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Páteo Criativo: um ano a construir comunidade entre a ideia e a prática

Por

 

Pedro Mendes
6 de Fevereiro de 2026

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Páteo Criativo: um ano a construir comunidade entre a ideia e a prática

O Páteo Criativo celebra o seu primeiro aniversário com a mesma premissa que esteve na origem do projeto: proximidade, atenção ao território e espaço real para a criação acontecer.


Nascido do cruzamento de percursos, formações e vontades de Laura Carvalho Torres e Helena Bento, o Páteo afirmou-se em apenas um ano como uma agência cultural que recusa fórmulas rápidas e aposta na consistência, na relação com a comunidade e no diálogo direto com artistas e públicos.


Nesta entrevista ao Coffeepaste, falamos sobre o que surpreendeu neste primeiro ano de atividade, os desafios de criar estrutura num contexto cultural exigente como Lisboa, a importância da descentralização, o equilíbrio entre técnica e instinto, que atravessa projetos como a exposição Full City, e a necessidade de devolver tempo, intimidade e conversa à criação artística. Um retrato honesto de um projeto em crescimento, atento ao presente e com os olhos postos num futuro construído com coerência.


O Páteo Criativo celebra o seu primeiro aniversário. Olhando para trás, para aquele 6 de fevereiro de 2025, o que é que vos surpreendeu mais no desafio de tirar este projeto do papel e torná-lo uma realidade na cena cultural lisboeta?

O que mais nos surpreendeu foi a percepção da distância real entre a ideia e a prática e, ao mesmo tempo, perceber que o projeto era mais necessário do que imaginávamos. O Páteo nasceu do desejo de juntar as nossas formações, gostos e percursos num projeto comum. Tínhamos uma visão clara, mas transformar essa visão numa estrutura concreta exigiu um esforço muito maior do que esperávamos.


O maior desafio foi sair da teoria e passar à ação: criar uma agência deste tipo do zero implicou desenvolver contactos praticamente do zero, aprender a trabalhar juntas para além da amizade e assumir uma postura mais institucional, sem perder a informalidade e a proximidade que sempre desejamos preservar. Tudo isto num contexto muito específico como Lisboa: uma cidade vibrante, mas cada vez mais saturada e cara, onde muitos espaços culturais que nos formaram enquanto público e enquanto profissionais foram desaparecendo.


Curiosamente, o mais surpreendente foi perceber que havia um vazio real. Não por nostalgia, mas por necessidade. A cidade estava à espera de projetos que criassem espaço para artistas emergentes, para propostas acessíveis e para encontros menos gentrificados. Olhando para trás, talvez a maior aprendizagem tenha sido perceber que esse caminho se constrói mais pela consistência, pela relação com a comunidade e pela presença continuada do que por qualquer fórmula pré-definida.


O nome remete para um espaço de vizinhança, partilha e porta aberta. Como é que uma lisboeta (Laura) e uma ribatejana (Helena) conseguiram transpor essa ideia de comunidade local para a gestão de uma agência moderna e multidisciplinar?

O nome Páteo está profundamente ligado às nossas vivências e à forma como entendemos a cultura: como espaço de encontro, de proximidade e de partilha. A Laura cresceu e vive em Lisboa, com uma relação diária com a cidade e os seus agentes culturais. A Helena vem do Ribatejo e mantém uma ligação ativa a um território muitas vezes menos visível, mas muito rico em iniciativas culturais, associações e dinâmicas criativas.


Essa diferença revelou-se, desde cedo, como uma mais valia. Fez-nos questionar a centralização excessiva em Lisboa e pensar o Páteo de forma mais aberta e descentralizada. Para nós, transpor a ideia de comunidade para a gestão da agência passa por decisões muito concretas: com quem trabalhamos, que espaços escolhemos, que vozes queremos amplificar e que tipo de relação criamos com artistas e públicos.


Apesar de atuarmos em várias frentes, do agenciamento à comunicação, da curadoria à produção, há uma preocupação constante em manter uma identidade enraizada, próxima e consciente do território. A identidade “moderna”  do Páteo não está apenas na diversidade de projetos, mas na forma como cada passo é pensado: tentamos sempre ser coerentes e prestar atenção às pessoas e aos lugares que fazem parte do nosso trajeto.


A Laura vem da História da Arte e Curadoria, a Helena da Ciência Política e Comunicação. De que forma é que estas duas visões se fundem no dia a dia da agência?

Esta complementaridade é um dos pilares do Páteo desde o início. A formação da Laura em História da Arte e o percurso em curadoria, galerias e mercados de arte dão ao projeto uma base conceptual, crítica e metodológica muito sólida. A Helena, com formação em Ciência Política e Comunicação, acrescenta uma leitura estratégica da imagem, da comunicação e do posicionamento, essencial para tornar os projetos viáveis, visíveis e sustentáveis.


No dia a dia, estas visões cruzam-se constantemente: na conceção de exposições, no planeamento de eventos, na forma como pensamos um artista, um espaço ou uma narrativa. Mas essa fusão não acontece apenas a partir das formações académicas, mas acontece também a partir das nossas personalidades, dos nossos ritmos e das nossas formas diferentes de organizar e decidir.


No Páteo não trabalhamos de forma compartimentada. O trabalho é fluido, colaborativo e adaptado às necessidades de cada projeto. Essa flexibilidade permite que a identidade da agência se mantenha coerente, próxima e viva, tanto para os artistas com quem trabalhamos como para o público que acompanha o nosso percurso.


A exposição de Reubs está patente e cruza arte e torrefação de café. Sendo uma entrevista para o Coffeepaste, como surgiu este conceito e o que é que o termo “Full City” sobre o equilíbrio que o Páteo procura entre técnica e instinto?

O conceito da exposição nasce diretamente da prática do Reubs. Ele trabalha diariamente entre a torrefação de café na Flor da Selva e o seu “atelier” em casa, onde pinta maioritariamente sobre juta reciclada de sacas de café. O que nos interessou, em termos curatoriais, foi perceber que estes dois processos - torrar café e fazer arte - partilham os mesmos agentes: calor, tempo, gesto e transformação da matéria.


“Full City” é um termo técnico da torra que designa um momento de equilíbrio: nem demasiado leve, nem demasiado intenso. Funciona como uma metáfora muito clara para o trabalho do Reubs, que habita esse lugar intermédio entre o controlo técnico e a intuição, entre o material cru e material o transformado.


Para o Páteo, este projeto reflete também a nossa própria forma de trabalhar. Estamos constantemente à procura de equilíbrio entre aquilo que é possível fazer e aquilo que queremos experimentar. Sem apoio financeiro ou institucional, temos de pensar e analisar cada passo com rigor, sem perder a liberdade criativa. “Full City” acaba por ser, também, um retrato desse lugar de atenção constante entre viabilidade, intenção e intuição.


O projeto “Páteo em Casa” leva-nos para a intimidade dos artistas. Num mundo tão focado no espetáculo e no digital, sentem que o público (e os próprios artistas) tem sede deste regresso ao ambiente doméstico e à conversa sem pressa?

O “Páteo em Casa” é um projeto muito especial para nós. Surgiu de uma ideia simples e honesta: tínhamos o espaço, o equipamento e a vontade de criar entrevistas íntimas, diretas e sem artifícios. Começámos do zero, sem contactos prévios, mas com a convicção de que podíamos oferecer aos artistas um espaço seguro para falar do seu trabalho e do seu percurso.


Desde então, lançámos sete entrevistas mensais com artistas de áreas muito diferentes: da poeta Ana Cláudia Santos, que inaugurou o projeto, ao músico Hélio Morais, à Lena d’Água, ao artista brasileiro MONCHMONCH, aos tédio fc, à Violeta Luz, e a mais recente com o ator Miguel Raposo. O mais importante foi a confiança dos artistas no formato e a disponibilidade para conversas calmas, pessoais e focadas na criação.


Embora o encontro seja íntimo e doméstico, pois é gravado no apartamento da Laura, o digital é o nosso meio de difusão. As redes sociais permitem-nos chegar ao público sem comprometer a autenticidade do formato. Acreditamos que, num mundo saturado de espetáculo e velocidade, existe uma sede real, tanto do público como dos artistas, por conversas sem pressa, profundas e genuínas.


Passaram por espaços com energias muito distintas. Como é que fazem a curadoria destes locais para que a “alma” do Páteo, independentemente do sítio onde estão?

Já trabalhámos em espaços muito diferentes, com identidades e dinâmicas próprias. O nosso objetivo nunca é impor um modelo, mas moldar cada evento ao espaço, respeitando a sua energia e o contexto em que se insere. Procuramos locais abertos a projetos culturais e evitamos, sempre que possível, espaços excessivamente gentrificados, equilibrando oportunidade e coerência.


A curadoria do espaço passa por garantir que a identidade do Páteo está presente em cada projeto, na programação, na comunicação, no design e na forma como recebemos as pessoas. No Machimbombo, por exemplo, organizámos desde noites de literatura e concertos a tardes de aguarela, e o feedback foi sempre o de que os eventos mantinham a nossa personalidade.


Independentemente do sítio, a alma do Páteo vive na forma como pensamos os projetos, nas pessoas que envolvemos e na atenção ao detalhe. É isso que garante continuidade, mesmo em contextos muito distintos.


Uma das vossas frentes é o apoio a candidaturas e financiamentos. Sentem que a maior barreira para os artistas independentes em Lisboa é a falta de verbas ou a falta de estrutura burocrática/comunicacional para chegar a elas?

As barreiras não são apenas financeiras. Existe uma grande falta de divulgação clara das oportunidades disponíveis e uma complexidade burocrática e comunicacional que afasta muitos artistas independentes do acesso a verbas. A isso juntam-se questões estruturais e redes de contacto muito fechadas.


No Páteo trabalhamos em várias frentes, do agenciamento ao apoio a candidaturas, da produção à comunicação e esse contacto direto com os artistas permite-nos perceber estas dificuldades no terreno. Nós próprias sentimos esses obstáculos quando criámos o projeto do zero, sem apoio externo.


O nosso trabalho passa por ajudar os artistas a identificar oportunidades, estruturar candidaturas e tornar esse caminho mais transparente e acessível. A confiança mútua é fundamental: saber que não estão sozinhos torna obstáculos que parecem impossíveis de ultrapassar muito mais fáceis.


Um dos vossos objetivos é levar o Páteo para fora de Lisboa. Como é que se mantém a ligação às raízes e à comunidade local quando o projeto ganha escala nacional?

Queremos contribuir para uma cultura menos centralizada, mostrando que projetos relevantes acontecem muito para além de Lisboa. Em 2025, tivemos uma experiência marcante na Glória do Ribatejo, ao sermos convidadas pela Associação Febre Amarela e pelo Festival Glória ao Rock para entrevistarmos alguns artistas. O acolhimento confirmou-nos que há um trabalho cultural fortíssimo fora da capital.


Expandir o Páteo nacionalmente não significa perder identidade, mas alargar o território de ação. Lisboa continua a ser a nossa base, mas queremos que 2026 seja um ano de crescimento consciente, levando os artistas que agenciamos a novos contextos e novos públicos, sem perder a ligação às comunidades locais.


O que podemos esperar do Páteo Criativo para 2026? Há algum sonho que pretendem concretizar agora que entram no segundo ano de atividade?

2026 será, esperamos, um ano de consolidação e crescimento sustentável. Queremos conseguir investimento que nos permita expandir áreas específicas da agência, continuar a trabalhar com os artistas que já acompanham o Páteo e integrar novos talentos no nosso agenciamento.


Mais do que crescer em volume, queremos crescer com coerência: produzir projetos consistentes, conteúdo autêntico e fortalecer a nossa presença na cena cultural. O objetivo é ver o trabalho refletido em resultados concretos, sem nunca perder o espírito que define o Páteo: proximidade, autenticidade e paixão pelo que fazemos.


Na vossa rotina de trabalho, o café é apenas combustível para as reuniões de produção ou é também, como na exposição do Reubs, um momento de ritual e pensamento criativo?

O café é claramente mais do que combustível. É um momento de pausa, de ritual e de pensamento criativo. Quando nos reunimos, especialmente só as duas, o café (e imperiais, claro) cria espaço para conversa, leveza e troca de ideias, equilibrando a exigência do trabalho com prazer de estarmos juntas.


Tal como no trabalho do Reubs, o café é energia, mas também tempo e atenção. É nesse equilíbrio que o Páteo acontece. 

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