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O exaustivo ato de pensar o mistério da dança é, em José Gil, um gesto mais elementar de pensar a vontade humana. Com a destreza e o cuidado especiais habituais, complexifica o invisível e faz-lhe perguntas:
“Mas, enfim, porquê querer dançar? Assim que tentamos responder, somos imediatamente remetidos para o desejo, para a própria natureza do desejo.
O que se prende com uma só palavra: agenciar.
(...)
O desejo é portanto infinito, e nunca pararia de produzir novos agenciamentos se forças exteriores não viessem romper, quebrar, cortar o seu fluxo.” (GIL, José, 2001, Movimento Total – O Corpo e a Dança, Lisboa: Relógio d’Água, p. 70).
Através de uma expressão humana específica, que aqui se refere à dança, o ser humano é conduzido para aquilo que lhe é mais natural, isto é, que não pode ser de outro modo: o desejo, que é comummente associado ao ímpeto visceral e íntimo de uma pessoa. Todavia, Gil adverte para as “forças exteriores” que o fazem interromper ou, antes, “romper, quebrar, cortar o seu fluxo”. Não obstante, e em reflexão, poder-se-á adivinhar a hipótese de que essa interrupção pode surgir enquanto desejos de outra ordem – aqueles que, inconscientemente, nos forçamos a acreditar e, por extensão, sentimos, de facto.
Há uma obra de Jenny Holzer, dos inícios dos anos 80, a que o escritor e jornalista inglês Stuart Jeffries se refere como “Em 1982, uma mensagem intrigante surgiu no centro de Manhattan. “Protege-me daquilo que quero”, podia ler-se num gigantesco letreiro LED em Times Square. O que é que estava a vender? Por que é que alguém quereria ser protegido dos seus próprios desejos? Quem se encarregaria da proteção? E quem nos tinha feito desejar o que não deveríamos desejar? A pessoa responsável por instalar o letreiro, a artista Jenny Holzer, não deu respostas.” (JEFFRIES, Stuart, 2024, Tudo, a Toda a Hora, em Todo o Lado, trad. Valério Romão, Lisboa: Livros Zigurate, p.7).
O alerta de Holzer surge como uma oração, um poema, em estância primeira, e dedica uma verificação às vontades a que nos habituamos a sentir em sociedade. De facto, já Jacques Lacan examinou o desejo, achando o Outro na equação, estabelecendo que o desejo de uma dada pessoa é sempre o do outro: “Le désir de l’homme est le désir de l’Autre.” (Le Séminaire, Livre XI: Les quatre concepts foundamentaux de la psychanalyse, 15 de Abril de 1964), afere.
Na aceção da ideia de que desejar implica sempre o Outro, achamos as nossas vontades num campus em que o que se deseja é tão só aquilo que é socialmente valorizado ou, mais, que é determinado (à priori) socialmente. Deseja-se porque o Outro valida.
Em cumplicidade com os códigos de construção que Lacan denuncia, podemos assistir a uma composição que estrutura o desejo e o determina – torna a escolha de qualquer um num efeito – , segundo um trajeto percorrido pela pessoa desde o nascimento, de acordo com os vários elementos com que estabeleceu relação. Os desejos são então determinados através do sítio onde se nasce, onde se vive, através dos filmes que se viu na infância – a ideia de princesa bela, de príncipe encantado, de amor romântico, de feminilidade, de virilidade, etc. Tudo o que se deseja hoje é determinado lá atrás, na nossa formação. Isto não quer dizer que os nossos desejos não são nossos, mas antes, que os nossos desejos são encenados – como acontece, aliás, no teatro ou na dança.
Há um exemplo paradigmático da encenação do desejo numa peça de William Shakespeare: Macbeth. Numa noite turbulenta, Macbeth depara-se com três Bruxas que lhe dedicam várias profecias, entre as quais “Salve, Macbeth, que um dia serás Rei.” (SHAKESPEARE, William, 2006, Macbeth, trad. José Miguel Silva, Lisboa: Relógio d’Água, p. 23). Ora, ele era um simples soldado escocês, nunca na vida almejava ser rei. Não obstante, no momento em que lhe dizem “um dia serás Rei”, Macbeth assume essa circunstância como uma possibilidade, e passa a desejá-la. Ele passa a desejar ser rei mais que nunca, ficando obcecado, e não descansando enquanto não alcança o trono. É por isso que mata Duncan, o rei vigente, mas também grande parte da corte que direta ou indiretamente lhe dificulta o caminho para a meta apetecida, um corpo a seguir ao outro.
O que acontece na cena das Bruxas não é uma premonição, é o encenar de um desejo para Macbeth, para que ele o queira e o cumpra. Há uma manipulação. Não é por acaso que estas Bruxas aparecem na peça como seres fantasmáticos, como visões, como algo que está invisível; por analogia, se as lermos como um sistema invisível que dirige os quereres e o percursos das pessoas em sociedade, vamos facilmente dar a um sistema que organiza as lógicas sociais e que, quer se queira quer não, leva os sujeitos a corresponder a um código – o chamado código deontológico – com comportamentos adequados e desejos apropriados, sob pena de se ficar de fora. Esta premissa corrobora a tese de Lacan ao entender que é esse sistema que acena com a cenoura e obriga a desejar o que ele quer.
Na circunstância de que as vontades são delineadas pelo invisível, insurge-se a dúvida: são as pessoas que desejam ou o sistema por elas? Apesar de ser uma manipulação, e de ser Macbeth a chacinar o rei e a maioria da corte, por ser ele a exercer todas esses atos hediondos, esse facto responsabiliza-o? De quem é a responsabilidade do desejo? Das Bruxas ou de Macbeth? Os desejos são da responsabilidade de quem os pratica ou são do sistema?
No clássico exemplo da coca-cola, Slavoj Zizek vinca que os nossos desejos são encenados através da armadilha da sociedade de consumo. É no seu documentário O Guia da Ideologia de um Depravado (2013) que nos mostra uma garrafa de coca-cola e a bebe, defendendo que aquele produto está preparado para, ao bebê-la porque se tem sede, nos exorte a vontade de beber ainda mais, tal e qual um vício: “Uma mercadoria nunca é só o objeto que compramos e produzimos. Uma mercadoria é um objeto cheio de subtilezas teológicas e mesmo metafísicas. A sua presença reflete sempre uma transcendência invisível.” (O Guia da Ideologia de um Depravado, 2013, realiz. Sophie Fiennes).
Não se bebe porque se tem sede, mas para se continuar a desejar. Todos os nossos desejos mais não são do que o desejo pelo próprio ato de desejar. Quando Macbeth mata o rei, e depois todos os que dele discordam, ele está a tentar manter o desejo não só por ser rei, mas para continuar a desejar em grande, para afirmar uma e outra vez o seu poder, o de desejar a ser rei. – Para além de ter o trono, ele quer continuar a desejá-lo.
A coca-cola é apenas um exemplo dentro de tantos outros que se poderia nomear da sociedade de consumo. O mais popular será o dos smartphones: todos os anos saem novos e os anteriores passam automaticamente a desatualizados, as aplicações deixam de funcionar de uns para os outros, os carregadores mudam. Esta manipulação do desejo por parte do mercado de consumo a qual todas as pessoas se sentem coagidas a aceder (e até a participar) faz com que os seus desejos, ao invés de íntimos e viscerais, se transformem em desejos standard.
As vontades passam a ser standard, dentro de uma lógica de consumo que consome o indivíduo. Todos passam a desejar o mesmo porque, se não o fazem, sentem-se rapidamente excluídos. Byung-Chul Han alerta-nos para os perigos da modernidade desta forma: “Da perceção e da comunicação atuais desaparece cada vez mais o próximo que temos diante de nós, na medida em que representa a presença do outro. O próximo que temos à nossa frente degrada-se cada vez mais, reduzindo-se a um simples espelho em que cada um de nós se reflete. A nossa atenção, hoje, centra-se completamente no ego.” (HAN, Byung-Chul, 2018, A Expulsão do Outro, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio d’Água, p. 78). Afinal, o espelho, o reflexo de uma pessoa, é tão só uma encenação.
Notavelmente, Macbeth, na sede do seu desejo de poder, sente a necessidade de se dirigir às Bruxas, mais à frente, na obra. O soldado escocês, agora rei, quer saber se alguma vez irá ser derrotado, ao que lhe respondem com um enigma: “...vencido não serás enquanto o bosque / de Birnam não avançar ao teu encontro, / em Dusinan.” (SHAKESPEARE, William, 2006, Macbeth, trad. José Miguel Silva, Lisboa: Relógio d’Água, p. 96). Se Macbeth só for derrotado quando o bosque de Birnam avançar em direção ao bosque de Dusinan, como decretam as Bruxas, então está a salvo. As árvores não andam, pensa. Na verdade, o que sucede posteriormente é que os soldados do outro reino colhem arbustos na floresta e colocam-nos à frente dos seus corpos, para se esconderem enquanto avançam até ao castelo de Macbeth sem serem vistos – uma tática clássica dos conflitos bélicos. Também estes fazem uma espécie de encenação, de teatro.
Ironicamente, é uma encenação (a das Bruxas) que inflama o desejo em Macbeth, mas também é o teatro (o dos soldados) que mata o desejo nele – e, em consequência, o derrota.
Na obra Protect Me From What I Want (1986, de Jenny Holzer, citada acima), a artista alerta-nos para os perigos da era pós-moderna ao que aos desejos humanos diz respeito. Ao fim e ao cabo, desejar não é ser-se verdadeiramente, mas ser o que os outros pretendem que sejamos: por isso, protege-me dos meus desejos, protege-me daquilo que eu quero. Não obstante, “protect me from what i want” é, provavelmente, um desejo criado pelo próprio sistema na autora, qual Bruxas de Macbeth. “Proteger dos desejos” é, em si, um desejo.
Na envolvência cega deste grande teatro dos desejos que as sociedades preparam para as suas marionetas, torna-se cada vez mais difícil entender uma forma de como desejar verdadeiramente. A solução mais ágil será a de se ir tendo vontades e concretizando-as, ir-se desejando, mas na consciência das lógicas e das instituições em que se está inserido. Ao mesmo tempo, o provocar, investigar e instigar o desejo num dado ser humano parece ter em José Gil uma amplitude hemisférica. Isto é, será através da dança que contactemos mais facilmente com as nossas vontades mais profundas ou, se quisermos, mais orgânicas. Na verdade, esta aceção da dança pode ler-se equivalente para outras vertentes artísticas, pois é através da arte que lidamos com a inquietude da nossa natureza. Talvez a arte tenha esta especial e primeira responsabilidade: a de devolver os verdadeiros desejos a nós próprios e, por conseguinte, nós a nós mesmos.
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