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Marta Mateus: "Fazer poesia, neste momento da nossa História, é um gesto político vital"

Por

 

Pedro Mendes
10 de Junho de 2026

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Marta Mateus: "Fazer poesia, neste momento da nossa História, é um gesto político vital"

Há filmes que chegam às salas depois de já terem percorrido o mundo. Fogo do Vento, primeira longa-metragem de Marta Mateus, passou por Harvard, Yale, Princeton e Stanford, estreou comercialmente nos Estados Unidos, na Argentina e no Uruguai, foi distinguido com o prémio FIPRESCI em Gijón e entrou na lista dos 20 melhores filmes de 2025 segundo The New Yorker, e só agora chega ao público português. Rodado ao longo de quatro anos nos sobreiros e na memória do Alentejo, o filme constrói uma comunidade suspensa no tempo: trabalhadores rurais, membros da comunidade cigana, família e amigos da cineasta, todos forçados a subir às árvores para escapar a um touro negro, todos reunidos nas copas a partilhar histórias de guerra, amor e resistência.


Marta Mateus cresceu no Alentejo, estudou Filosofia, Desenho, Música e Teatro, e fundou a Clarão Companhia com Pedro Costa. Em Fogo do Vento, pegou ela própria na câmara, trabalhou quase a sós com os atores e deixou o filme amadurecer como o vinho na garrafa. O resultado é uma obra que recusa a pressa e desafia quem a vê a entrar noutro ritmo, o das estações, da luz natural, da memória que ainda não sabe que é memória.


Fogo do Vento começou como uma imagem: a de um touro negro. Como é que uma imagem se transforma num filme de quatro anos de rodagem?

Penso que todos os filmes começam por uma imagem que nasce no espírito dos cineastas. Cada imagem contém muitas outras  imagens lá dentro. As imagens podem ter muitas origens, mas partem sempre da nossa sensibilidade e da capacidade humana de conceber e criar imaginários e do nosso inconsciente que nos vai dando a ver qualquer coisa que está a germinar e esse germinar pode ter uma raiz mais pessoal ou mais colectiva. As imagens são constituídas de forças, de uma energia que estimula os nossos sentidos, e criam uma ressonância vibratória. Por isso é que as imagens criam cultura e padrões, são matrizes de arquétipos. O touro é apenas um touro. Simultaneamente, é um arquétipo e prefigura uma cultura no nosso país, mas também de outros lugares. O touro é um animal mítico. Digamos que fui seguindo esse touro e essas ressonâncias que essa imagem emitia. Uma das grandes falácias do nosso tempo é a de que o tempo é dinheiro. "É o bicho do dinheiro, aquele que tem muitas patas e anda muito rápido", diz alguém no filme. A voracidade do presente que nos desloca de um centro onde todos os tempos convergem. Tudo tem o seu tempo. Quem conhece os ciclos da natureza sabe isso muito bem. As estações têm os seus ciclos, o dia e a noite têm os seus ciclos, independentemente do tempo e do dinheiro, somos sujeitos às leis da natureza e do universo. Embora as sociedades contemporâneas se comportem como estando acima dessas leis, não estão. Essa arrogância e soberba só revelam a nossa enorme inconsciência e estupidez. Cada obra tem a sua gestação, os seus ciclos e períodos de maturação. Fogo do Vento teve o seu tempo para se fazer e para se mostrar. Cada vez que for visto o filme actualizar-se-á, no seu tempo e no tempo da História do mundo.



A determinada altura, pegaste tu própria na câmara e assumiste a direção de fotografia. O que mudou quando fizeste isso?

Comecei a trabalhar com muito mais calma, porque estava apenas dependente de mim e das pessoas que estavam frente à câmara. A equipa foi reduzida a mim e a mais uma outra pessoa, às vezes estava mesmo sozinha com os atores. É um pensar-fazendo. Pensar com o nosso corpo, perante outros corpos, naquele espaço, a partir do nosso silêncio, do nosso íntimo, na relação que temos com as pessoas que estão em frente à câmara e com aquela paisagem, com aquelas árvores. Fui encontrando um lugar mais justo da câmara na relação com o que estava a filmar. É vital encontrar esse lugar e essa respiração. E com o tempo e experiência daquele espaço, fui conhecendo melhor cada uma daquelas árvores, as diferenças de luz e sombra ao longo do dia e aprendendo a lidar melhor e mais rapidamente com a luz do sol. Fogo do Vento é filmado apenas com luz natural. Ao trabalhar praticamente sozinha, as pessoas com quem filmava, e que são actores não profissionais, sentiam-se naturalmente mais tranquilas e sem pressões. É um labor de paciência e também de amizade entre nós. Fomos fazendo daquele sítio uma casa comum. Foram belos dias passados nas árvores.


Os atores são maioritariamente não profissionais, muitos deles habitantes de Estremoz. Como se constrói uma linguagem comum entre realizadora e elenco nesse contexto?

A linguagem é construída de afectos, de escuta, de solidariedade, de amizade.É isso que temos em comum. O trabalho que fazemos parte deste vínculo. Estas pessoas são da minha comunidade, de Estremoz, e, embora de origens sociais, culturais e económicas diferentes, são a família que construímos neste filme. Muitas destas pessoas tiveram ou têm vidas profissionais muito duras e percebem muito bem que o cinema é um trabalho como qualquer outro, e às vezes também é duro... Foi um processo colaborativo. Repetimos muitas vezes, esforçamo-nos para darmos sempre o nosso melhor, e nunca menos do nosso melhor. A generosidade das pessoas protagonistas deste filme é imensa e é uma sorte e um enorme privilégio a sua companhia.


O teu filho interpreta o papel do teu avô. Como foi trabalhar com essa camada pessoal dentro de um projeto sobre memória coletiva?

Tudo o que é pessoal é também colectivo e vice-versa. Vivemos deste vínculo contínuo. Embora estejamos muito esquecidos disso e o individualismo exacerbado nos tenha vindo a isolar de uma forma doentia. Tudo o que se passa no mundo tem uma ressonância em nós. Por isso é que as pessoas estão tão divididas dentro de si. Também é um reflexo dos tempos sombrios que atravessamos. Quis chamar o meu avô, que nunca conheci, e trazê-lo à presença através do corpo e voz do meu filho. E como se chamava João da Encarnação, achei graça, encarnar no filme. Lembra-nos o espírito que toma corpo, o que se faz carne. A sua evocação reanima esse passado que também é nosso, porque trazemos a sua memória no corpo, mesmo que não o tenhamos vivido directamente, e põe-nos em contacto com essa história e com a História, actualizando qualquer coisa misteriosa que também somos, mas não estamos completamente conscientes de ser. Somos também feitos dos nossos avós e a memória deles está viva nos nossos genes. Como é que mudamos essa genética que guarda a memória da linguagem da guerra? O “corpo de carne” dos seres humanos na progressão da História. Outra história é a natureza de cada pessoa, que muitas vezes não tem nada a ver com a nossa família de origem nesta terra. No filme, a arma é mandada ao rio. É um gesto que subverte a ordem cronológica. É alguém do passado a actuar no presente. A linguagem da guerra cria a linguagem da guerra. É preciso transmutar certas imagens e modos de nos relacionarmos com o mundo a partir do nosso ser, um ser que está para lá da genética e num reflexo retrospectivo da História toma consciência de si. É nesse palco da História que se vai reconstruindo e libertando o nosso imaginário colectivo, e criando outros modos de ser mais próximos da liberdade. Por isso é que a poesia é tão indispensável. A poesia, a arte, quando nos tocam, despertam o nosso ser interior, a nossa natureza e acendem essa chama que faz laborar em nós qualquer coisa muito misteriosa. São, como o amor, a chamada inspiração das musas. Sermos tomados por esse encantamento, esse fulgor que escapa à racionalidade, é a condição de possibilidade para a nossa progressiva tomada de consciência. Fazer poesia, neste momento da nossa História, é um gesto político vital.



O Alentejo já estava presente em Farpões Baldios. O que ainda havia por dizer sobre este território e estas pessoas?

Há muito mais para fazer e trabalhar neste território. O Fogo do Vento pode ser visto como uma expansão do filme anterior. Há quem diga que os cineastas estão sempre a fazer o mesmo filme, que os artistas estão sempre a fazer a mesma obra, embora as aparências as distingam. Formalmente, este é um exercício muito mais aprofundado na imagem, no som, e na forma complexa como o filme se vai articulando e desdobrando.

O filme foi rodado ao longo de quatro anos. Isso implica um processo de escuta muito longo: das pessoas, da paisagem, da luz. Como é que esse tempo longo muda a relação com o material que vais acumulando?

É como a uva que amadurece na cepa e o vinho que envelhece na garrafa. O filme vai-se formando, pelas diferentes estações, e depois maturando e revelando-se. É deixar a vida fazer a sua obra. Preciso deixar as imagens a fermentar e distanciar-me do próprio evento da rodagem para voltar a descobrir e a relacionar-me com os materiais. E só depois disso começar a compor uma partitura com estes elementos que se vão animando e tomando o corpo do filme. Quando corre bem, é o filme que se vai fazendo a si próprio, chamando por nós, temos apenas que ouvi-lo e seguir esse rasto.


Fogo do Vento passou por Harvard, Yale, Princeton, Stanford, e agora chega às salas portuguesas. Como é que pensas a relação entre esses dois circuitos?

O filme fez um longo percurso no estrangeiro, inclusive em algumas universidades americanas onde as projecções são seguidas de conversas sobre o filme: sobre a matéria da obra cinematográfica, do ponto de vista formal e crítico.
São lugares onde se desdobra a obra, se pensa o cinema como meio de conhecimento. É isso que o cinema é. Numa conversa com o público depois de uma projecção em Évora, alguém falava da imagem e do som do filme e o Pedro Costa disse uma coisa bonita: “o cinema nasceu para nos ajudar a ver e a ouvir melhor; a ver e a ouvir de uma maneira como não tínhamos ainda visto e ouvido”.
O circuito das salas está em apuros. As pessoas vão pouco ao cinema. Como usufruem pouco da cultura. Trabalham muito. Não têm tempo. Estão esgotadas. Não têm dinheiro. E desistem. É isso que uma determinada camada da sociedade quer de nós, que nos cansemos, que desistamos, que nos calemos, obedeçamos e continuemos este quotidiano absurdo de exploração capitalista. Na sala de cinema, suspendemos, pelo menos um pouco, o carrossel dos dias. Olhar para uma tela é vermo-nos a nós próprios. Há em Portugal um enorme desconhecimento do cinema português por parte do público. Esse desconhecimento tem sido alimentado politicamente. Revela um certo desprezo institucional que depois se reflecte na forma como o público se relaciona com as obras. A iliteracia cultural e a desigualdade de acesso à cultura em todo o território contribuem para esse desencontro entre as obras e o público. E o público em Portugal acha, em geral, que não gosta de ver filmes portugueses, sem sequer os ver. Não somos capazes de olhar para nós próprios, para o que os filmes mostram da nossa sociedade?
A NOS Lusomundo apresentou um "estudo” sobre “o cinema português aos olhos do público”. Mas atenção que é um estudo “aos olhos” da NOS. Ainda não li, mas claro que é preciso desconfiar muito nele. No mesmo dia em que o estudo foi apresentado, a NOS tirou o Fogo do Vento dos cinemas, como faz a muitos outros filmes portugueses. Que estudos fez o Ministério da Cultura sobre o cinema português? Ouviram os cineastas e produtores, os agentes culturais?
O cinema a que as grandes produções e plataformas de streaming habituaram os públicos distrai-nos de nós próprios. Criam conteúdos programados por inteligência artificial que seguem padrões de comportamento para orientar a nossa percepção e atenção. Antes chamava-se a isto "entretenimento", agora penso que podemos chamar-lhe sem qualquer dúvida de manipulação das massas. E é esse cinema que despreza o público e a sua liberdade, que está a acabar com as salas de cinema. Porque as pessoas se aborreceram desses filmes que são todos iguais e não implicam a pessoa que está ver, não a tomam como consciência activa. A nossa cultura visual é uma projecção de uma imagem que nos querem dar de nós próprios, do que somos enquanto seres humanos e comunidade. Nesta nossa sociedade muito errada onde vivemos fizeram-nos acreditar que a arte é supérflua. É a arte que nos toca mais intimamente, em algo que não tínhamos ainda sentido, que estava adormecido, e faz germinar em nós um ânimo, e potencia o nosso auto-conhecimento. O cinema é uma das chaves de acesso ao nosso espírito e que põe em movimento esse vai-vem entre o nosso consciente e o nosso inconsciente e nos faz avançar. Haverá muitas razões para as pessoas se terem afastado do cinema: todas elas têm uma origem política. É um gesto político voltar a ocupar as salas e escolher ver filmes que nos tocam o nosso inconsciente e nos põem a pensar.



O que te inspira hoje?

A natureza e o universo do qual fazemos parte. A nossa sensibilidade às outras pessoas e ao que nos rodeia, a solidariedade, o sentido humor que troca as voltas ao inferno dos dias, o pensamento, a arte e, sobretudo, a arte de viver com alegria. 


Foto: © Cristiana Ortiga

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