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Ultramar que são como diários, onde percebo melhor a vida nas colónias. Este arquivo pessoal é o que pretendo mostrar. Aquilo que Portugal não mostrava. Revelar isto não é deturpar a história, é mostrar como realmente foi.

MR: A tua prática artística é um questionamento às estruturas históricas e sociopolíticas que marcaram a sociedade no século XX e ainda ecoam. Encaras o teu trabalho como espelho/investigação crítica que traz o passado ao presente, ou como um martelo/ato político?

DJ: Não defino o meu trabalho como um ato político, muito menos ativista; ainda que diria que trabalho com mecanismos políticos, pois a mim interessa-me questionar não só documentos, mas património e arquitetura. Não gosto de lhe impor um nome. É sem dúvida um espelho que reflete o passado, que dá a mostrar; e também um martelo, pois acredito que, ao evidenciar coisas subtis escondidas nos arquivos e revelar uma “nova” imagem, apelo a uma mudança de perspetiva sobre o que cada fotografia conta.

Há quem ainda hoje diga que no tempo do Mussolini ou Salazar é que era bom. Temos que reformular estes pensamentos e para isso há que olhar para trás. Ao recorrer a imagens antigas que mostravam situações muito locais, sem projeção no ocidente, permito que o colono se reveja. É o dever da memória.

MR: Itália elegeu recentemente Giorgia Meloni como primeira-ministra. Como é que um artista de raízes africanas e com um trabalho que aponta o dedo e toca na ferida colonial se exprimirá hoje num país de extrema direita que se opõe à imigração e multiculturalidade?

DJ: Eu não atuo conforme a política. Já vivi na Itália de Salvini, altura em que coincidiu trabalhar sobre o colonialismo italiano, quando descobri num antiquário quatro jornais fascistas dos anos 1930, sobre os quais me debrucei nas questões relacionadas com África.

Sobre a ascensão de Giorgia Meloni, sinto que a nova geração de afrodescendentes está unida e a fazer grandes avanços nas questões da diáspora. Por outro lado, é importante atuar individualmente, pois a mudança começa em nós. Como dou aulas em Itália, debato diariamente estes temas e incentivo os meus alunos a mergulharem nos arquivos familiares, e assim escavarem o passado colonial. Esta nova geração tem garra, está num campo de visão diferente, sendo deles que pode partir a consciência para reescrever a História, desfazendo as memórias escondidas e descolonizando-as. Isto é um trabalho essencial, já que muitos nem têm noção do passado familiar. Mais tarde, irão converter as imagens colecionadas em cartazes e fanzines. E daí, talvez seja isto uma forma de ativismo.

MR: O que podes desvendar sobre o Art-Project que aqui apresentas?

DJ: Desenvolvi para a capa um passaporte que desaparece com o tempo, já que está carregado de carimbos (e sentenças), enquanto no interior apresento algumas imagens de arquivo de Moçambique e um trabalho em cianotipia sobre a cidade da China, refletindo sobre a brutalidade da construção chinesa em Angola, que se apodera cada vez mais do país.

MR: Algum sonho por realizar?

DJ: Retornar ao meu país, levando este arquivo ao seu local de origem. Ir aos sítios que apenas conheço através das fotografias, e finalmente experienciá-los.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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