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O Futuro é HD

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Duarte Amado
6 de Março de 2026

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O Futuro é HD

Sentamo-nos em quatro bancadas que cercam um palco quadrifrontal onde não existe “frente” (ou antes, quatro). A disposição panótica da sala expõe-nos uns aos outros, distribui e põe o olhar a trabalhar sobre corpos, como “normalmente” no palco social, de vigilância, desejo e política, onde o corpo nunca é só o corpo. O coreógrafo sabe-o e joga com isso. A dança de F*cking Future insurge-se contra esse olhar com que se começa por alimentar, amplifica e capitaliza.


O chão espelhado distorce e multiplica os intérpretes, dissolve contornos, espalha luz e textura pelas paredes como se a coreografia extravasasse as figuras. Luz e som serão aliás outro sistema nervoso de F*F. Um laser azul percorre o espaço com precisão cirúrgica, varrendo os intérpretes como um scan. Risca-os como instrumento de medição e ameaça, que ora delimita e inspeciona, ora fende e alarga a pele e o campo virtual de ação. A música eletrónica de Rui Lima & Sérgio Martins (habitués na música para performance) instala um batimento seco e galvanizante, com uma capacidade de impulso e propulsão da dança.


Esse relógio a conta-gotas da batida pauta o arranque bifásico do movimento: move, contrai, estanca, arranca, suspende e captura o próximo intérprete a entrar. Os corpos somam-se. Um, dois, três, até aos oito. Como uma passadeira fixa que anda, por vezes parece ser o espaço, e não os corpos, que se move e arrasta consigo o ângulo dos bailarinos e dos gestos. Entre a formatura e o club, a coreografia monta e desmonta formações cerradas e rearranjos rápidos, com rigor marcial e energia de rave. A peça encontra força na organização, ferve e cresce numa persistência rítmica aplicada ao coro da carne.


Há uma mobilização militante, fabril, febril, possante. Há prazer, muito prazer, como programa político. Corpos afirmativos, diversos, atléticos, ridentes, brilhantes. Tops metálicos sublinham dorsais, torções, mobilizações, guinadas e suspensões momentâneas; pontualmente congeladas pelo corte musical que torna tudo ainda mais insinuante quando paralisam em pose. Entre a pop, a rave, o industrial, a MTV, videoclips e «Shakira», a dança assume o efeito imagético de uma cultura.


Estará aí o melhor, mas também a maior complexidade de F*F. O uníssono é poderoso, a força gregária é inegável. A prontidão impressiona e sustenta a peça como «tecnologia política». Mas na sua perfeição formal e virtuosa, a insurreição e a pluralidade parecem algo consumidas pela estética e pela partitura. Demasiado à-vontade com o que a cultura pop e o mainstream normalmente fazem com qualquer transgressão, absorvida pelo sistema e padrão de imagens e desejo, que a tornavam necessária.


A aceleração praticamente sem folgas, hipnotiza e comprime outra parte numa sucessão de instantes eficazes. Tudo é intenso. Tudo é legível. Tudo funciona. Uma diferença que já nasce em alta-definição. Uma (des)ordem calibrada e telegénica. Que diferença resta da Ordem? Que desordem não foi ainda coreografada? Pressentimos que O corpo tem futuro, sem dúvida, sem que a crença, a coesão, a repetição e o cansaço deliberados, cheguem a perguntar, Que corpo?


Quando o grupo se aproxima do verbal e recorre ao hino (“Are you with me?!”; “I don’t care what people say!”; “C’mon we gotta keep on dreaming”), o refrão arredonda a abertura à disrupção. O corpo que agarrava a mudança com a própria energia, começa a explicar-se e converte grande parte da tensão em mensagem. Invadem as bancadas e escalam a plateia perto do final, como se não pudessem esperar pela nossa adesão e pela confirmação épica da proposta. O gesto é coerente com a vontade de expandir a coreografia até nos atravessar; consequência lógica de uma obra construída sobre esperança e contágio.


É certo que F*F não se oferece como salvação. A folha de sala antecipa-se e posiciona-a como obra que sabe «Que não vai salvar o mundo. Que falta tanto para salvar o mundo». A sua força é sobretudo concreta: oferece o corpo como campo de disputa, lugar de auto-inscrição e auto-determinação, num tempo que ameaça, regula e captura o corpo.


Move do avesso a fragilidade do corpo contemporâneo, ao mesmo tempo capaz de se reconfigurar e insurgir pela alegria feroz de existir e dançar. Diz que ele sabe antes de pensar, e que afinal nada disto é para teorizar, é para dançar. O compromisso é com a flor da pele, algo que F*F empunha e enverga a todo o tempo como um feito.

 

F*cking Future, Marco da Silva Ferreira

CCB, 20 a 22/2/2026

Lisboa

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