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“O estatuto do poeta contemporâneo implícito na poesia de Pina é o de um investigador forense debruçado sobre o cadáver da Literatura”[1]
“Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” propõe-nos celebrar a beleza lúdica da palavra em Manuel António Pina. A palavra dita e brincada. A palavra pendurada nas cabeças e nos pés. Pés no chão, pés no ar. Cabeça para baixo, cabeça para cima. A palavra atirada em várias direções. A palavra reta. A palavra invertida. A palavra oblíqua.
É como se as frases, recortadas das obras para a infância de Manuel António Pina, se fossem desarrumando e arrumando. É como se as palavras rodopiassem no ar, até repousarem, uma por uma, numa mesma manta de excertos concatenados.
As histórias entrelaçam-se, engolem-se, abraçam-se.
Somos convidados a participar de um jogo, uma brincadeira de crianças, uma acrobacia onde encontramos o espanto, o desencanto, a descoberta. Somos levados pela mão nessa procura singular feita ao longo da estrada da vida. Seja em linha reta ou numa sucessão de curvas, o jogo nunca acaba. O quotidiano escreve-se com uma ode ao banal e com a exaltação poética do inútil. O humor de Pina cicatriza o dói dói que não se resolve com penso rápido nem com pão com marmelada.
“A vida é estarmos sós.
A gente diz que a vida dói
a vida não dói -
quem dói somos nós”.[2]
A estrada da vida é celebrada, entre a infância e a morte, por um magnífico coletivo de atores que se entrega a um exercício desafiante onde o corpo serve a palavra e a palavra alimenta o corpo.
Afinal, então, o que é esta Pina colagem?
Podia ser um retrato, de Andy Warhol, do poeta, do dramaturgo, do cronista. Podia ser uma coreografia, de palavras enlaçadas, de Pina (Bausch). Podia ser uma mostra de circo musicada por A Garota Não. E talvez seja tudo isso.
O espetáculo procura o horizonte do impossível, mas basta-lhe permanecer dentro das múltiplas possibilidades que a poesia de Pina explora. Espreitamos um lugar imaginário, a perder de vista. Ocupamos um espaço onírico por delimitar. Sentamo-nos, juntos, numa terra de ninguém. Observamos o que pode ser esse mundo imaginado dentro dos livros. Somos o que lemos. O que não lemos dá-nos pistas sobre o que somos, mas também sobre o que podíamos ter sido.
À nossa frente, uma biblioteca, livros e mais livros, estantes e um sábio (Jorge Mota) preso no seu labirinto de palavras.
A coluna vertebral da dramaturgia deste espetáculo, ou nas palavras do diretor artístico, Victor Hugo Pontes, o seu esqueleto, é a História do sábio fechado na sua biblioteca [3].
À nossa frente, atores criança (Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, Joana Carvalho, José Santos, Marco Olival, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Siobhan Fernandes). Estas crianças adultos, adultos criança, vestidos de cor e elegância — (é difícil que um guarda-roupa tão cuidado passe despercebido — estão dispostos a fazer da palavra trampolim para o sonho, para o imaginário inquieto de Manuel António Pina.
E que melhor lugar para resgatar o universo sonhado do poeta que o teatro? No teatro faz-se o exorcismo do medo, coletiviza-se, sem receio de falhar, a dúvida, avança-se para o risco partilhado da pergunta[4].
“Escrevo porque tenho medo.
Para responder ao medo
Pra deixar de sentir medo
Que o medo só traz mais medo”[5]
E é esse permanente movimento, esse ritmo, que nos traz este bailado encenado onde a palavra impera. Somos acolhidos na recreação da vida, da vida tal qual Pina a construiu poeticamente. Fazem-nos mergulhar, imergir e emergir. Fazem-nos celebrar cada vocábulo.
Saímos cheios de palavras dentro, como se a nossa barriga se tornasse um aquário de palavras. Palavras que, talvez, possam fazer virar o mundo às avessas.
"Virar o mundo de dentro para fora
e ver se o mundo assim melhora
e se nem assim o mundo melhorar
voltá-lo a virar, a virar, a virar”.[6]
Sim, o Pina ainda dança.
[1] Rui Lage, Manuel António Pina, 29.
[2] Canção “Quem dói somos nós”. Música de A garota não, poema de Manuel António Pina (no verso de um manuscrito, ca. 1966)
[3] Victor Hugo Pontes, «O caminho de casa», Manual de Leitura. Falsas Histórias Verdadeiras: uma Pina colagem, pp.7-8-
[4] Como descreve Jacinto Lucas Pires: “O teatro é bonito como nada, é bonito sem comparação. Porque nos mostra que a verdade é de todos, sim. Que isto de não sabermos as respostas ( e de precisarmos de arriscar uma pergunta ou outra) é uma verdade partilhável”.
«Já não tenho palavras para não dizer qualquer coisa», Manual de Leitura. Falsas Histórias Verdadeiras: uma Pina colagem, pp.11-14, cit. p.11.
[5] Canção “Escrevo porque tenho medo, música e letra de A Garota Não, inspirada em versos e entrevistas de Manuel António Pina.
[6] Canção “Vira do mundo”, música de A garota não. Versos de O maior intelectual do mundo, de Manuel António Pina.
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