Entrevistas

Rita Fernandes: "Percebi que não foges de quem és"

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Pedro Mendes
15 de Outubro de 2026

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Rita Fernandes: "Percebi que não foges de quem és"

Que qualidades deve ter quem governa? É desta pergunta que parte Virtues, a exposição de Rita Fernandes que inaugura a 1 de novembro no 8 Marvila, em Lisboa, com apresentação de Catarina Furtado. O projeto tem como núcleo quinze pinturas de grande formato, pensadas como partes de uma mesma construção, e inclui também desenhos preparatórios, estudos, objetos e um vídeo.


O ponto de partida foram as quatro virtudes de Platão (justiça, temperança, coragem e sabedoria), que a artista achou insuficientes para pensar o exercício do poder hoje. Nas telas há figuras humanas, coroas, capacetes, embarcações, pássaros e fragmentos de arquitetura. Há também homenagens a quem governou com justiça, às vítimas de violência e opressão, aos animais e a artistas que Rita Fernandes admira. Já com a exposição concluída, a artista entrevistou 23 pessoas de áreas muito diferentes, da política à cultura, para que cada uma comentasse o projeto a partir do seu ponto de vista. O vídeo dessas conversas faz parte da mostra.


Virtues é também o primeiro projeto de Rita Fernandes desde que deixou a RTP, onde trabalhou 25 anos, para se dedicar só à pintura. Na conversa com o Coffeepaste, fala dessa decisão, da forma como escolhe os rostos que pinta e da itinerância da exposição pelo país.


A exposição fica no 8 Marvila até 15 de novembro. Depois segue para o Centro Cultural de Redondo, onde estará de 18 de novembro a 11 de dezembro com uma parte das obras.

O título do comunicado diz que assumes agora dedicação exclusiva à pintura. Depois de anos a dividir-te entre as artes visuais e o audiovisual, o que te levou a esta decisão, e porquê agora?

Foram 25 anos de RTP, 5 como jornalista e o resto como realizadora. Com todo o tipo de contratos possíveis. A televisão tem um ritmo muito próprio e embora possa ser um lugar perfeito para se criar, temos pouca autonomia. Estava muito cansada de estar afastada dos meus projetos e ideias. Cada vez que queria organizar uma exposição era muito difícil conjugar os horários da RTP e as horas que ficavam disponíveis para pintar, desenhar, fazer vídeos... para além da vida com os meus filhos. E decidi arriscar antes que as ideias que tinha e a energia para as concretizar desaparecessem. Ao longo da minha permanência na RTP percebi que não foges de quem és. Se nasceste artista, seja lá o que isto quer dizer, não consegues ser feliz sem fazer o que mais gostas. Repara, passas 80% do teu tempo a trabalhar, se não fores feliz no trabalho, dificilmente serás feliz na tua vida pessoal. Outra questão é que os meus filhos já estão mais crescidos e fazem alguns trabalhos. E isso ajudou a dar o passo.


Virtues parte de uma pergunta: que qualidades devem orientar quem governa? Como chegaste a esta questão?

Embora não tenha nenhuma vocação para política interesso-me muito pelo tema. E há anos que sigo a maior parte dos programas que temos. Sobretudo a Quadratura do Círculo, que já teve tantos nomes, agora O Princípio da Incerteza. Acho que deve ter perto de 40 anos! Começou na TSF ainda com o Emídio Rangel e depois com o Carlos Andrade. Mas nessa altura era pequena. Ainda não via. Tenho particular carinho e admiração pelo António Lobo Xavier e pelo Pacheco Pereira. Com muita pena minha o António Lobo Xavier por razões profissionais abandonou o painel. Acho que posso afirmar, sem dúvida alguma, que foram eles que me ajudaram a formar opinião em muitas frentes. Era frequente abordar-se a questão da qualidade dos políticos ou da falta dela. E isso começou a fazer-me pensar muito sobre essa questão. Como adoro filosofia, lembrava-me que o Platão tinha idealizado a sociedade perfeita e comecei a pensar como poderia criar uma exposição à volta deste conceito.


Dizes que não procuras dar respostas fechadas. Que tipo de reflexão gostavas que o público levasse da exposição? 

A exposição tem inúmeros objetivos. Como tantos outros artistas, ao longo de todas as épocas, o meu maior desejo é que nos aproximemos mais todos uns dos outros, mantendo respeito pela individualidade de cada um, mas sempre com base na justiça para todos. A vida é um grande milagre e não consigo aceitar que haja pessoas a roubar esta oportunidade a outras, que pelo menos ao que se sabe até hoje, é única. Presto muitas homenagens e acho muito importante recordarmos quem partiu cedo demais e também quem tornou o mundo num lugar melhor. Faço homenagens a artistas que admiro. Quero avivar a memória. Tão importante, como diz sempre o Pacheco Pereira. A reflexão que eu gostaria que o público levasse é talvez a importância, que tem nós nos interessarmos mais pela política. E ter mais atenção a quem escolhemos para dirigir os destinos do nosso país.


O núcleo da exposição são quinze pinturas de grande formato, pensadas como partes de uma mesma construção. Como estruturaste esse conjunto e como chegaste às virtudes que escolheste?

Bem, esse foi um grande desafio. Comecei por olhar para as virtudes do Platão e achei que eram poucas!  Apenas 4: Justiça; Temperança; Coragem e Sabedoria. E pensei que alguém para governar precisa de bastante mais virtudes. Porque eu levo muito a sério o lugar que os políticos ocupam. Eles, em muitas áreas, decidem as nossas vidas indiretamente. E fui pensando até chegar a 13. Porque algumas que quis colocar acabavam por estar integradas noutras. O António Lobo Xavier na entrevista que teve a amabilidade de me conceder, explica bem melhor do que eu, quais devem ser as virtudes de um político e porquê. Mas a entrevista foi posterior à elaboração da exposição. 


Falaste com vinte e três pessoas de áreas muito diferentes, de Mariana Mortágua a António Lobo Xavier, de Dalila Carmo a André Teodósio. O que procuravas nessas conversas e o que mudou no trabalho por causa delas?

As entrevistas foram posteriores. Todas. A exposição já estava concluída. Aqui quis que pessoas que eu admiro o pensamento contextualizassem a exposição, de acordo com as suas perspectivas. Fascina-me muito a inteligência e ter o privilégio de ouvir a opinião destas pessoas em temas concretos acho que acrescenta  bastante ao projecto.


Algumas pessoas aparecem nas obras, mas fazes questão de dizer que os quadros não lhes são dedicados e que não são retratos. O que te leva a escolher um rosto ou um gesto como matéria pictórica?

Essa pergunta é muito interessante Pedro! E difícil de responder. Sei que por vezes olho para uma pessoa, um objeto, uma paisagem, ou um animal... e me surge uma enorme vontade de desenhar, ou pintar. Porquê? isso não consigo responder. Porque já percebi que não passa pela beleza. É mais profundo do que isso. E já falei com outros artistas e todos sentimos isto. Acho que podes comparar ao facto de nos apaixonarmos por umas pessoas e não por outras. No caso de alguns retratados, foi prático, porque para além de serem meus amigos gostaria de os retratar. Então facilitou o processo das fotografias, do making of.


Coroas, capacetes, embarcações, pássaros, fragmentos de arquitetura: como foste construindo este vocabulário simbólico?

Gosto muito de simbolismo. Embora ache que o universo nos está sempre a confundir! Acho que há determinadas coisas que já estão dentro de nós. Provavelmente nem damos conta delas, a menos que se crie um canal para as expressarmos. E na verdade foi tão simples quanto isso. Foi tudo muito orgânico e quase imediato. À medida que ia avançando com os esboços, ia procurando exatamente o que me vinha à cabeça ou no Pinterest, ou no trabalho de outros artistas ou em livros de arte. 


Além da pintura, há desenhos, estudos, objetos e vídeo. O que acrescenta o vídeo, e até que ponto o teu percurso no cinema está presente aqui?

Aqui o vídeo é apenas o registo das entrevistas. Tinha outra ideia que acabei por não ter tempo de filmar. E nessa sim, acho que traria influências da minha passagem pelo meu curso. Mas devido à falta de tempo, acabei por integrar antes o vídeo das entrevistas na exposição.


Estudaste cinema em Londres e pintura na SNBA e no AR.CO. Como se cruzam estas duas formações na tua forma de pensar a imagem?

O cinema e a pintura cruzam-se na forma como construo a imagem, na composição, na luz, na cor e na narrativa. São linguagens diferentes, mas ambas me permitem transformar aquilo que penso e sinto numa expressão visual muito pessoal. Acho que, como uma grande parte da nossa geração, sofro de défice de atenção e hiperatividade. Deve ter sido do excesso de açúcar na infância! Sou bastante despistada. E isso para mim já foi motivo de angústia. Hoje em dia acho que é o que me permite ter tantas ideias e vaguear por tantas outras dimensões, que não a nossa. Tanto o cinema como a pintura, ou o desenho têm uma técnica por trás. E o desafio, é conseguirmos colocar essa técnica ao serviço daquilo que temos dentro de nós, da nossa individualidade. Porque, sendo cada um de nós único, também a forma como nos expressamos será inevitavelmente singular.


Expões desde o final dos anos 90, em sítios como o Museu do Chiado ou o D. Maria II. O que mudou no teu trabalho desde então?

Mudou muita coisa. Acima de tudo, evoluí tecnicamente, mas também mudei enquanto pessoa, e essa transformação reflete-se inevitavelmente no meu trabalho. Estamos em permanente evolução, tal como o mundo que nos rodeia. No entanto, as minhas preocupações essenciais mantêm-se: a vontade de contribuir, de alguma forma, para um mundo mais justo para todos, continua a ser uma constante no meu trabalho.


A exposição está no 8 Marvila até 15 de novembro e depois vai seguir em itinerância. Já sabes para onde vai, e como imaginas que mude ao passar por outros contextos?

Já tenho a confirmação da Câmara Municipal de Redondo. Irei estar no Centro Cultural de Redondo de 18 de novembro a 11 de dezembro. Mas apenas com uma parte da exposição. Porque a sala só assim o permite. Estou em conversações com Sintra e Algarve. Vamos ver. O desejo e a expectativa de percorrer Portugal e de levar o meu trabalho ao maior número possível de lugares e contextos são enormes. Acho que devemos tentar descentralizar mais a cultura. Seria extraordinário que a arte chegasse a todo o país e que todos tivessem a oportunidade de conhecer o que se faz no panorama artístico português, independentemente do lugar onde vivem. Vou ter de adaptar a exposição aos espaços porque como tem uma grande escala não cabe fisicamente em algumas salas. Mas essa adaptação vai ser muito interessante, pois acredito que pode puxar pela imaginação do público. 

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