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Peter Pina: "Um grito não nasce na boca. Nasce no estômago"

Por

 

Pedro Mendes
27 de Abril de 2026

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Peter Pina: "Um grito não nasce na boca. Nasce no estômago"

Há espetáculos que existem porque alguém os quer fazer. E há espetáculos que existem porque não podem deixar de ser feitos. Corações de Papel pertence claramente à segunda categoria.


Peter Pina começou a traduzir a trilogia de Harvey Fierstein há trinta anos, movido por uma paixão e por uma história de amor vivida às escondidas, como se namorava nos anos 90. Em 2019, transformou-a numa experiência imersiva para uma pessoa por noite. Agora, sobe ao palco do Teatro Turim, de 30 de abril a 24 de maio, com uma versão nova, mais exposta, mais urgente. Pelo meio, aconteceu a extrema direita. Aconteceram as terapias de conversão.


Aconteceu um miúdo de 20 anos a escrever no X que a homossexualidade não pode ser considerada normal. Peter Pina leu e ficou mais forte. A arte dele é ativista, sempre foi, mas hoje tem menos paciência para esperar. Falámos com ele sobre o tempo que passou, sobre o camarim como território de verdade, e sobre o que significa continuar a gritar quando o mundo insiste em fazer ouvidos moucos.


Corações de Papel foi criado originalmente em 2019. O que é que mudou nestes sete anos - em ti, no texto, no país - que justifica trazê-lo de volta agora?

Eu apaixonei-me pelos Corações de Papel exatamente há 30 anos atrás. Estava muito apaixonado pelo João, o meu namorado. Vimos o filme em casa duma grande amiga nossa, que era uma espécie de madrinha do nosso namoro. Namorar nos anos 90, fazia-se às escondidas. Passei anos a investigar sobre o texto. Trata-se de uma trilogia. Começou a ser escrita no final dos anos 70, sendo a última parte apresentada em 1982. O filme foi feito em 1988. Em Portugal não existe o texto traduzido e o original é quase impossível encontrar. Foi o Tó Maia do Teatro Aramá que me cedeu o texto original, a quem agradeço do fundo do coração. Passei um verão inteiro a traduzir dezenas de páginas. O objetivo foi sempre fazer a peça integral com os 8 personagens. Contudo, para já ainda não é possível. Depois de em 2018 ter sido convidado pelo Michel Simeão para fazer a Casa Assombrada, acho que a experiência do teatro imersivo me vestiu a pele e não queria sair. Então decidi arriscar e ouvir o meu instinto. Adaptei o texto para monologo. Durante dois meses, o espetáculo era feito apenas para uma pessoa por noite. Esta encontrava-me no último quarto, depois de ver todos os pormenores espalhados pelo resto da casa, tal como as cartas do João, que estavam espalhadas pela cama, já que nós tínhamos namorado por carta nos anos 90. Era um contexto muito intimista. Eu e o espectador estávamos a literalmente 2 metros um do outro. A brilhante atriz Margarida Moreira, minha irmã de coração há 25 anos, o ano passado relembrou-me: “sabes que ainda tens de fazer os Corações de Papel em palco, certo?” Entre o outro espetáculo e esta nova abordagem em palco, surgiu a extrema direita. Foi isso que aconteceu. As notícias falsas, as falsas verdades, a discriminação e tentarem apagar uma luta de mais de 50 anos. Recordemos que Stonewall aconteceu em 1969.


Como ativista, não me posso calar, baixar os braços ou achar que já não vale a pena. Tornei-me mais forte. A minha arte é ativista e política. Comecei a escrever ativamente para o Dezanove.pt e Lgbtiviseu, sempre com a mensagem de que a comunidade Lgbtq+ não é somente uma massa invisível de gente. Somos pessoas, temos nomes, vidas, sonhos e à noite, às vezes alguns pesadelos. Corações de Papel precisa de ser visto e ouvido por mais pessoas. Ele diz: “Imagina o mundo ao contrário. Imagina que todos os jornais, revistas, filmes, programas de televisão diziam que tu devias ser gay. Tu sabes que não és. O que é que farias?”. Este é o grande desafio que faço a todos. Calcem os meus ténis. Foi exatamente este o desafio que fiz ao Presidente da Assembleia da República, na carta que lhe escrevi e enviei com uma encomenda com os meus próprios ténis, a propósito das Terapias de Conversão.


Assumir em simultâneo a encenação e a interpretação é um duplo desafio com riscos específicos. Como é que geres essa tensão entre o olhar de fora e o corpo em cena?

Em 2005, quando terminei o meu segundo curso para ator, desta vez na ACT, da Elsa Valentim e da Patrícia Vasconcelos, eu e a grande atriz Susana Oliveira começámos a fazer teatro juntos. Nessa altura construíamos tudo só os dois. Tínhamos o corpo em cena, os olhos de lado, a voz de fora e o pensamento a habitar o espaço todo. Fizemos um projeto “O Vazio”, num bar que já não existe, em Santa Catarina, o Souk. Depois fizemos “Duas histórias, uma assassina” no antigo palco da Sociedade Guilherme Cossoul, que também já não existe. E finalmente apresentámos o “Buraco Negro” de Gerardjan Rijnders no Teatro da Trindade. Depois zanguei-me com o Teatro e fiz as pazes com ele em 2012, quando comecei a escrever os meus textos teatrais. Escrevi o espetáculo “Abraça-me”, apresentado ao lado da Margarida Moreira, no Teatro Turim. O molde continuou. Estávamos dentro e fora de cena.


Assim foi com “A Culpa” e “O Amor” no qual também participava a fantástica Lídia Muñoz, este já em 2015. São já muitos anos em que a minha mente desenvolveu esta capacidade de me ver de fora, de estar dentro do espetáculo, mas de o olhar como um todo.


Quando concebo um novo espetáculo tenho sempre muito bem definido o motivo pelo qual é necessário que este exista. Esse é o input necessário para conseguir ter uma perspetiva mais abrangente. Dizem que Buda conseguia ver a 360º. Se aprimoramos nossos sentidos, nós também podemos ter uma perspetiva de tudo à nossa volta. Aprendi isto na minha fase mais Budista, que estudo desde os 25 anos. Ainda assim, neste espetáculo decidi criar uma versão nova do molde e é o primeiro espetáculo em que tenho uma assistente de encenação, a Susana Oliveira, que já trabalhou com os Artistas Unidos.


Harvey Fierstein escreveu a peça num contexto norte-americano muito particular. O que é que a tua adaptação teve de inventar, ou apagar, para que Arnaldo existisse de forma genuína em português?

A vida é cíclica. A história repete-se. Entre a versão do Harvey Fierstein e a minha, não foram necessárias grandes adaptações a nível de espaço e tempo. Vivemos tempos muito perigosos. Toda a discriminação e preconceito, pelos quais passei nos anos 80 e 90, afinal não terminaram.


Tenho a sensação de que viajámos no tempo, ou de que vivemos numa dimensão paralela à realidade. Este texto continua a ser um grito, um manifesto. Este espetáculo é uma manifestação, um manifesto cheio de cor, abraçando o kitsh e a cultura portuguesa. Acredito que a união faz a força e que a sinergia entre artistas completa a obra. É com muito carinho que este espetáculo recebe um tema de Fado Bicha, cantado pela maravilhosa Lila Fadista que fez a gentileza de me emprestar a cantiga, tal como fez o fabuloso João Frizza com o seu mais recente tema Abandono, que aconselho vivamente a que seja ouvido em loop, como eu o ouço.


Recebo ainda outro artista estupendo, o designer Gaudios, tenho imensas peças dele e claro que o Arnaldo também teria de as ter. Acredito no sentido de comunidade, ainda que muitas vezes esta não o pareça ser, mas eu serei sempre um sonhador. Mas um grito não nasce na boca. Um grito nasce no estomago. No outro dia li na aplicação X, um miúdo de 20 anos que escrevia: “não podemos continuar a viver em sociedade, achando que é normal um homem ser homossexual”. A seguir vomitou qualquer coisa sobre terapias de conversão e prisão. 20 anos. Um miúdo. Vejo que, com muita surpresa minha, alguns millennials surgem sem consciência social, instigados por figuras, que só podem estar muito doentes como a Maria Vieira e a Helena Costa, cujo o único objetivo de vida é vomitar ódio. Porquê? Apenas porque sim.


Tive há umas semanas uma pequena discussão com a Maria Vieira onde ela dizia que eu tenho paneleiro escrito na testa. Eu tentei explicar-lhe que isso não é um insulto. É apenas mais um nome para homossexuais. Nós temos muitos, somos tão divertidos, que temos toda uma panóplia de nomes. Disse-lhe “É uma característica minha, logo nunca poderá ser considerado como insulto, não é pequerrucha?” Entretanto, o filho dessa senhora Helena Costa, a quem eu desejo as melhoras, o Miguel Salazar vai também colaborar com o espetáculo dando-nos o seu testemunho sobre as terapias de conversão, que na verdade são somente torturas desumanas, físicas e psicológicas. Isto, porque não existe nada para ser convertido. Eu não sou um erro, uma doença, muito menos um crime.  


O humor é um dos materiais centrais desta peça. Achas que a comédia continua a ser uma forma de resistência, ou há momentos em que ela pode ser também uma fuga?

O humor deste texto, por vezes quase impercetível, é mordaz e sarcástico. É exatamente o meu tipo de humor, muitas vezes não compreendido. Acredito que a comédia é muitas vezes usada como forma de escape. O personagem deste texto, usa-a muitas vezes para fugir da dor, para não enfrentar. É a porta aberta ao estado de negação. É um texto muito cru e muito inteligente. Como diz a mãe do personagem, ele tem uma forma muito peculiar de ver a vida. Ele diz: “É tão mais fácil amar um morto, cometem tão poucos erros!” Ainda assim, existe com toda a certeza um ato de resistência no humor, Gil Vicente trabalhou muito bem essa receita, que ainda hoje vemos funcionar muito bem no Teatro Revista, no parque Mayer, que não morre, nem nunca irá morrer. Ridendo castigat mores.


O camarim como cenário não é apenas uma escolha estética, é quase uma declaração de intenções. O que é que esse espaço de transformação diz sobre a personagem que habitas?

O camarim é um espaço de transformação. Falava exatamente sobre isso, noutro dia no ensaio com a assistente de encenação. Neste caso específico, são duas realidades paralelas que acontecem simultaneamente. Vestir e despir. À medida que ele vai vestindo a máscara, também a vai deixando cair. Existe a criação da persona, através da maquilhagem, mudança de roupa, enquanto existe uma abertura para a partilha dos seus sentimentos, da sua vida, sonhos, medos.


O que nos leva a uma outra questão: uma persona é uma máscara ou um alter ego da nossa personalidade? Porque a persona é criada a partir de nós, da nossa realidade, da nossa verdade. Talvez não seja exatamente uma máscara, mas uma lupa de aumento. Todos nós usamos máscaras sociais. Eu vivo numa luta de as aniquilar a todas e deixar cada vez mais transparecer a minha essência sem filtros, sem aquilo que me incutiram na cabeça em criança: “o que é que os outros vão pensar?”. Descobri que os outros não existem. Apenas ocupam na minha cabeça, o espaço que eu lhes permitir.


O dossier fala num espetáculo "profundamente político". Sentes que o teatro tem hoje mais responsabilidade activista do que tinha em 2019, ou essa urgência sempre esteve lá?

A arte é política. Como tal, o Teatro é político. Sempre foi. A arte é uma lupa de aumento, segundo determinada perspetiva. Sempre esteve lá. Como disse há pouco, hoje vivemos tempos muito perigosos. Os extremistas e fascistas, ainda que o neguem, estão a ser das suas tocas. É cada vez mais urgente lutarmos pela justiça social. Isto não é uma guerra. Chama-se viver em sociedade. Acredito sempre que o diálogo é a melhor forma de combater o ódio, o caos, a anarquia. Acredito ainda que existem alguns elementos do partido Chega, começando pelo seu Presidente André Ventura, que não acreditam nem em 50% daquilo que dizem. Ele, por vezes quando confrontado, deixa esboçar um sorriso de criança marota, que foi apanhado a tirar mais uma bolacha. Mas o seu ego, que não vingou na literatura, continua a necessitar de atenção e descobriu que ao repetir a mesma receita já testada na Alemanha dos anos 40, que o iria alimentar. Como é que podemos levar a sério um grupo de pessoas que não consegue falar, dialogar, mas apenas gritar, grunhir, insultar com uma linguagem semelhante a um animal quando está com medo? Como é que podemos levar a sério um grupo de criminosos que gritam não ao crime? O ativismo é mostrar aos espetadores desses espetáculos muito pouco dignos, que é apenas encenação. O ativismo é continuar a mostrar que independentemente da cor, religião, sexualidade ou género, somos todos seres humanos, e não existe nenhuma característica que faça de nós seres inferiores.


A adoção por famílias LGBTQIA+ é um dos eixos dramáticos da peça. Como olhas para a evolução, ou falta dela, nesse campo em Portugal, no tempo que passou desde a primeira versão?

Em Portugal, a adoção por casais do mesmo sexo (homoparentalidade) é legal e plena desde 2016, permitindo adoção conjunta e coadoção. Contudo, esta está repleta de mitos urbanos, que não correspondem à verdade. Acreditamos que existem muito mais crianças para ser adotadas do que famílias a querer adotar. Acreditamos ainda que legalmente este processo é moroso e demasiado complexo. Nada disto corresponde à realidade. Desde a primeira vez que apresentei Corações de Papel, como teatro imersivo, o meu amigo Gonçalo Oliveira e o marido adotaram 3 crianças. Além de serem pessoas e pais incríveis, o Gonçalo com o projeto Pai Para Toda a Obra tem feito um trabalho de excelência no que toca à parentalidade. Aprendo muito com ele, o que me ajudou a olhar para a adoção, principalmente neste texto, com amor e respeitando a história que a criança já viveu, como parte da sua vida e não como algo que, com a família de acolhimento já não faz parte.


Está prevista uma digressão nacional e uma versão audiovisual. Como imaginas Corações de Papel a funcionar fora do contexto de uma sala de teatro, em escolas, em centros comunitários, em espaços que habitualmente não recebem teatro?

O Corações de Papel começou, nas minhas mãos por ser uma conversa intimista num pequeno quarto de uma casa. Logo, está preparado para viajar por palcos, escolas, até confessionários. Porque na verdade é disso que se trata, uma confissão. Uma conversa. Uma partilha de amor, olhos nos olhos. Um lugar onde o medo se transforma em palavra e a palavra em encontro. Onde amar se veste de casa. Porque, no fim, tudo se resume a isso: amar e ser amado. E a esperança de que, mesmo num mundo duro, ainda é possível recomeçar.

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