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Mário Coelho: celebro para sempre os “furiosos dramáticos” e os “descontrolados da teatra”

Por

 

Pedro Mendes
3 de Abril de 2026

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Mário Coelho: celebro para sempre os “furiosos dramáticos” e os “descontrolados da teatra”

Dez anos depois do seu primeiro espectáculo, Mário Coelho regressa a um imaginário que nunca abandonou de vez. "Antes que canalha caia em desuso" esteve em cena em 2024 como work in progress e volta agora, numa versão mais densa, à Escola de Mulheres, de 9 a 12 de abril. Em palco, Mário Coelho constrói uma história sobre um filho que procura uma mãe, sobre a dissolução do indivíduo num coro e sobre o que fica de uma vida antes de a esquecer. Numa conversa sobre autobiografia, luto e a liberdade de criar sem fórmulas, o autor e encenador fala do espectáculo que sente encerrar, e transformar, um ciclo de uma década.


Como chegaste ao título e o que representa para o espectáculo?

Quis explorar a ideia de “anti-herói”: uma figura assumidamente imperfeita, com falhas e pensamentos menos nobres, e perceber como o público se relaciona com ela. A palavra “canalha” trouxe-me precisamente essa dimensão, para além de me levar para uma outra época, talvez por associar esse termo à minha avó e sentir que o mesmo está quase em vias de extinção: #letsbringcanalhaback!


A sinopse começa em voz hesitante, cheia de “acho que” e “parece-me”. Essa incerteza é estética ou é genuína?

Ambas. A dúvida faz parte de mim, rodeia-me 24 horas por dia, e achei interessante trazê-la para a própria sinopse. Sendo um espectáculo que se auto-questiona, fazia sentido apresentá-lo como um conjunto de possibilidades, em vez de uma definição fechada.


Defines a criação como tragédia, stand up e musical ao mesmo tempo. Como convives com essa indefinição de género?

Essa indefinição de géneros sempre esteve presente no meu trabalho desde o início. Nunca parto tanto do género ou do formato em que o espectáculo se vai inserir, mas sim da história e da viagem que quero construir - do “universo” que vamos começar a navegar.


Neste caso, o espectáculo cruza vários formatos: brinca com o stand-up, com o teatro-conferência, com o teatro autobiográfico, até com o musical - “olhem para mim, vou a todas”. E também, como eu, por norma, não entro como actor nos meus espectáculos, o facto de estar aqui em palco levanta uma pergunta: será que este objecto se torna automaticamente mais pessoal por eu estar em cena?


De alguma forma, tudo isto atravessa o meu trabalho e a minha forma de criar. Sempre me interessaram objectos indisciplinados, que começam num ponto e terminam noutro. No meu espectáculo anterior, Aquela canção sobre o fim, por exemplo, começávamos numa comédia ácida, passávamos por uma tragédia contemporânea e acabávamos quase num filme de terror. Tudo contribuía para a mesma história - apenas a navegação se tornava imprevisível, sem obedecer a géneros fixos.


Mas tudo isto nem é assim um processo tão concreto e racional: quando dou por mim as histórias que estou a escrever já assumiram diferentes “detours” e vou por aí fora.


O espectáculo nasceu de um convite para um work in progress em 2023. O que mudou desde essa primeira versão até hoje?

O espectáculo surgiu a partir de um convite do Cultura em Expansão, no Porto, para apresentar uma criação à minha escolha. Na altura, decidi revisitar os meus três primeiros espectáculos - aos quais dei o nome de “Trilogia do Abandono da Infância” - e pensar uma espécie de remake.


Essas primeiras criações tinham elencos e equipas muito grandes, e surgiu-me a ideia de reduzir a equipa nesse sentido: a mim, ao Pedro Baptista (na assistência de encenação) e ao Manuel Abrantes (no desenho de luz). Queria perceber o que acontecia ao criar um objecto mais cru, despido de grandes artifícios, aparentemente simples na forma, mas que adensasse aquilo que já estava presente nesses trabalhos iniciais.


Apresentei-o em 2024 com a ideia de que ficaria por ali. Mas, ao longo deste último ano e meio, senti necessidade de regressar ao espectáculo, aos temas, e de fechar este ciclo. Há qualquer coisa, do ponto de vista temático, que sinto que aqui se encerra - ou pelo menos se transforma num movimento mais denso, mais amplo.


O que desbloqueou essa decisão de falares assumidamente de ti próprio em cena?

Curiosamente, acho que falo sempre de mim em todos os espectáculos que crio, nem que seja pelo facto de os escrever e partir das minhas experiências e pensamentos. O que não me interessa é criar objectos fechados sobre si mesmos, que se limitem a uma experiência singular (somente a minha, “eu a criar dentro da minha bolha”); interessa-me - e é extremamente importante, para mim - que sejam espectáculos que tenham a capacidade de alcançar um carácter mais universal, mesmo que isso nunca seja totalmente controlável.


Este espectáculo não nasce de um lugar assim tão diferente dos anteriores, nem resultou de um processo particularmente distinto. Partiu, mais uma vez, da vontade de contar uma história, de construir uma mitologia, e a partir daí a narrativa foi surgindo de forma bastante natural.


Falas da tua mãe em palco. Como se separa o que é teu do que é do espectáculo, ou essa separação não interessa?

Acho que essa separação não interessa - e talvez nem seja possível. Para mim, falar de teatro, de criação e do meu trabalho implica inevitavelmente falar da minha mãe. Sinto que crio muito por ela e para ela.


O espectáculo debruça-se também sobre isso: que temas existem para além dela? Quem sou eu para além do filho que perdeu a mãe? Essa é uma questão que me acompanha constantemente. Ao mesmo tempo que sinto que o meu trabalho a homenageia, também procuro descobrir-me através dele, através das histórias que escolho contar. Por isso, essa separação, para mim, não existe.


A figura da mãe está morta mas presente. Como se constrói dramaturgicamente essa presença sem cair no luto óbvio?

Partindo da verdade. O luto é um tema universal, inevitável, e talvez por isso tão próximo do cliché. Mas, ao abordá-lo de forma honesta, é possível escapar a esse lugar mais óbvio. No fundo, trata-se de procurar ligação e reconhecimento no outro - uma procura que, acredito, nos une a todos.


O coro aparece como metáfora da dissolução do indivíduo. Acreditas que há algo libertador nessa dissolução, ou é sempre uma perda?

Adorava saber. Se tiveres resposta, diz-me por favor. Acho que passarei toda a minha vida a tentar respondê-la. Por hoje, acho que é impossível. Sermos nós mesmos é uma condição perpétua. Não? Consigo anular-me, transformar-me, fundir-me com ou em algo mais? Talvez haja outra resposta por aí, em Marte ou assim. Talvez, talvez.


Esta é a quarta criação dentro de um mesmo imaginário. Sentes que fechaste um ciclo ou que o aprofundaste?

Sinto que o aprofundei. Passaram 10 anos desde o meu primeiro espectáculo, É possível respirar debaixo de água, e, inevitavelmente, atravessei novas experiências - pessoais e artísticas - que transformaram a forma como olho para temas como o luto ou o oblívio.


Ao mesmo tempo, sinto que encerro aqui um caminho que foi sendo construído ao longo desta década. O que isso significa exatamente, ainda não sei.


Mas, agora, para contradizer um pouco o que disse anteriormente: é curioso pensar nestes 10 anos enquanto criador e perceber que muitas das coisas que me interessavam e acompanhavam na altura são as mesmas hoje em dia. E espero continuar a criar da mesma maneira, sem medos e constrangimentos, mas pura crença naquilo estou a fazer - não achando que é o melhor ou pior, mas somente aquilo que quero mesmo fazer. No meu dia-a-dia costumo dizer que sou um “cagão” e super people pleasing, mas pelo menos no meu trabalho consigo atingir uma certa libertação e conexão com a minha criança interior.


As perguntas com as quais me vou guiando enquanto crio um novo espectáculo são sempre as mesmas: estou a repetir-me,  gostaria de ver aquilo que está a ser criado, é mesmo isto que quero meter cá fora, não podia estar noutro lugar para além deste, se eu morresse hoje era neste espectáculo que queria estar a trabalhar?


Estás frequentemente em backstage enquanto autor e encenador. O que é que só se percebe quando se está do outro lado?

Costumo dizer que, quando começo a trabalhar com alguém, percebo rapidamente se essa pessoa já passou por outros departamentos artísticos para além da interpretação, ou se começou em grandes estruturas ou em formatos mais “low budget”. As primeiras experiências marcam muito o percurso de um artista e a forma como se posiciona dentro de um processo.


Mas, respondendo directamente à questão: quando se está em palco, percebe-se o grau de exposição. É inevitavelmente diferente de construir a partir de fora - há uma fragilidade que não se controla da mesma forma, uma espécie de risco contínuo.


Ao mesmo tempo, essa experiência também evidencia o quanto somos parte de uma grande “máquina”: todos os departamentos, em alinhamento e em caminho conjunto, são responsáveis por aquilo que vemos em palco, sem que haja elementos mais ou menos importantes.


Estar “do outro lado” desmonta também certas ideias de controlo que, enquanto encenadores, tendemos a alimentar. Em cena, o corpo, a voz, o tempo, a relação com o público: tudo escapa um pouco. E talvez seja precisamente aí que o trabalho acontece: nesse lugar onde já não é possível proteger totalmente o objecto, nem proteger-me a mim. Quando o espectáculo assume uma dimensão para a qual nenhum de nós estava preparado.


Tal como na vida: se saio de casa sem saber se aquele será o meu último dia, porque é que insistimos tanto em controlar o que acontece em palco? Eu quero ver um esventramento em palco e não um conjunto de corpos asfixiados numa fórmula que não comunica por tentar estar polida ou controlada.


Nesse sentido, celebro para sempre os “furiosos dramáticos” e os “descontrolados da teatra”.


Foto: © Renato Cruz Santos

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