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O escritor e jornalista Mário Zambujal, que morreu hoje, aos 90 anos, estreou-se nos livros com o sucesso de "Crónica dos Bons Malandros”, em 1980, quando era o conhecido 'pivot' do "Domingo Desportivo" da RTP1.
Na altura, porém, já somava anos de jornalismo, e de histórias escritas e contadas. Foi chefe de redação d'O Século, dirigiu o Mundo Desportivo, pertenceu aos quadros d'A Bola, do Diário de Lisboa e do Diário de Notícias, foi o primeiro diretor do semanário Se7e. E, "antes de saber escrever uma notícia, já tinha escrito muitas histórias - histórias da vida, das pessoas", como afirmou em entrevista ao Clube de Jornalistas, em 2023.
Mais de uma década antes, em dezembro de 2009, Mário Zambujal disse de si mesmo, à revista Única do semanário Expresso: "Sou um animal de prazer. Tenho prazer no trabalho e na escrita". E respeito pela liberdade.
"A palavra que mais gosto é liberdade. E a minha liberdade é poder fazer em cada momento aquilo que me apetece", afirmou então, para exemplificar mais à frente: "Eh! Sou benfiquista e apanhei duas 'pancadas' do jornal do Benfica porque me sentia livre para dar a minha versão do jogo."
Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal nasceu em 05 de março de 1936, em Moura, e viveu até aos 5 anos na Amareleja, no distrito de Beja, antes de a família se mudar para o Algarve. Do Alentejo guardou imagens da Guerra Civil de Espanha e dos refugiados que as aldeias de fronteira acolhiam; do Algarve, os anos de escola e os jogos de futebol na praia dos Olhos d'Água, em que também entravam os irmãos Aníbal e Rogério Cavaco Silva. Já adulto, fixou-se em Lisboa, onde confirmou a vida no jornalismo, primeiro no jornal A Bola, de que fora correspondente.
Trabalhou no semanário O Jornal, foi subdirector do Record e diretor interino do Tal & Qual, além de ter passado por quase todas as redações que então se concentravam no eixo Bairro Alto - Avenida da Liberdade. No Diário de Lisboa, esteve com Luís de Sttau Monteiro na edição do suplemento semanal A Mosca. Foi colunista no diário 24 Horas. Dirigiu o Jornal Sénior, publicado entre 2013 e 2014.
Do tempo da censura, n'O Século, lembrou ao Clube de Jornalistas o "telefone direto" para esses serviços, em plena ditadura: "Tínhamos este choque permanente."
Em 1975, Francisco Sousa Tavares, do conselho de administração d’O Século, convidou-o para dirigir a revista Modas & Bordados.
"Fiquei diretor interino, com duas condições: nunca ir à redação e mudar o título da revista, passando a chamar-se Mulher, tendo por baixo a referência Modas & Bordados para manter a ligação com o passado", relatou ao Clube de Jornalistas, em 2023. "Depois, disse que queria outra coisa: ir a Évora convidar Maria Lamas, que inventou a revista e foi uma grande combatente contra o regime, para diretora honorária. Meti a redação toda no meu carro e fomos".
Zambujal tinha "uma grande ternura pelas mulheres", como confessou ao Expresso. "Além da sensualidade, gosto do funcionamento da sua cabeça", afirmou. "As mulheres foram o elemento colonizado e, como tal, servem-se de um trabalho mental muito mais elaborado. O homem é muito primário. A mulher tem de jogar no jogo da inteligência para conseguir o que os homens conseguem pela força."
Na entrevista ao Clube de Jornalistas, usou a metáfora para reforçar a ideia: "[As mulheres] aprenderam a jogar judo em vez de boxe."
Noctívago convicto, lembrava o convívio regular com artistas, pessoas do teatro, do jornalismo, das letras, como Baptista-Bastos, Fernando Assis Pacheco, Afonso Praça, Álvaro Guerra, Carlos Pinhão, Dinis Machado, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Joaquim Benite.
"Conheci muitos craques", disse ao programa Primeira Pessoa da RTP1, de Fátima Campos Ferreira, em 2022. "Mas também conheci muita gente humilde, que não é craque e por quem ganhei muita estima."
A partir de 1980, fez parte da equipa do programa humorístico “Pão com Manteiga”, na Rádio Comercial, a par de Carlos Cruz, José Duarte, Bernardo Brito e Cunha, Eduarda Ferreira, Orlando Neves, Joaquim Furtado, José Fanha, Artur Couto e Santos.
“'Pão com Manteiga' foi uma autêntica pedrada no charco na rádio portuguesa. O humor ‘non sense’ não existia na rádio, poucos estavam habituados, muitos talvez ignorassem do que se tratava”, escreveu o radialista Matos Maia em “Telefonia” (1995).
Na televisão, sempre na RTP, além de "Domingo Desportivo", "Grande Encontro" e "Grande Área", no desporto, Mário Zambujal foi também responsável por programas como "Quem conta um conto", "Fim de Semana", "A Semana que Vem", e autor e coautor de guiões de séries como “Lá em Casa Tudo Bem” (1987), com Raul Solnado e Artur Couto e Santos, “Isto é o Agildo” (1995), com o humorista brasileiro Agildo Ribeiro, “Nós os Ricos” (1996) e “Os Imparáveis” (1996).
O romance “Crónica dos Bons Malandros”, cujo enredo se centra num bando de ineptos que prepara o roubo de uma peça de René Lalique do Museu Gulbenkian, inspirou o filme homónimo de Fernando Lopes, rodado em 1984. A obra deu ainda origem a uma série realizada por Jorge Paixão da Costa, em 2021, e a um musical, em 2011, dirigido por Francisco Santos em colaboração com o autor.
A “Crónica dos Bons Malandros”, disse Zambujal ao Expresso em 2009, marcou-o. “Foi um livro abrangente. Tanto divertiu doutores como operários. Essa horizontalidade de leitores é muito boa. Não é um livro para intelectuais, mas eles divertem-se, é uma paródia”.
Detentor de um sorriso amplo que marcou o modo como se tornou familiar no pequeno ecrã, Zambujal teve na "Crónica dos Bons Malandros" o seu primeiro livro, mas a estreia nas letras vinha dos seus 16 anos, quando publicou um conto no semanário satírico Os Ridículos.
A produção literária, nunca parou. Inclui “Histórias do Fim da Rua” (1983), “À Noite Logo se Vê” (1986), “Fora de Mão” (2003), “Primeiro as Senhoras” (2006), “Já não se Escrevem Cartas de Amor” (2008), “Uma Noite não são Dias” (2009), “Dama de Espadas” (2010), “Longe não é um Bom Lugar”(2011), “Cafuné” (2012), “O Diário Oculto de Nora Rute” (2013), "Serpentina" (2014), “Talismã – A Desordem Natural das Coisas” (2015), “Romão e Juliana” (2016), “Então, Boa Noite” (2018), “Rodopio” (2019), "Fabíolo" (2021), "Pirueta" (2022), "Fora de Mão" (2023).
Foi coautor das paródias "O Código D'Avintes" e "Os Novos Mistérios de Sintra", com Alice Vieira, João Aguiar, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, Rosa Lobato de Faria.
No final de 2025 publicou "O Último a Sair", um “policial desatinado” como o autor o definiu, num volume que inclui outra ficção e o ‘fac-simile’ do respetivo manuscrito: “Conto Final. Parágrafo”, história de amor e rivalidade entre dois bairros.
“Estou a cumprir uma promessa que fiz a mim próprio", disse Mário Zambujal sobre a obra. "Esta é a tentativa de escrever um livro policial. Não será um típico. [Mas] um livro em que as personagens devem ter afeto e conflitos e contradições”, afirmou, leal à empatia que sempre caraterizou a sua obra, o seu percurso profissional, a sua vida, o seu caráter.
Em março de 2026, três obras de Mário Zambujal tiveram edições comemorativas dos seus 90 anos de vida e 45 de carreira literária: “Cafuné”, “Dama de Espadas” e “Crónica dos Bons Malandros”, "clássicos do eterno bom malandro", como a sua editora, Clube do Autor, os definiu, com novo design, prefaciados, respetivamente, por Marcelo Rebelo de Sousa, ainda Presidente da República, e os escritores Rita Ferro e Gonçalo M. Tavares.
Em 2009, a constância da ficção no seu percurso levou o Expresso a perguntar-lhe se se sentia mais jornalista ou escritor. Respondeu: “Jornalismo é uma profissão e escritor não é. Não gosto de rótulos. Quero escrever livros que as pessoas apreciem”. Ou, como 14 anos mais tarde sintetizou ao Clube de Jornalistas: "Escrevo histórias".
Em 2020, o festival literário Escritaria, em Penafiel, homenageou-o e à sua obra.
Mário Zambujal fez parte da direção do Clube dos Jornalistas, associação à qual esteve ligado desde a sua fundação em 1983, tendo sido presidente durante 14 anos consecutivos, a partir de 2007, e presidente da Mesa da Assembleia Geral, de 2021 a 2023.
Na entrevista ao Clube, em 2023, manifestou preocupação com as 'fake news', a "desinformação organizada" com objetivos definidos, quase sempre políticos.
"É preocupante e desgastante. O que é necessário para um tipo se portar como um ser humano decente, no sentido da cidadania?" Para combater o fenómeno, disse, é necessário denunciar e contrapor "a verdade do jornalista, que tem a responsabilidade de ser um comunicador para a sociedade."
Mário Zambujal, irmão do cartoonista Francisco Zambujal e pai da autora de livros para a infância Isabel Zambujal, foi condecorado em 1984 com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Em 2016, recebeu a medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa e, em 2022, a Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica, na capital portuguesa, homenageou-o com um mural, na Estrada de Benfica, de autoria de Mariana Duarte Santos.
Em 2025, o Clube de Jornalistas distinguiu a sua “longa carreira jornalística” com o prémio Gazeta de Mérito.
Na contracapa das duas primeiras antologias de textos do programa "Pão com Manteiga", publicadas em livro, Mário Zambujal manteve o mesmo retrato biográfico: "Um baralho de jornais, rádio e televisão. Calça 39. Duas dioptrias. Fuma e faz desporto. Apreciador de serões, de boa conversa, de bacalhau com grão, da paz, da intranquilidade, de morangos, de Woody Allen, de golos de cabeça, da amizade, do convívio, da tolerância, de manga curta, do banho de mar e de pão com manteiga."
Em 2022, no programa "Primeira Pessoa", disse: "Estou com muita fé no amanhã."
Foto: Mural de homenagem a Mário Zambujal, em Lisboa © Wikipedia
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