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Rita Fialho Valente: "Não estamos a impor nada, estamos a criar diálogo"

Por

 

Pedro Mendes
13 de Maio de 2026

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Rita Fialho Valente: "Não estamos a impor nada, estamos a criar diálogo"

O Festival Futurama chega à sua 5.ª edição com uma programação que atravessa Beja, Mértola e Alvito entre 15 e 30 de maio, reunindo artes visuais, música, performance, teatro e palavra em espaços culturais e patrimoniais do Baixo Alentejo. Rita Fialho Valente, coordenadora artística do festival, fala-nos de um projeto que se constrói ao longo de todo o ano, em residências artísticas, escolas e associações locais, e que no festival se torna simplesmente visível. Uma conversa sobre território, co-criação e a responsabilidade de descentralizar a cultura.


O Futurama chega à 5.ª edição. O que mudou na vossa relação com o Baixo Alentejo ao longo destes cinco anos, e o que permanece como núcleo irredutível do projeto?

Ao longo destes cinco anos, a relação do Futurama com o Baixo Alentejo tornou-se mais enraizada. Se no início havia um movimento de aproximação e descoberta, hoje existe um conhecimento mais sólido, construído a partir de relações de confiança, continuidade e colaboração efetiva com os parceiros locais, os participantes e os artistas. O projeto deixou de ser apenas um acontecimento pontual para passar a integrar dinâmicas locais, acompanhando processos e criando ligações duradouras.


O que mudou foi, sobretudo, a densidade dessa relação: há uma maior escuta do território, uma adaptação mais consciente às suas especificidades e um envolvimento mais ativo das comunidades nos processos de criação.


O que permanece como núcleo irredutível é a vontade de cruzar criação artística contemporânea com território e comunidade, apostando na co-criação como prática central.


Mantém-se também o foco na descentralização cultural, na valorização de contextos não urbanos e na construção de experiências artísticas que promovam reflexão e participação.


O conceito de "ecossistema cultural e artístico" é central na identidade do Futurama. O que é que essa palavra, ecossistema, implica concretamente na forma como programam e habitam o território?

Quando falamos de “ecossistema cultural e artístico” no contexto do Futurama, não nos referimos apenas a uma soma de eventos ou programação, mas a uma rede viva de relações no território.


Na prática, isso implica programar com, e não apenas para, o território. Significa envolver artistas, escolas, associações, autarquias e comunidades locais desde o início dos processos, promovendo a co-criação e valorizando o conhecimento local tanto quanto o artístico. O foco não está apenas no resultado final, mas sim sobretudo no processo, o tempo de permanência e a construção de vínculos.


Implica também pensar a programação de forma sustentável e integrada, evitando lógicas pontuais ou extrativas. Ou seja, o Futurama procura deixar marcas que perdurem: capacitação, relações duradouras, novas competências e um fortalecimento do tecido cultural local.


O festival é, em grande medida, o resultado visível de meses de trabalho invisível: residências, Artistas nas Escolas, parcerias com instituições locais. Como é que se gere essa tensão entre o processo e o produto, entre o que acontece nos bastidores e o que chega ao público?

Essa tensão existe, mas não a vemos como um problema, faz parte do próprio processo. No Futurama, não separamos muito o processo do resultado final. O Festival acaba por ser o momento em que tornamos visível um trabalho que já vem de trás, de meses de relação com as pessoas e com o território.


Com o público jovem, por exemplo, há sempre um desafio maior. Nem sempre é fácil captar o interesse ou criar um compromisso, mas tentamos trabalhar com artistas que falem a mesma “língua”, que consigam criar pontos de ligação. Depois há todo um trabalho de mediação, de ir desmontando os processos criativos com eles, para que percebam melhor o que estão a fazer e se sintam parte.


Quando chega o momento de apresentar no Festival, é normal haver alguma timidez, alguma tensão, mas isso também faz parte. O que tentamos é mostrar que o mais importante não é só o resultado final, é todo o caminho que foi feito. E quando isso acontece, o público percebe e cria-se uma ligação mais verdadeira com o que está a ver.


Esta edição inclui residências com a CerciBeja, a Universidade Sénior da ALSUD e escolas de vários concelhos. Como se escolhem os parceiros institucionais e como se garante que a colaboração artística não é apenas simbólica?

A escolha dos parceiros institucionais no Futurama parte, antes de mais, de compromisso mútuo, e não apenas de conveniência ou representatividade. Procuramos instituições que tenham uma relação ativa com o território, mas também abertura para integrar processos artísticos que, muitas vezes, desafiam rotinas, linguagens e expectativas.


Para que a colaboração não seja apenas simbólica, a mediação cultural e artística é essencial, não basta “levar” arte às diferentes geografias, é necessário contextualizá-la, torná-la significativa e envolver os públicos. Diria que é um eixo estruturante do nosso trabalho, é através da mediação que se constrói relevância e um impacto social e cultural duradouro.


A programação deste ano atravessa artes visuais, música, performance, teatro e palavra. Há um fio condutor temático ou a diversidade de linguagens é ela própria a proposta?

A programação afirma-se pela diversidade de linguagens, mas essa diversidade não é aleatória, há um fio condutor claro, que passa pela relação dos processos criativos com os contextos locais. Procuramos valorizar o capital simbólico do Baixo Alentejo, promovendo novas criações inspiradas e desenvolvidas a partir do território.


Por exemplo, a instalação artística que vamos inaugurar em Mértola, da artista plástica Ana Baleia, desenvolvida com os alunos do polo de Algodôr da ALSUD / Universidade Sénior de Mértola, parte da memória da antiga indústria têxtil da freguesia. Utilizando materiais têxteis descartados, que ganham nova vida, a obra constrói-se em torno dos temas da “horta”, do “jardim” e do “quintal”, evocando também as festas do mastro, muito presentes na identidade local.


Sara Inês Gigante apresenta em Beja Popular, um espectáculo sobre os limites entre cultura de elite e cultura de massas. Esse é também um território onde o Futurama se move: levar práticas artísticas contemporâneas a geografias que raramente as recebem. Como pensam essa responsabilidade?

O Futurama assume muito esse compromisso de descentralizar a cultura e de criar um acesso mais democrático, mas para nós não é só uma questão de “levar” arte contemporânea a sítios onde ela não chega normalmente.


O mais importante é criar condições para que essas propostas façam sentido para as pessoas. E isso, acreditamos, faz-se com trabalho no terreno.


Esse lugar entre cultura de elite e cultura de massas interessa-nos muito, precisamente porque é um espaço de encontro. Não estamos a impor nada, estamos a criar diálogo.


No fundo, a nossa responsabilidade é essa: não só ampliar o acesso, mas garantir que esse encontro é relevante, que as pessoas se reveem, questionam e participam.


O Futurama acontece em três concelhos com realidades muito distintas: Beja, Mértola, Alvito. O que é que cada um desses lugares exige de vocês como programadores?

Cada um destes territórios exige de nós uma escuta atenta e uma capacidade de adaptação às suas especificidades. Apesar de partilharem o mesmo contexto regional, Beja, Mértola e Alvito têm dinâmicas sociais, escalas e relações com a cultura bastante distintas.


O que nos orienta é precisamente essa diversidade: trabalhar a partir das características de cada lugar, valorizando a proximidade entre as pessoas e criando condições para relações mais profundas e processos continuados. É nesse contexto que as práticas culturais funcionam como fio condutor, permitindo desenvolver projetos ajustados a cada território.


Em conjunto com os municípios parceiros, procuramos promover a literacia cultural e o pensamento crítico, criar oportunidades de capacitação e garantir que o Festival Futurama funciona como um momento agregador, não apenas como um evento, mas como culminar de um trabalho de proximidade desenvolvido ao longo do tempo.


O Espaço Futurama, em Beja, funciona como centro permanente ao longo de todo o ano. Qual é o papel desse espaço na sustentabilidade do projeto para além dos dias de festival?

O Espaço Futurama celebra este mês um ano desde a sua abertura e tem sido fundamental para a continuidade do projeto ao longo do ano. Foi criado como um polo de dinamização cultural e artística no Baixo Alentejo, com uma programação regular que inclui formação artística, workshops, debates e exposições temporárias.


Para além disso, revelou-se uma verdadeira porta de entrada para o território, permitindo estreitar relações com parceiros, trabalhar em rede e desenvolver um trabalho de maior proximidade.


É esse enraizamento e essa presença contínua que garantem a sustentabilidade do Futurama, afirmando-o como um projeto cultural ativo ao longo de todo o ano.


O que é que este projeto te ensinou sobre a relação entre arte contemporânea e comunidade que não aprenderias de outra forma?

Como alentejana, sempre senti a necessidade de afirmar que Portugal não se esgota em Lisboa e no Porto, reconhecendo o potencial vasto e diverso existente em inúmeros territórios do país. Acredito profundamente na importância de tornar esse potencial visível, trabalhando a partir das comunidades, despertando nelas um sentimento de pertença através do património cultural e artístico e criando condições para que possam desenvolver a sua criatividade e encontrar caminhos de inovação.


A minha formação base é na área do património cultural e estive envolvida em vários projetos com uma forte componente educacional e de aproximação das pessoas ao património. No entanto, o Futurama permitiu-me aprofundar essa experiência, mostrando-me que a arte contemporânea pode ser uma ferramenta muito eficaz de mediação, capaz de gerar diálogo, participação e transformação, sobretudo social.  

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