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Por que Contamos Histórias? Três vozes para pensar a narrativa hoje

Por

 

Pedro Mendes
31 de Janeiro de 2026

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Por que Contamos Histórias? Três vozes para pensar a narrativa hoje

Contar histórias é uma das formas mais antigas, e mais eficazes, de dar sentido ao mundo. Através delas, organizamos a memória, criamos pertença, atravessamos o medo, a perda e a alegria, e encontramos linguagem para aquilo que, tantas vezes, parece impossível de dizer.


Mas num tempo em que tudo é narrado em permanência, nas redes, nos media, na política, na vida íntima, vale a pena voltar à pergunta essencial: por que contamos histórias? E para quem?


É a partir desta inquietação que se construiu a conversa “Porque Contamos Histórias?”, reunindo três vozes com percursos distintos e complementares: Inês Brasão, Inês Lampreia e Susana Moreira Marques. Entre a investigação, a criação e a escrita, as três convidadas propõem um encontro onde a narrativa é pensada não apenas como forma artística, mas como ferramenta de relação, de transmissão e de transformação.


Para o Coffeepaste, deixamos algumas perguntas, sobre verdade e imaginação, ética e memória, escuta e responsabilidade, e que ajudam a perceber o que está em jogo quando uma história é contada.


-- Inês Lampreia --


O que, para ti, define uma “história”?
No meu entender, uma história é uma tentativa de dar forma ao que nos atravessa, seja uma experiência interior ou exterior, seja um acontecimento, uma ferida, um espanto em relação à realidade. De certa maneira, uma história pode ser um acontecimento físico ou não, que ocorre num tempo e num espaço e que está naturalmente sujeita a inúmeras possibilidades de interpretação. Há histórias onde quase nada acontece, mas onde algo se desloca internamente, às vezes um pensamento, uma emoção, uma perceção do mundo... e tudo isso faz parte de uma história que ocorre, existe e é dentro de um indivíduo, num tempo, numa realidade.


Como é que o teu percurso pessoal, académico, literário e social molda a forma como pensas a narrativa?

O meu percurso pessoal, académico, literário e social nasce de um espaço geográfico e afetivo muito particular, o Alentejo e a sua planície, as suas comunidades e circunstâncias. Nasci em Lisboa, mas aos quatro anos fui viver para o Alentejo onde cresci numa casa de porta sempre aberta, a caso dos meus avós maternos. Essa porta era, ao mesmo tempo, um símbolo e uma prática de convivência: por ela entravam vizinhos, amigos e desconhecidos que vinham aquecer-se à lareira, trocar alimentos, jornais e ideias. Nessas visitas partilhavam-se tanto histórias e preocupações mais íntimas, como perspetivas sobre o que se ia passando no mundo. Era um espaço de partilha em que a palavra ocupava um lugar central e em que vários temas emergiam. Contavam-se histórias de vida, de trabalho e de resistência, do passado e do presente, sempre atravessadas por uma dimensão política e social.


Cresci, por isso, a ouvir histórias e a aprender a olhar para o mundo através delas. O campo e a liberdade de brincar e reinventar narrativas com a própria natureza sempre muito presente e a revelar-se, reforçou muito uma pulsão de imaginar. Portanto, diria que algo que molda muito a minha relação com a construção de narrativas é a potência da imaginação.


A leitura teve também um papel decisivo porque vivi rodeada de livros e de leitores, com a imagem da minha mãe e do meu avô, da minha tia a lerem como uma prática diária.


Foi nesse ambiente que, aos 12 anos, pedi uma máquina de escrever e comecei a brincar ao jornalismo e à escrita, gestos que vejo hoje já antecipavam uma certa vocação.


Do ponto de vista académico, segui pela via das Humanidades e no liceu, a área da comunicação, que permitiu logo começar a aprofundar as questões técnicas da narrativa. O curso de jornalismo na universidade deu-me as ferramentas técnicas e éticas para abordar a escrita de forma rigorosa e plural e também foi onde aprendi a lidar com as histórias dos outros, com os acontecimentos e com as várias formas de narrar o real, tendo como ferramentas os vários géneros jornalísticos e as várias técnicas, como aproximações ao documentário televisivo ou reportagem radiofónica e escrita, crónica, entrevista, etc… Essa formação deu-me, mais tarde, segurança para experimentar e largar-me na escrita literária.


O interesse académico pelos processos de linguagem, pelas dimensões simbólicas e míticas do discurso e pelas formas como as narrativas se inscrevem no espaço público, resultam também em grande medida deste percurso académico.


Hoje reconheço que a origem de tudo esteve sempre na palavra, na oralidade partilhada em família e numa grande aprendizagem de escutar as pessoas e entendo que muito do meu pensamento e trabalho na literatura, sobretudo na sua vertente experimental e ficcional, é continuar a explorar modos de contar as histórias dos outros que são também, e sempre, as nossas.


Por que sentimos a necessidade de contar histórias, especialmente hoje?

Nós, enquanto seres humanos, organizamos o mundo e a vida através de narrativas. São as histórias que nos ajudam a dar coesão ao que vivemos e a tornar possível a cooperação em grande escala. A nossa mente procura sentido, continuidade, alguma coerência e, nesse esforço, cria fronteiras simbólicas e morais. Essas fronteiras tanto aproximam como separam as pessoas. Talvez por isso as histórias tenham sempre tido esse duplo efeito, tanto unem, como afastam as pessoas.


Neste exercício inato de contar histórias tentamos torná-las compreensíveis, partilháveis e convincentes. Sempre foi assim. Mas, as narrativas mudam, porque nós também estamos sempre em mudança, assim como a memória e a linguagem. Narrativa, memória e linguagem caminham juntas. Ou seja, contar histórias é, por isso, uma condição humana cheia de nuances.


Neste momento, vivemos num tempo acelerado e saturado de histórias e informação, que vai muitas vezes contra o tempo próprio da narrativa que é um tempo que pede abrandamento, atenção, escuta… e os lugares que utilizamos hoje para nos narrarmos são limitados pela técnica, como por exemplo as redes sociais.


Tenho a sensação de que a nuance humana e o tempo necessário para a narrar parece não ter tanto lugar atualmente. Reina a simplificação, a rapidez, as imagens fixas, os slogans... e como a linguagem, tal como o nosso comportamento, se foi adaptando às máquinas, estamos cada vez mais a reduzir experiências complexas, ou seja, as nossas narrativas, a posts, headlines e copies... Isso empobrece o próprio exercício de contar histórias, empobrece a nuance humana, endurece o discurso, alimenta posições rígidas e “verdades” que não toleram contradição.


Paradoxalmente, penso que estas circunstâncias são um grande motor que nos torna cada vez mais sedentos de contar histórias.


Histórias podem ser actos de resistência?

Sim, contar histórias é também um gesto de resistência porque reinscrevemos o humano num mundo cada vez mais acelerado e técnico. Sobretudo, é um ato de resistência quando recusa a simplificação ou as narrativas dominantes.


Uma história pode resistir e dar voz ao que foi silenciado ou inacessível e pode ser resistência per si simplesmente por existir, por ocupar espaço no mundo, num determinado tempo e lugar.


Penso aliás, que a insistência em contar e escrever histórias, sejam de ficção ou não ficção, no presente e no futuro, é um ato de resistência à efemeridade das narrativas e uma confirmação de que as histórias nos pertencem, como um bem humano.


-- Susana Moreira Marques --


O que, para ti, define uma “história”?

Essa é uma das perguntas mais antigas do mundo desde que temos consciência de que construímos narrativas para organizar a vida. Uma frase só pode ser uma história? As mesmas palavras numa ordem diferente contam uma história diferente?


Gosto de pensar numa história como algo que não tem que ter um princípio, um meio e um fim. Para mim, uma história é algo — uma situação, uma observação, um encontro, uma memória — que ilumina qualquer coisa no mundo. Uma espécie de ponto de luz que nos faz ver qualquer coisa que estava mesmo ali mas para a qual não tínhamos olhado com atenção; muitas vezes, para nós próprios.


Como é que o teu percurso pessoal, académico, literário e social molda a forma como pensas a narrativa?

Na conferência e debate na Culturgest sobre “Porque contamos histórias?”, tento explicar porque comecei a escrever o tipo de histórias que escrevo e do modo como as escrevo.


Como tanta gente da minha geração em Portugal, sou neta de pessoas que quase não tinham formação escolar, pessoas que dificilmente tinham os recursos para contar as suas histórias. No entanto, as suas vidas pareciam-me extraordinariamente interessantes, resilientes e guardando lições que mereciam ser conhecidas.


Penso que comecei a escrever para que as suas histórias — não só dos meus avós, mas de pessoas como eles — existissem no espaço público.  E, depois, continuei a escrever para também eu existir — eu, enquanto mãe, eu, enquanto escritora, ou eu enquanto mulher na cidade. Grande parte do tempo da nossa vida é passado a fazer coisas às quais não se dá importância e quase tudo o que somos é rapidamente esquecido. Gosto de pensar na literatura como uma possibilidade de adiar esse esquecimento.


O meu percurso pessoal cruzou-se depois com o jornalismo e o cinema, especialmente documental, e tudo isso me levou a querer explorar a não-ficção literária ou narrativa de não-ficção, como uma possibilidade de desenvolver um pensamento sobre o mundo, com personagens reais e situações reais, que recusa os filtros e as convenções da ficção, procurando novas linguagens mais híbridas.


Alguma vez sentiste que uma história que precisavas contar não encontrou ouvidos suficientes?

Normalmente, o que eu sinto é que eu própria ainda não sei como escutar essa história, isto é, que o meu ouvido é que é insuficiente.


Acho que uma história que precisa de ser contada — quando quem escreve acredita que ela precisa mesmo de ser contada — vai acabar por encontrar os seus ouvintes.


Se pudesses escolher uma única história, real ou ficcional, que todo o mundo lesse hoje, qual seria e porquê?

Vivemos num mundo em que seria bom que não nos ficássemos por uma única história.


Quanto mais histórias, com mais perspectivas, melhor para nós e mais conseguimos criar um retrato complexo, realista — talvez, até, esperançoso — do mundo.


Não gosto muito da ideia de estarmos todos a ler a mesma coisa, como estamos todos a ver os mesmos vídeos virais, e a ver as mesmas séries da Netflix. O mundo nunca foi tão grande e comunicante e, no entanto, tem-se tornado pequeno.


Dito isto, diria às pessoas não para lerem uma história específica, mas para lerem mais livros que se debruçam sobre histórias reais. Pode ser demasiado tentador escaparmos para dentro de ficções que nos dão uma falsa sensação de que conhecemos o mundo.


-- Inês Brasão --


O que, para ti, define uma “história”?

Encaro as histórias que me são contadas a partir de uma “arte da escuta” que me permite acercar-me das “personagens” reais da história social do trabalho. Estas personagens não são ficcionais, são trabalhadoras apagadas pela história oficial e, até ao início do século XX, não tinham direito a existência histórica: viviam como que num subterrâneo ou porão da memória coletiva. Reconstituir a sua história é, ao mesmo, tempo ajudar a redefinir o que a própria História é, e o que queremos que ela seja. As histórias quer recolho não são minhas pelo que me sinto uma espécie de elo entre as mulheres que conheci e a capacidade de as integrar num mundo significante para os outros, a sociedade, outros escutadores e sedentos pelo que de mais invisibilizado existe: certas vidas e certos trabalhos. É um processo reconstitutivo.


Como é que o teu percurso pessoal, académico, literário e social molda a forma como pensas a narrativa?

A minha narrativa é completamente devedora – claro - de tudo quanto vivi até hoje, mas considero que tenho vindo a apurar a técnica de ouvir, de transcrever e editar as histórias que me são contadas. Porque há uma aprendizagem decorrente da convivência com o processo. Na minha família encontro histórias de mulheres que “toda a vida” serviram outras e outros. Na literatura de José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Ferreira de Castro, Agustina, Maria Archer, Eça ou Camilo, sempre me inquietou o imaginário das vidas dos “ricos” povoados por mulheres a quem não era atribuído protagonismo, sem ser funcional. E existe, no campo académico, o que vamos aprendendo através das leituras de outras historiadoras e antropólogas cujos objetos e métodos são similares, e onde cruzamos entendimentos, ou apontamos divergências, mas que permitem um pensamento crítico sobre a nossa própria narrativa.


Como influenciam as plataformas digitais e contemporâneas (blogs, redes, imprensa) a forma como contamos e ouvimos histórias?

Talvez não seja a melhor pessoa para responder a esta questão. No entanto, existem formatos emergentes com excelentes contributos para o deslindar de histórias de vida. Um dos exemplos mais fulcrais, para mim, foi a escuta do podcast “A mulher da casa abandonada”. Com um sentido jornalístico, político, de história oral e cuidado ético, o jornalista Chico Fellitti deu a conhecer a história de uma trabalhadora doméstica que foi “levada” pelos seus patrões brasileiros para os Estados Unidos da América e escravizada durante 20 anos. Este crime foi de tal forma relevante que obrigou os EUA a mudar a lei por forma a enquadrar novas formas de escravidão que não estavam contempladas na lei. Mas há muitos outros formatos que estão a emergir com grande potencial: as novelas gráficas, os audiolivros (a que ainda não me adapto, mas preciosos em termos de acessibilidades novas), e, claro, há um lado da imprensa exploratória da vida humana que também tem vindo a crescer, em que se trocam audiências pela exploração da vulnerabilidade, e seria importante mais pensamento crítico sobre este contexto bastante atual, em Portugal.


Existe um “dever ético” em contar certas histórias, por exemplo, de grupos marginalizados? Como equilibrar responsabilidade ética com liberdade criativa?

Tenho um dever de lealdade para com a reconstituição da história que me é contada e sou sempre guiada pelo dever ético de transcrever e mediar o que constitui – na base e fundamentalmente – aquela vida. Não tenho a certeza de que sempre consigo, mas tenho a certeza que tento fazê-lo. Eu posso tirar, mas não posso acrescentar. O processo de edição da história permite, para efeitos de narrativa, que eu recorra aos parêntesis ou reticências, por exemplo, no sentido de atalhar caminho. Faço aquilo para dar ritmo à prosa, ou evitar redundância, mas se quisermos falar de regras, é necessário que os registos em áudio, em última análise, sejam conservados enquanto prova. Podemos subtrair (ajuizando que essa subtração não demove o sentido), mas não podemos acrescentar. O contrato de confiança estabelecido com a pessoa a quem pedimos que nos conte a sua vida tem de ser respeitado, e respeitada a forma como essa vida nos chega narrada.

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