TUDO SOBRE A COMUNIDADE DAS ARTES

Ajuda-nos a continuar a ajudar a comunidade na busca de oportunidades, e a continuar a levar-te conteúdos de qualidade.

Ajuda-nos a continuar a ajudar a comunidade na busca de oportunidades, e a continuar a levar-te conteúdos de qualidade.

Selecione a area onde pretende pesquisar

Conteúdos

Classificados

Recursos

Workshops

Crítica

Artigos
Breves Crónicas do Tempo

O pêndulo

Por

   

Guilherme Gomes
20 de Janeiro de 2023

Partilhar

O pêndulo

Parece o mar. Quando a bola vem, é como se tivesse, nem tanto de acompanhar o seu movimento, mas só a expectativa de que a bola venha. Há um tempo, um ritmo, uma cadência. Estou a jogar, e posso simplesmente não pensar em nada. Posso entregar-me a este exercício sem pensar se o faço bem ou mal, posso estar aqui e sentir apenas como sabe bem o sol a bater-me na cara, como se transforma o barulho da autoestrada do lado de lá dos pinheiros no rebentar das ondas. Então, parece o mar. Vem, vem, vem, vem. Com tempo, sempre com o mesmo tempo. Enquanto jogo penso na minha filha, e na sua cor preferida. Penso no meu marido a praticar desporto. Imagino-o no ginásio de boxe. Sei como é, já lá estive. Não muitas vezes, mas já lá estive. Penso no caminho para casa. E regresso a esta sensação de cansaço e frio e o sol a aquecer-me a cara. E, então, parece o mar. E podemos entregar-nos ao tempo e ao desporto, mas só depois de reconhecer o seu ritmo. Reconhecer o ritmo, para me entregar a ele. Parte da tarefa está em reconhecer o seu tempo. Lembro-me da mãe, quando me apresentou a máquina de escrever e disse que havia um tempo para escrever à máquina. Lembro-me dela, enquanto penso que este movimento parece o mar. Lembro-me da mãe e das minhas mãos na máquina de escrever, da dificuldade das primeiras vezes, das feridas nos dedos, da força em cada tecla, de como tudo isso foi ultrapassado e agora, ainda no outro dia!, agora eu escrevo ao mesmo ritmo do computador, mas - é como se - de vez em quando, e é normal - claro, há letras que se atropelam, letras que ficam no lugar de outras, que ficam sobrepostas a outras, que quem me dera poder mostrar-vos, mas o computador é demasiado rápido, as letras não se atropelam, o tempo do computador é rápido de mais, ainda nem a tecla foi até ao fim, já a letra existe. Penso na minha mãe e em como ela disse, ela disse que é preciso um tempo para escrever à máquina e eu, eu - eu andava convencida de que era uma proeza. Mãe, olha a velocidade a que já escrevo aqui, e claro que só podemos sorrir perante uma acrobacia destas, como dar toques na bola. Se quiseres escrever  - quando quiseres, não é - vais pensar de outra maneira, se quiseres marcar pensas de outra maneira. E agora eu - nem tanto porque queira escrever, não é uma ideia que me venha da - que tenha por escrever - é uma ideia que me vem de estar aqui, a fazer isto, que nem se parece com escrever mas pelos vistos é. Agora, sim, começo a entender  - a pôr a hipótese de - talvez tenha, eu talvez tenha começado a escrever na máquina como escrevo no computador. A escrever na máquina como complemento ao computador. A procurar na máquina o que procuro - quer dizer, encontro no computador. Mas há - eu entendo - há um tempo para escrever à máquina. E o pensamento acompanha o tempo da máquina, o pensamento acompanha o ritmo. Se no computador é um rio estreito por onde a água corre cheia de fúria e ruído. Por vezes - também pode parecer o mar. Podemos ir por ondas, pausadamente até ao sinal que anuncia o fim da página. Então, regressamos ao princípio, à outra margem, regressamos uns centímetros abaixo, e parece o mar. Como agora, a bola, ali vem ela. E foi. Regressa. E foi. Parece o mar. Andei a escrever de forma errada, a escrever na máquina como escrevo no computador. E nem dei por - parece que nem dei por isso. Bastava escutar - bastava - como agora. Foi a primeira coisa que me perguntaram aqui: gostas de música? Isto não é desporto, é dança. Então, atenção ao tempo, não sobrepor o tempo de outras coisas no tempo real das coisas. A tua cabeça não está aqui. Não sobrepor tempos, não atropelar letras. Mas eu sei - já passei por isto antes - conheço a sensação - eu sei que isto é um instante. Este momento, este lugar de atenção e escuta, isto - é um instante. Não tarda, a bola interrompe a sua cadência, e o momento transborda. Se tentarmos recuperar, já não conseguimos. Temos de começar de novo. Procurar um novo tempo. Temos de reajustar o ouvido. Aprender a escutar a nova - perdemos a bola. Retomamos. Falhamos. Retomamos. Falhamos. Calma. Retomamos. Continuamos. Conseguimos. Parece o vento. Quando a bola vem, e nós - como que - nós tocamos a bola em pleno movimento - apontamos para qualquer coisa que não vemos - e a mira está no ar - o movimento está no ar - e tudo isto, tudo isto - quando tocamos na bola e ela vai - parece o vento.

Imagem: Nadir Afonso, Espacillimité

BREVES CRÓNICAS DO TEMPO são pequenos episódios, registos, princípios de reflexão pelo dramaturgo Guilherme Gomes.

Apoiar

Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.

Como apoiar

Se tiveres alguma questão, escreve-nos para info@coffeepaste.com

Mais

 

Artigos

Segue-nos nas redes

O pêndulo

Publicidade

Quer Publicitar no nosso site? preencha o formulário.

Preencher

Inscreve-te na mailing list e recebe todas as novidades do Coffeepaste!

Ao subscreveres, passarás a receber os anúncios mais recentes, informações sobre novos conteúdos editoriais, as nossas iniciativas e outras informações por email. O teu endereço nunca será partilhado.

Apoios

01 República Portuguesa
02 Direção Geral das Artes
03 Lisboa

Copyright © 2022 CoffeePaste. Todos os direitos reservados.

Website desenvolvido por Bondhabits.
Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile