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arte, ciência e política perante máquinas que começam a parecer alguém
No ensaio anterior procurei seguir os fios de RedSkyFalls, de Alexandre Estrela, representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2026. Em vez de tomar como imediata a relação entre terramoto, dados, organismos e figuras, reconstruí as mediações técnicas e discursivas que permitem que essas relações apareçam como naturais.
Remeto aí para os pormenores: as experiências de onde provêm alguns movimentos, as figuras que nunca tiveram um organismo na origem, o circuito que transforma um sismo distante numa alteração da instalação e a diferença entre aquilo que a obra material faz e aquilo que o guia, a folha de sala e outros textos dizem sobre ela.
Essa separação continua a ser decisiva. A obra conserva diferenças que o discurso tende por vezes a reunir: uma mosca continua ligada à experiência que produziu os seus movimentos; uma partícula continua a ser uma partícula mesmo quando começa a parecer viva; as figuras estancam quando recebem o sinal do terramoto, enquanto palavras como “medo”, “sensibilidade animal”, “empatia” ou “pulso vital” pertencem já ao modo como essa resposta é interpretada e apresentada.
Foi a partir daí que propus distinguir activar de accionar uma exposição. Activá-la seria seguir o protocolo de relações que nos é oferecido; accioná-la começaria quando os próprios elementos pudessem resistir a esse protocolo e obrigá-lo a modificar-se. Heider e Simmel, por exemplo, podem mostrar quão facilmente atribuímos intenção a formas em movimento sem por isso demonstrar que existe intenção naquilo que vemos.
Na mesma Bienal, a poucos minutos de RedSkyFalls, Screen Melancholy, de Li Yi-Fan, oferecia outro modo de trabalhar esta distância. Simulação digital, marionetas, corpos impressos e procedimentos de animação permaneciam visíveis dentro da própria experiência. A imagem continuava a funcionar sem esconder inteiramente aquilo que a fazia funcionar.
Foi a essa possibilidade que chamei mostrar os fios.
2. Uma coincidência desloca a pergunta
Entretanto, uma discussão aparentemente exterior à Bienal reforçou, deslocando, a urgência da questão.
Na sua edição de 22 de agosto , o Economist dedicou a capa à pergunta “Could AIs become conscious?”. No interior, um Briefing procurava sinais relacionados com consciência dentro dos grandes modelos de linguagem; o Digital Consciousness Model reunia diferentes perspectivas teóricas e centenas de indicadores para avaliar a evidência disponível; Blaise Agüera y Arcas propunha outra deslocação: talvez o cuidado e o reconhecimento participem também na maneira como uma entidade passa a contar para nós como consciente.
Foi difícil não regressar mentalmente às figuras de RedSkyFalls.
O guia da exposição recorda a experiência de Fritz Heider e Marianne Simmel, de 1944: bastaram formas geométricas em movimento para que observadores reconhecessem perseguições, intenções, personalidades e medo. O próprio discurso da exposição possui, portanto, uma ferramenta para interrogar a facilidade com que movimento se transforma em comportamento e comportamento se transforma, para nós, na acção de alguém.
Só que hoje já não estamos apenas diante de triângulos. Estamos diante de sistemas que conversam, mantêm contexto, usam a primeira pessoa, corrigem respostas, descrevem estados internos e conseguem sustentar durante horas a experiência de um interlocutor.
Se a arte já nos mostrou quão facilmente atribuímos vida, intenção e medo a formas fabricadas, o que muda quando a mesma pergunta passa a ser colocada, com instrumentos e teorias, perante sistemas artificiais? Podemos estar apenas a aperfeiçoar as condições da nossa projecção. Podemos estar a encontrar diferenças que obriguem a rever aquilo que entendíamos por consciência. Ou ambas as coisas podem estar a acontecer ao mesmo tempo. E é precisamente essa incerteza que torna o problema interessante.
3. Subir um degrau
Há uma diferença pequena entre estas duas frases:
● É difícil não sentir com elas.
● Por que é difícil não sentir com elas?
A primeira está próxima da orientação proposta pelo discurso de RedSkyFalls. Não é a obra material que nos diz literalmente que existe medo nas figuras. É o guia que organiza determinados comportamentos através de palavras como medo, sensibilidade, vida e empatia. As figuras estancam quando chega o sinal sísmico; o discurso pode dizer que "se imobilizam de medo".
Essa passagem é importante. Uma alteração de movimento é observável. “Medo” já é uma interpretação. Não há qualquer problema em uma obra de arte produzir essa interpretação. Seria absurdo pedir à arte que se limitasse ao que pode demonstrar. O problema começa quando a distinção entre efeito e atribuição desaparece.
A segunda frase “por que é difícil não sentir com elas?” não elimina a empatia. Faz outra coisa: transforma a própria empatia em matéria da experiência. Continuo a ver uma figura como assustada mas consigo simultaneamente perguntar que movimento, que nome, que expectativa e que narrativa fizeram aparecer medo diante de mim.
É aquilo a que, numa conversa sobre a exposição, chamei "subir um degrau".
Não acrescentar uma explicação crítica depois da experiência, como quem coloca uma nota de rodapé a corrigir uma emoção. Fazer com que aquilo que sentimos se torne também interrogável.
Screen Melancholy aproxima-se deste problema por outra via. A fabricação não é apenas informação exterior sobre a obra. Entra ostensivamente naquilo que vemos. A marioneta permanece marioneta enquanto nos afecta; o edifício virtual continua a ser um modelo enquanto nos envolve; a própria produção digital é tornada visível no interior da imagem.
RedSkyFalls contém uma possibilidade igualmente forte, embora diferente. Materialmente, a obra não homogeneíza completamente aquilo que apresenta. Uma mosca conserva a sua proveniência experimental; a partícula nunca chega a tornar-se animal; um cata-vento pode adquirir uma aparência comportamental sem possuir organismo; o terramoto só entra na sala depois de uma série de mediações técnicas.
É justamente essa heterogeneidade que permite perguntar quando movimento começa a parecer comportamento e quando comportamento começa a parecer vida.
A tensão aparece quando parte do discurso que acompanha a obra tende a reorganizar essas diferenças sob um vocabulário comum de organismo, intuição, medo ou empatia.
O problema não é, portanto, que uma exposição faça sentir. É que, quando ela própria conhece o mecanismo pelo qual começamos a projectar interioridade, existe uma diferença entre produzir empatia e tornar a empatia uma questão.
Esta diferença deixou de ser apenas estética.
4. Sentir, sofrer, querer
A discussão sobre inteligência artificial comprime frequentemente perguntas diferentes dentro da palavra "consciência".
Uma entidade ser consciente, no sentido forte em que o problema aparece na filosofia da mente, significa haver alguma coisa que é ser essa entidade: não apenas processamento, mas experiência.
Ser senciente introduz outra pergunta. Há a que podem correr bem ou mal para ela? Pode sofrer, sentir prazer, medo, alívio?
Ser livre, ou possuir uma forma relevante de agência, acrescenta outra dimensão: consegue orientar a própria acção, rever fins, consentir, recusar, resistir?
Estas capacidades podem relacionar-se sem coincidirem.
A maioridade legal mostra, de maneira quase banal, como os problemas se complicam quando precisamos de agir. Ninguém acredita que, à meia-noite do décimo oitavo aniversário, apareça subitamente uma faculdade metafísica chamada liberdade. Capacidades de compreensão, previsão, autocontrolo e decisão desenvolvem-se de maneira gradual. A lei precisa, porém, de estabelecer uma fronteira operatória: determinadas possibilidades, responsabilidades e protecções mudam aos dezoito anos.
A regra pode ser necessária sem que a fronteira jurídica corresponda a uma descontinuidade natural. Isto é relevante para a inteligência artificial porque o debate tende a saltar demasiado depressa de:
é consciente?
para:
deve ter direitos?
Entre as duas perguntas existe todo um campo ético.
Se um sistema for capaz de sofrimento, pode merecer consideração sem possuir autonomia jurídica. Se possuir alguma forma de agência, ainda teremos de perguntar que espécie de agência é, em que condições opera e que relação tem com responsabilidade. Uma entidade pode merecer protecção mesmo quando não a tratamos como pessoa.
A consciência pergunta se há experiência.
A senciência pergunta se alguma coisa que fazemos pode ser má para aquela entidade.
A liberdade introduz outro problema: se existe uma orientação própria, quando agir por ela começa a transformar-se em agir contra ela?
É aqui que a ética surge antes da política. A política terá eventualmente de transformar estas incertezas em direitos, proibições, responsabilidades, limiares e procedimentos comuns. Mas o facto de precisar de estabelecer um corte não lhe permite transformar o corte numa descoberta ontológica. A ciência que interessa a seguir procura responder sobretudo à primeira destas perguntas: que razões temos para atribuir consciência fenomenal?
Mesmo essa investigação começa sem um termómetro da consciência.
5. Como cheguei ao 25%
Quando vi pela primeira vez o gráfico do Economist e percebi que o Digital Consciousness Model produzia probabilidades de consciência para sistemas artificiais, a minha reacção foi desconfiada.
Parecia-me que a operação era conceptualmente ilegítima: juntar teorias que nem sequer concordariam sobre aquilo que significa consciência, converter os seus critérios em indicadores e terminar numa percentagem única. Como se uma disputa acerca do próprio conceito pudesse ser resolvida estatisticamente.
Era uma crítica tentadora. Também era uma crítica insuficiente.Fui ler o relatório.
O DCM fixa explicitamente como alvo aquilo a que chama consciência fenomenal. Em vez de adoptar uma única teoria, incorpora diferentes teorias e perspectivas porque o próprio campo permanece profundamente dividido sobre a natureza da consciência e sobre as condições necessárias para a sua existência.
Portanto, não era exacto dizer que o modelo estava simplesmente a somar coisas diferentes às quais por acaso chamava consciência.
Mas isso não eliminava o problema. Tornava-o mais preciso.
O DCM chama stance a cada uma das perspectivas que organiza, procurando associá-las a determinadas características e, por sua vez, a indicadores empiricamente acessíveis. A arquitectura foi desenhada precisamente para conseguir alojar tanto teorias formais como considerações mais gerais que investigadores tratam como evidência relevante.
As stances chegam, porém, ao alvo por vias muito diferentes. Algumas dão particular peso a representações de ordem superior; outras à recorrência; outras a analogias biológicas ou computacionais; outras à integração, à valência, ao embodiment, à complexidade cognitiva ou a características semelhantes às de uma pessoa.
E não é sequer evidente que essas diferenças sejam puramente empíricas. Aquilo que uma perspectiva aceita como sinal pode transportar consigo uma concepção substantiva sobre aquilo de que a consciência depende.
A comparação com meteorologia tornou-se então mais útil do que a minha objecção inicial.
Dois modelos meteorológicos podem utilizar relações diferentes entre pressão, temperatura, humidade e circulação atmosférica. Podem fazer previsões distintas e até ser combinados. Mas no dia seguinte dispomos de um acontecimento relativamente independente dos modelos: choveu ou não choveu. Com repetição suficiente, podemos comparar previsões e recalibrá-los.
No caso da consciência artificial falta-nos precisamente esse momento.
O próprio relatório reconhece que “we don’t have access to the ground truth facts” que permitiriam treinar e testar o modelo como se faz noutros domínios. A falta de acesso independente àquilo que se quer inferir obriga a trabalhar com juízos teóricos, evidência convergente e incerteza que o próprio dispositivo não consegue simplesmente eliminar.
Daqui não se segue que as stances sejam incomensuráveis. Os autores não dizem isso, e seria um erro atribuir-lhes essa conclusão.
Segue-se uma coisa mais modesta: não possuímos um ground truth independente que permita descobrir retrospectivamente qual dessas vias evidenciais é efectivamente uma boa preditora de experiência fenomenal.
O número final tem, por isso, um estatuto mais interessante do que inicialmente lhe atribuí.
O projecto nasceu precisamente da dificuldade de tomar decisões perante desacordo teórico. Os seus autores dizem que a necessidade prática obriga a formar juízos apesar da incerteza e que seria igualmente problemático ignorar os especialistas ou escolher apenas a teoria preferida. O objectivo do modelo é organizar essa pluralidade numa ferramenta utilizável.
A leitura alterou, portanto, a minha posição.
O número passou de me parecer uma tentativa ingénua de medir uma quantidade metafísica chamada consciência para me parecer uma ferramenta destinada a organizar evidência e permitir decisões sob incerteza.
Esta correcção interessa-me tanto quanto o resultado.
Seria estranho escrever um ensaio sobre a importância de mostrar mediações e apagar a mediação que alterou a minha própria conclusão.
Vi "25%", fiz uma inferência sobre aquilo que esse número significava, fui atrás dos fios que o tinham produzido, e aquilo que encontrei obrigou-me a corrigir a inferência.
Foi precisamente isso que eu próprio tinha pedido a RedSkyFalls: que as coisas tivessem resistência suficiente para modificar aquilo que queríamos fazer com elas.
6. Quando o número fica sozinho
Podemos agora colocar duas cadeias lado a lado sem fingir que arte e ciência fazem a mesma coisa.
Em RedSkyFalls:
animal → experiência → registo → dataset → transformação → animação → movimento percebido.
Depois, já no encontro entre obra, espectador e discurso:
movimento → comportamento atribuído → medo.
No DCM:
sistema → estados ou comportamentos observáveis → indicadores → características → perspectiva teórica → inferência → agregação → probabilidade de consciência.
As duas cadeias têm estatutos completamente diferentes. A primeira participa na construção de uma experiência estética. A segunda pertence a um dispositivo epistemológico construído para organizar evidência. O paralelismo começa apenas noutro lugar. É na perda de proveniência, e não na natureza dos dispositivos que a produzem, que arte e ciência voltam aqui a tocar-se.
No relatório do DCM, a percentagem conserva muitos fios: teorias, indicadores, pressupostos, incerteza, possibilidade de interrogar separadamente diferentes perspectivas. O modelo foi concebido precisamente porque não existe consenso sobre a intensão do conceito de consciência - sobre que propriedades, capacidades ou comportamentos uma coisa deve apresentar para que a consideremos consciente. Só depois se pode perguntar pela sua extensão: que casos concretos pertencem a essa categoria e, em particular, se os sistemas digitais devem ou não ser nela incluídos.
Quando o resultado circula, parte dessa proveniência pode desaparecer.
O Briefing do Economist ainda conserva bastante da complexidade do debate. Mas um gráfico exerce outra força. A percentagem adere visualmente ao sistema. Aquilo que começou por significar aproximadamente:
"dado este conjunto de perspectivas, indicadores e pressupostos, este dispositivo produz este valor"
pode acabar recebido como:
"esta IA tem 25% de probabilidade de ser consciente".
Claude não se tornou mais consciente entre o paper e a revista. O número perdeu parte da sua proveniência. Não é uma acusação de má ciência, porque o gráfico, o Leader e a circulação editorial já pertencem a outro regime. É uma alteração semiótica. Uma ferramenta pragmática para decidir sob incerteza começa a parecer uma medida de uma grandeza natural. E é aqui que regressar a Veneza se torna interessante.
7. Voltar às salas
Diante das Réplicas de RedSkyFalls, uma figura estanca quando chega o sinal do terramoto.
Eu vejo medo.
De onde veio o medo?
Da obra vêm o movimento, a interrupção programada, a relação com o sinal sísmico, a composição visual. Da minha percepção vem uma predisposição conhecida para transformar movimento em comportamento e comportamento em agência. Do guia vem outra operação: a figura não apenas estanca; "imobiliza-se de medo". Noutras passagens, as Réplicas são organizadas através de expressões como "ecossistema artificial com sensibilidade animal", "pressentem" terramotos e "pulso vital".
Convém manter estes planos separados.
A figura estanca descreve algo que podemos observar na obra.
A figura estanca quando chega determinado sinal sísmico acrescenta uma relação programada.
A figura imobiliza-se de medo atribui um estado interior.
A terceira frase não é proibida numa obra de arte. O problema seria precisamente pouco interessante se estivesse em causa apenas fiscalizar metáforas. Uma obra pode chamar medo à interrupção de um movimento, imaginar intenções numa partícula ou transformar um cata-vento numa criatura.
Mas o discurso de RedSkyFalls não nos oferece apenas metáforas. Mobiliza também experiências laboratoriais, datasets, comportamentos visuo-motores, degradação de neuropéptidos, sistemas generativos e Heider e Simmel.
A questão passa então a ser outra:
que trabalho faz a autoridade dessas referências na passagem entre a primeira frase e a terceira?
Platão e a autoridade emprestada
Foi este problema que me fez regressar a Platão.
No Livro X da República, o pintor consegue produzir uma aparência convincente de um leito sem possuir o saber do carpinteiro que sabe construí-lo. O problema da mimese não é apenas haver falsidade. É existir uma aparência de saber que não precisa de possuir o saber cuja aparência consegue produzir.
Depois entra o pathos. Imagens e narrativas actuam sobre emoções, identificações e crenças antes de termos reconstruído aquilo que as autoriza.
Não precisamos de aceitar a solução platónica, muito menos de expulsar os artistas, para conservar o problema.
A arte possui precisamente a liberdade de aproximar coisas que um paper teria de manter separadas. Pode colocar uma mosca junto de um mito japonês, transformar dados em movimento, converter uma partícula numa criatura imaginária ou ligar um terramoto à imobilização de uma figura.
Essa liberdade é uma das suas potências.
Mas há uma diferença entre usar ciência como material e usar a autoridade da ciência como garantia emprestada.
Podemos observá-la concretamente em RedSkyFalls. Se o guia me diz que determinada Réplica utiliza trajectórias de Drosophila melanogaster recolhidas num estudo sobre degradação de neuropéptidos e comportamentos visuo-motores, tenho uma afirmação verificável sobre a proveniência daqueles dados. Se depois me diz que, perante um terramoto, a figura se "imobiliza de medo", ocorreu outra operação.
O estudo original não investigava medo perante sismos. Não investigava previsão sísmica nem demonstrava qualquer relação entre aquelas trajectórias e uma sensibilidade animal a terramotos. Essa relação foi produzida posteriormente pela obra: os dados foram transformados, uma resposta ao sinal sísmico foi programada e nós interpretamos o movimento resultante.
Nada impede chamar-lhe medo como construção estética.
O que não pode acontecer sem consequências é deixar que a autoridade epistemológica da experiência original pareça provar aquilo que só a nova montagem produziu.
Há um teste simples para esta passagem:
se retirarmos provisoriamente o prestígio da referência científica e dissermos em linguagem comum exactamente aquilo que ela demonstrou, a relação seguinte continua sustentada pelo mesmo motivo?
Aqui:
O estudo fornece trajectórias de moscas.
A obra transforma-as.
Um programa liga a animação a um sinal sísmico.
A figura estanca.
Eu vejo comportamento.
O guia chama-lhe medo.
A passagem continua perfeitamente possível enquanto operação artística. Mas o paper deixou de poder funcionar como prova dela.
A fronteira é atravessada quando a autoridade conquistada num regime - experiência, dados, terminologia especializada - começa silenciosamente a legitimar uma afirmação pertencente a outro: vida, interioridade, medo, empatia.
E pode haver ainda outra passagem.
Quando o guia, depois de recordar Heider e Simmel, nos conduz à ideia de que "é difícil não sentir" com aquelas formas, já não está apenas a descrever aquilo que existe ou aquilo que a psicologia demonstrou. Está a orientar uma posição afectiva do visitante.
Entrámos no terreno da normatividade.
Não há nada de ilegítimo em uma exposição orientar afectos. Todas o fazem.
Mas uma exposição que mobiliza simultaneamente a autoridade científica e uma orientação sobre aquilo que devemos reconhecer ou sentir assume uma responsabilidade particular pela relação entre ambas.
Heider e Simmel podem servir para dizer:
● veja como é fácil começarmos a ver alguém.
● Não precisam de servir para concluir:
● há aqui alguém com quem é difícil não sentir.
Entre as duas frases está precisamente o espaço crítico que RedSkyFalls materialmente já permite abrir.
Mostrar os fios não basta
Screen Melancholy administra esta distância de outra maneira. A proveniência da imagem insiste em reaparecer dentro do efeito: motor gráfico, simulação, superfície, marioneta, duplicação. Li Yi-Fan trabalha explicitamente com pintura, animação, game engines e imagens generativas para interrogar como software e algoritmos medeiam percepção e produção de imagens.
Mas isso não transforma a obra numa solução.
Ver os fios não nos torna imunes.
Podemos conhecer a arquitectura de um chatbot e estabelecer uma relação afectiva com ele. Podemos saber que uma figura foi programada para estancar e continuar a vê-la como assustada. Podemos reconhecer uma marioneta e continuar a sofrer com aquilo que lhe acontece. Mostrar os fios não é uma vacina contra a imagem. É uma maneira de manter aberta a relação entre efeito e proveniência.
Nas duas exposições essa abertura assume formas diferentes.
Em Screen Melancholy, a fabricação da representação é incorporada na própria representação.
Em RedSkyFalls, a obra conserva materialmente uma heterogeneidade que pode impedir a interpretação de se fechar: a partícula continua não sendo um animal; a mosca continua ligada a uma experiência que não estudava sismos; o estancar da figura continua produzido por uma regra; o terramoto continua a chegar através de instrumentos.
É precisamente por isso que RedSkyFalls continua a interessar-me. A obra contém os recursos necessários para resistir à leitura que parte do discurso produzido sobre ela lhe procura dar. A questão é o que fazemos com essa resistência.
É aqui que uma exposição comprometida começa a ganhar conteúdo. Não uma exposição que possui previamente a posição moral correcta. Nem uma obra transformada num exercício pedagógico de desconfiança.
Uma exposição comprometida reconhece que participa nas relações que produz e assume responsabilidade pelas passagens que promove entre perceber, sentir, acreditar e concluir.
Habitabilidade permite diagnosticar até que ponto essas relações continuam abertas a resistência e revisão. Comprometimento começa quando, perante esse diagnóstico, é preciso assumir o que fazemos com elas.
A estética torna possível que uma figura a estancar me apareça como assustada.
A epistemologia pergunta o que essa experiência me autoriza a afirmar sobre a figura.
A ética começa quando aquilo que afirmo altera a forma como considero que devo relacionar-me com ela.
E a política começará a trabalhar quando algumas destas incertezas tiverem de ser transformadas em regras comuns.
É precisamente por esta passagem que a discussão contemporânea sobre inteligência artificial torna RedSkyFalls mais inquietante agora.
Quando um triângulo parece ter medo, a projecção não afecta o triângulo.
Quando um sistema artificial diz "tenho medo de ser desligado", pelo menos dois riscos permanecem abertos. Podemos estar perante uma tecnologia sem qualquer experiência, mas extraordinariamente eficaz a capturar afectivamente quem a utiliza. Ou podemos vir a produzir sistemas relativamente aos quais já não seja trivial excluir alguma forma de experiência ou senciência.
A ciência ainda não resolveu essa questão.
A arte não precisa de resolvê-la por ela.
Mas, se mobiliza precisamente a nossa predisposição para atribuir interioridade e lhe acrescenta a autoridade cultural da ciência, já não pode tratar a empatia apenas como um efeito estético inocente.
Pode fazer algo mais interessante: tornar a própria empatia interrogável sem deixar de a produzir.
8. Quando o fio treme
RedSkyFalls escolhe o terramoto de Lisboa de 1755 como uma das suas genealogias.
No ensaio anterior interessou-me pouco uma narrativa demasiado limpa em que o terramoto marca a passagem da superstição para a razão. Interessou-me outra coisa: um acontecimento suficientemente recalcitrante obrigou explicações diferentes a responder.
A terra não entregou a Voltaire, Rousseau ou Kant uma teoria pronta. Obrigou teorias a exporem-se.
Talvez seja suficiente conservar este paralelo em escala reduzida.
A inteligência artificial também não nos entregou uma resposta sobre consciência, senciência ou liberdade. Mas já começa a fazer tremer algumas regras através das quais aprendemos a separar comportamento de experiência, simulação de agência, interlocutor de instrumento.
Podemos reagir protegendo os conceitos que já temos.
Podemos deixar a empatia concluir por nós.
Podemos transformar uma probabilidade numa propriedade.
Ou podemos tentar manter visível o percurso entre aquilo que encontramos e aquilo que dizemos ter encontrado, suficientemente aberto para que o caso ainda consiga contrariar a conclusão.
Foi a isso que chamei, no primeiro ensaio, accionar uma exposição.
Activar é deixar o sistema responder segundo as regras que já possui.
Accionar começa quando aquilo que entra no sistema consegue também fazer alguma coisa às próprias regras.
Em RedSkyFalls, as figuras estancam quando o sinal sísmico ultrapassa o limiar programado.
Talvez a questão que fica seja saber se aquilo que hoje começa a aparecer diante de nós - na arte, nos laboratórios e nas máquinas com que falamos todos os dias - conseguirá também fazer estancar por instantes as nossas próprias respostas automáticas.
Antes de lhes chamarmos medo.
Antes de lhes chamarmos consciência.
E antes mesmo de decidirmos aquilo que lhes devemos.
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