Papas e Bolos

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Ivo Saraiva e Silva
31 de Outubro de 2026

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Papas e Bolos

“Em Roma, sê romano.” diz-se com a boca cheia, a laurear a gíria que a memória popular nos delegou. Não menos popular, “não há jantar sem acepipe, nem corrente de ar sem gripe”. Ainda assim, o acepipe prolonga-se no gigantesco banquete de A Grande Farra (1973), filme de Marco Ferreri, e a gripe, essa, é a febre de prazer a que os quatro protagonistas se propõem até à morte.


Se, aos olhos da verificação científica, o provérbio do “acepipe” traduz uma situação errónea, já os protagonistas do filme assumem o provérbio de “Roma” muito seriamente. É que esse ditado pressupõe adequar os comportamentos aos impostos de um certo contexto, condutas às quais as personagens querem fazer frente, isto é, fugir, isto é, morrer.


Dentro de uma sociedade de consumo que os manieta, os protagonistas escolhem deixar de produzir. Em vez disso, decidem usufruir absurdamente daquilo de que dispõem: consomem até à morte. Eles, que se apresentam como figuras pertencentes a uma classe muito privilegiada, parecem dar conta dos contornos obsoletos que as suas vidas de ostentação manifestam e defrontam-nos. O questionamento passa por um acordo entre quatro monsieurs terribles, que usam o excesso como escudo da sua resistência. Em vez de se despirem daquilo que são, eles usam e abusam da máscara social de que querem fugir, a sua. Servem-se dela para a recusar.


Trata-se de uma atitude muito romana, lá está, esta de se imporem a uma experiência de comida, bebida e sexo até ao infinito; não obstante, ao invés de a celebrarem num contexto público, criam um espaço privado, onde se podem comportar como querem. Esta postura parece ter a ver com o facto da produção e do consumo desenfreados ter sérias implicações nas suas narrativas pessoais. Quer dizer, nas suas e nas de todas as pessoas.


Sabe-se da sociedade capitalista da produção e do consumo que obriga a interiorizar-se de que só se é vital se se for útil, ou antes, produtivo. É-se coagido a produzir assim como se é impelido a desejar todos os dias e a cada instante um artigo novo. É aí que começa a necessidade de consumo. A grande voltagem em que se é envolvido é a mesma em que se é confundido, pois tudo passa a tornar-se um bocadinho indiferente, a vida também:


“A vida cultural da humanidade, na qual se inclui também a atividade filosófica, só é possível e só se desenvolve quando existe uma atenção profunda e contemplativa. (...) A atenção profunda tem vindo a ser cada vez mais suplantada por um tipo de atenção completamente diferente – a hiperateçsão (hyperattention). Esta atenção dispersa ou distraída é caracterizada pela mudança brusca do foco da questão, pela alternância constante de tarefas, fontes de informação e processos. (...) O frenesim não gera nada de novo por si, limitando-se a reproduzir e a acelerar o que já existe.”

(HAN, Byung-Chul, 2014, A Sociedade do Cansaço, trad. Gilda Lopes Encarnação, Lisboa: Relógio d’Àgua, pp. 26, 27).


Face a este contexto desenfreado, as personagens da “Farra” observam-se na impossibilidade de contemplar e de ter algum prazer com o que se deseja, com o que se vive estonteantemente. Eles deparam-se com uma situação análoga àquelas que se conhece das tragédias clássicas: o consumo desenfreado a que se chegou já não mata ninguém, antes reserva as pessoas a um estado de apatia, de inação, em que tudo o que se pode fazer só enrijece o caráter trágico da sua narrativa social e política. É, neste curso, que decidem que o objeto da sua opressão será o mesmo da sua emancipação: em Roma, sê romano. Édipo não morre, Tiestes também não, e Hércules muito menos, mas convivem com o sofrimento que eles próprios geraram. Em Ferreri, morre-se para se libertar.


Na verdade, a ação dos personagens deste objeto fílmico dedica uma resposta à sociedade de consumo. Como se observam inativos dentro de uma lógica produtiva e incessante, tentam resistir pela inação, ou antes, pelo exercício exaustivo do ócio até à morte. Recusar a sociedade de consumo, fazer-lhe frente, pode significar morrer – e é através da refeição que o fazem.


A refeição, nomeadamente em contextos de festas ou jantares, está regularmente associada ao carácter unificador de um dado grupo. Desde os banquetes gregos e romanos até aos jantares de natal contemporâneos e aniversários, o jantar assume-se como um ritual que torna cúmplices os comensais, enquanto celebram – mesmo os jantares de negócios.


A Grande Farra acaba por agregar todos os jantares que conhecemos, todas as festas que se sonharam. Intensifica-se o desejo e o prazer para que, juntos, celebrem uma erupção que secundarize o sistema em virtude do sopro humano. É, neste esgar, que o excesso se torna uma forma de resistência e liberdade. Com papas e bolos, se enganam os dolos.


Foto: © Alípo Padilha

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