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Pavilhão de Portugal na Bienal de Arte de Veneza vai replicar sismos em tempo real

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LUSA
19 de Março de 2026

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Pavilhão de Portugal na Bienal de Arte de Veneza vai replicar sismos em tempo real

O Pavilhão de Portugal na 61.ª Bienal de Arte de Veneza, que começa em maio, vai acolher um ecossistema com seres artificiais sensíveis a sismos, que serão ali sentidos ao mesmo tempo que acontecem num qualquer ponto do mundo.


O projeto “RedSkyFalls”, de Alexandre Estrela e com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, foi hoje apresentado em Lisboa, numa conferência de imprensa que foi interrompida algumas vezes por um barulho ensurdecedor, que replicava sismos com uma magnitude acima de quatro na escala de Richter.


Tal como hoje em Lisboa, no Fondaco Marcello, em Veneza, local onde durante os sete meses que durar a bienal estará instalado o Pavilhão de Portugal, “o sistema vai sempre disparar”, explicou Alexandre Estrela aos jornalistas.


“Temos a fasquia estipulada para 4 na escala de Richter, tudo o que vai acima ele dispara. Os computadores disparam este som, que é uma descarga energética”, referiu, partilhando que os ‘disparos’ ocorridos durante a conferência de imprensa aconteceram ao mesmo tempo em que eram registados sismos no Oceano Pacífico.


Em Lisboa, além do som, foi também apresentado um dos seres artificiais - uma mosca - que irão povoar o Pavilhão de Portugal, onde será instalado um “ecossistema feito com várias partes, todas elas interconectadas”.


“Funciona como um ecossistema de seres artificiais, com uma sensibilidade extrema aos eventos sísmicos do mundo e à trepidação da Terra. Ao disparar o som há uma resposta transversal, que é uma resposta de medo, nossa ou daquelas criaturas, que congelam para que esta violência pare. No fundo é um modo de adaptar, um sistema adaptativo. Ou uma pessoa foge ou congela ou luta. Neste caso é um congelamento”, explicou o artista.


O voo da mosca colocada na entrada do espaço que acolheu a conferência de imprensa, contíguo à Igreja de Santa Isabel e que é também o estúdio do artista, “é generativo”. “Funciona através de dados que vêm através da observação e registo do movimento animal”, referiu.


Este foi um projeto que implicou pesquisa em várias áreas, entre as quais sismologia, som e neurociência. Para isso, a equipa que o desenvolveu contou com a consultoria cientifica do Laboratório de Neurogenética da Locomoção da Nova Medical School, da área de investigação da Fundação Champalimaud e do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).


A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, presente na conferência de imprensa, destaca em “RedSkyFalls” “o cruzamento entre arte, tecnologia e ciência”, que “é também das possibilidades que a cultura oferece, que é este caráter multidisciplinar, e que ganha com essa multidisciplinaridade”.


O artista fala de “RedSkyFalls” como “um sistema suficientemente complexo para poder ser abordado de várias partes: questões políticas, ecológicas, climáticas, extrativistas, de experiência animal”.


“Como uma espécie de um prisma, todas essas formas de entrar reestruturam a maneira de ver o trabalho, tendo como base, que faz um 'reset' de todo o sistema, a atividade sísmica do mundo”, disse.


A instalação que Alexandre Estrela mostrará em Veneza foi desenvolvida a partir de uma outra que apresentou em 2019 no Museo Rufino Tamayo, no México.


Esses foram os “primeiros ensaios e primeiras experiências”. Os segundos aconteceram na Culturgest, em Lisboa, no final de 2024.


“Depois destas duas experiências, os dados [relativos a sismos] que vinham de organizações americanas foram cortados. Foi-nos cortado o acesso. E isso foi o que espoletou a reconfiguração e a reestruturação do sistema. Isto é, reconectámo-nos com agências europeias, com o IPMA, e voltámos outra vez a ver os sinais que voltaram a produzir esse significado”, contou Alexandre Estrela.


Ao longo dos sete meses da Bienal de Arte de Veneza, o projeto “RedSkyFalls” será ampliado pelo programa paralelo “Survey On Na S Wave”, concebido pelo curador Marco Bene, que inclui “outros artistas, com outros trabalhos”.


“Vão ser cinco apresentações que vão infiltrar-se dentro do espaço e possivelmente questioná-lo, torná-lo ressonante, torná-lo vivo”, referiu Alexandre Estrela.


O programa inclui conversas, concertos, ‘happenings’, projeções, que envolvem artistas como Miguel Abreu, Gabriel Ferrandini, Von Calhau! e Giulia Vismara.


Além disso, durante a bienal, haverá em Lisboa “um braço de Veneza” em sincronia com a Galeria Zé dos Bois (ZDB).


O programa “Sismo-Sinal”, de mediação e criação, inclui uma “Réplica”, que também reage à atividade sísmica, visitas guiadas e 'workshops'.


A 61.ª Bienal de Arte de Veneza - que vai decorrer sob o tema “In Minor Keys” (“Em Tons Menores”, em tradução livre), desenhada pela curadora Koyo Kouoh, que morreu em maio do ano passado - apresentará uma visão transformadora da arte num “sussurro poético” de resistência, introspeção e alegria perante tempos de exaustão global, segundo a organização do evento em Itália.


A mostra decorre de 09 de maio a 22 de novembro, com pré-inauguração nos dias 07 e 08 de maio, nos Jardins, no Arsenal e noutros locais do centro de Veneza.


A participação portuguesa é comissariada pela Direção-Geral das Artes.


O projeto que irá representar Portugal foi escolhido num concurso limitado, organizado pela DGArtes, com um montante global disponível de 425 mil euros.


Além do projeto de Alexandre Estrela, concorriam para a representação de Portugal na Bienal de Arte de Veneza projetos do português Pedro Barateiro e do greco-britânico Mikhail Karikis, sediado em Lisboa.


Os três projetos foram escolhidos, numa chamada de manifestação de interesse, por um grupo de trabalho constituído por Andreia Magalhães, Joaquim Moreno, José Bragança de Miranda e Nuno Faria, o mesmo grupo que decidiu o vencedor.

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