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As joias Lalique em diálogo com pintura, nova sala para a numismática antiga, peças restauradas, o regresso da relação com os jardins e uma museografia inspirada no projeto original marcam a renovação do Museu Gulbenkian, que reabre no sábado, após ano e meio de obras.
O objetivo não foi recriar integralmente o passado, mas encontrar "um equilíbrio", disse o diretor do Museu Gulbenkian, Xavier Francesco Salomon, numa visita para jornalistas, sublinhando que "não foi uma restauração filológica", antes uma intervenção que devolve aos visitantes "o espírito de 1969 deste edifício", aliado a melhores condições para apreciar as obras.
A reabertura após a intervenção realizada desde março de 2025, coincide com as comemorações dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian e procurou recuperar o espírito do projeto inaugurado em 1969, conciliando a preservação da arquitetura original com a atualização das condições técnicas de conservação e apresentação da coleção, segundo a entidade.
"A coleção será vista em melhores condições, com nova iluminação, vidros antirreflexo e melhores sistemas técnicos, mas os visitantes terão também acesso ao espírito da época”, afirmou o diretor, admitindo que o seu maior desafio foi ter chegado a meio do projeto, há cerca de oito meses.
A renovação recuperou elementos originais da museografia, como os revestimentos em seda nas galerias europeias, a alcatifa originalmente prevista para esses espaços - depois retirada nos anos 2000 - a relação visual entre as salas e o Jardim Gulbenkian, e vários materiais característicos da conceção inicial, entre madeira, bronze, vidro, seda e betão.
Segundo a fundação, o projeto partiu de um estudo das plantas e fotografias históricas do museu, procurando restabelecer a coerência entre arquitetura, arte, museografia e natureza idealizada na década de 1960 pelos arquitetos Ruy Jervis d'Athouguia, Alberto Pessoa e Pedro Cid, em colaboração com especialistas internacionais como Georges-Henri Rivière e Franco Albini.
Entre as alterações mais visíveis está a criação de uma nova sala dedicada à numismática - criada a partir de um pequeno gabinete de trabalho anteriormente oculto, agora recuperado e adaptado - permitindo apresentar um maior número de moedas e medalhas gregas e romanas, entre as quais a moeda da quadriga que inspirou o logótipo da Fundação Calouste Gulbenkian.
Outra das principais novidades é a nova localização do monumental baixo-relevo assírio, agora colocado numa posição central da galeria dedicada à Mesopotâmia, depois de um processo de conservação que eliminou antigas camadas de cera e recuperou a leitura da superfície original em alabastro, indicou o diretor, durante a visita, acompanhado por Teresa Nunes da Ponte, arquiteta responsável pela obra.
"Esta é uma peça que dá as boas-vindas aos visitantes", comentou Salomon, sobre a monumental figura assíria, recuperada de ruínas de Nimrud, representando uma divindade protetora alada.
Regressam igualmente às galerias diversas obras que permaneciam nas reservas, entre as quais estampas japonesas, caixas de ouro, medalhas, esculturas e um para-sol veneziano, enquanto as lâmpadas de mesquita voltam a ser apresentadas individualmente em vitrinas restauradas com vidro antirreflexo, depois de mais de duas décadas expostas em conjunto.
A Sala Lalique - um dos espaços mais emblemáticos do museu e da coleção - é a principal exceção à estratégia global de recuperação do museu, porque em vez de ter sido reproduzida integralmente do projeto de 1969, passou a integrar pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent, estabelecendo um diálogo entre a obra do joalheiro e o contexto artístico do seu tempo, explicou.
Esta sala acolhe exemplares da maior coleção de joias e peças do famoso joalheiro e vidreiro francês René Lalique (1860–1945) reunida fora de França, resultado da ligação de amizade de quase 50 anos com Calouste Gulbenkian.
A reorganização museográfica procurou também recuperar a relação entre o edifício e o jardim, através da abertura visual de várias galerias e da introdução de novas grelhas filtrantes que permitem maior entrada de luz natural, mantendo, ao mesmo tempo, as condições adequadas de conservação das obras, assegurou a direção.
Na zona de transição entre as galerias dedicadas à China e ao Japão e as galerias europeias foi igualmente recuperada a lógica espacial concebida pelos arquitetos, substituindo uma parede opaca por um biombo em madeira e metal que volta a permitir vislumbrar parcialmente algumas das principais pinturas da coleção, incluindo obras de Rembrandt e Rubens.
Na maior galeria do museu, onde convivem cerâmicas e tapetes persas, indianos e do Cáucaso, Xavier Salomon, apontou: "A Coleção Gulbenkian não possui peças portuguesas mas aqui está exposto um tapete indiano com algumas figuras de navegadores portugueses do século XVII".
Por outro lado, destacou que, neste projeto de renovação, preservar o edifício foi tão importante como preservar a coleção: "Quando se visita um museu pensa-se normalmente nas obras de arte, mas este edifício é também uma obra-prima da arquitetura de 1969", afirmou, defendendo que "voltar ao passado é um ato de humildade".
“Muitas das soluções concebidas pelos arquitetos originais eram melhores do que alterações introduzidas ao longo das décadas”, opinou.
O diretor reconheceu ainda que uma das opções mais discutidas – e pela qual foi responsável - poderá ser a reposição da alcatifa nas galerias europeias, retirada no início dos anos 2000: "É uma enorme mais-valia para o museu. As pessoas vão discordar de mim, mas não faz mal", comentou.
Entre os espaços que mais o impressionam após a intervenção, Xavier Salomon destacou a sala das lâmpadas das mesquitas dos séculos XIII e XIV, ricamente decoradas, e considerada um dos acervos mais raros do mundo, que ganhou uma "atmosfera mágica", apontando ainda as galerias das antiguidades e a Sala Lalique como algumas das áreas mais transformadas.
O responsável admitiu que o maior desafio foi concluir a intervenção dentro do prazo previsto para coincidir com o 70.º aniversário da Fundação Gulbenkian, salientando o trabalho desenvolvido pelas equipas técnicas, arquitetos, conservadores e restantes colaboradores envolvidos no projeto.
Questionado sobre as próximas exposições temporárias que estará a desenhar para o museu, Xavier Salomon - que ocupou anteriormente o cargo de diretor-adjunto e curador chefe da Frick Collection, em Nova Iorque – disse apenas estar a trabalhar nelas e que serão "anunciadas em breve".
Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955), um diplomata e empresário de origem arménia que fixou residência em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial, era um apaixonado por arte, e reuniu mais de seis mil peças, da Antiguidade ao início do século XX, entre Arte Egípcia, Greco-romana, Islâmica e do Extremo Oriente e ainda de Numismática, obras de Pintura e de Artes Decorativas europeias.
Gulbenkian deixou a sua fortuna em testamento com indicações expressas para criar uma fundação que a gerisse em benefício da humanidade.
O Museu Gulbenkian reabre ao público no sábado, com entrada gratuita durante o fim de semana e até 26 de julho.
No sábado e domingo funcionará com horário alargado - até à meia-noite no sábado, e até às 20:00 no domingo - regressando depois ao horário habitual, entre as 10:00 e as 18:00, encerrando às terças-feiras.
Foto: © Pedro Mendes | Coffeepaste
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