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Há um Macbeth que arde no Teatro Nacional em pleno espetáculo - episódio real que alimentou a superstição em torno da "peça escocesa" - e há um Macbeth que se filma a si próprio, ao vivo, para um público que já não distingue observar de validar. É este segundo que o SillySeason leva ao Capitólio, de 21 a 25 de julho, depois de uma antestreia em maio no Teatro Cine de Gouveia.
Na leitura do coletivo, Cátia Tomé, Ivo Saraiva e Silva e Ricardo Teixeira, em palco com Ana Moreira, Patrícia Bruheim e Rafael Carvalho, a ambição desmedida de Macbeth deixa de se jogar apenas no trono e passa a jogar-se na câmara: ter visibilidade é ter poder, e essa visibilidade, antes reservada a poucos, migrou para as lives, stories e plataformas onde todos partilhamos uma intimidade sempre manipulada. É essa lógica de reality show, o Eu que só existe quando é testemunhado, que os SillySeason cruzam com o texto isabelino, entre operação de câmara ao vivo e um público colocado, deliberadamente, no papel de testemunha.
Não é a primeira vez que o coletivo, ativo desde 2012, revisita um clássico para falar do presente. Já o tinha feito com Antígona e Rei Édipo. Falámos com os SillySeason sobre esta nova incursão, sobre a coincidência de partilhar o ano com outro Macbeth, em cena no D. Maria II, e sobre o que resta de ambição, violência e alienação quando o palco se torna espelho.
Porquê Macbeth agora, e porquê através da lógica de um reality show?
Shakespeare apresenta-nos um Macbeth que quer muito ser rei e que faz de tudo para conseguir o poder. Não tem ética e despreza quaisquer valores. Ele mente, mata e obriga. É um retrato fiel do tirano. No Macbeth dos SillySeason, há também uma busca desenfreada por uma visibilidade que a contemporaneidade impõe, porque ter visibilidade é ter poder. Esta visibilidade que antes era reservada a alguns circuitos, já pode ser alcançada através das nossas casas, através de variadas plataformas digitais. Ou seja, a lógica do Reality show, que é alguém predispor-se a partilhar o seu íntimo, migrou para as nossas lives, as nossas stories, os nossos snaps, e por aí fora. Eu partilho a minha intimidade pela minha mão, uma intimidade manipulada, sempre, com mira na visibilidade. O preço da minha visibilidade é a minha intimidade manipulada. Invariavelmente, isso faz de nós todos Macbeth. O caso atual desta visibilidade ter-se democratizado, por um lado, e, por outro, impulsionar os confrontos hostis dos reality shows e os discursos de ódio propagados através das plataformas digitais, pareceu-nos um caso urgente a ser debatido através de um texto clássico que dedilha as mesmas questões. Macbeth é um clássico precisamente por isso, porque continua atual ou, antes, porque ainda nada mudou. Era ótimo que o clássico "se desatualizasse".
O que é que a estética dos reality shows do início dos anos 2000 tem que o texto de Shakespeare não tinha para falar de ambição e poder?
Os reality shows acabam por inaugurar uma nova linguagem, análoga ao “estar em cena” em Macbeth: um Eu discursivo amplificado pela consciência permanente de estar a ser observado, isto é, filmado. Essa autoconsciência conduz os participantes à adesão a um jogo de influência, popularidade e manipulação, no qual quase tudo parece legítimo para alcançar o prémio final. Neste contexto, emerge um metadiscurso que já não é construído por personagens ficcionais, mas por indivíduos reais que assumem a sua própria existência como um papel a desempenhar. O quotidiano transforma-se, assim, no palco onde a vida é continuamente encenada.
A sinopse fala de um público "voyeur". Como é que isso se traduz em palco, na forma como olham para os atores e eles para o público?
O espetáculo também é sobre uma distribuição de papéis contemporâneos, sejam eles sociais ou políticos ou teatrais. Ao público desta peça é dado um papel de testemunha do evento ao vivo e de todas aquelas figuras. O teatro só acontece se alguém estiver a assistir, a testemunhá-lo, e esta noção é transferida para uma ideia de identidade segundo a qual uma pessoa só existe no momento em que há outras pessoas a testemunhar, a validar essa experiência. A pessoa só acontece se tiver visibilidade. Ou seja, o público sabe que está a ter o poder de validar aquelas figuras e que elas estão a manipular imagens e palavras para comunicar com ele. Este jogo entre intérpretes e público é mantido ao longo de todo o espetáculo.
Já tinham revisitado clássicos antes (Antígona, Rei Édipo). O que muda quando o ponto de partida é o Macbeth?
Os clássicos gregos debruçam-se sobre a cidade, a polis, debatem como se constrói uma comunidade que dê conta de todas as pessoas, enquanto os clássicos isabelinos centram-se no humano e na sua natureza que, à partida, é vil e cruel. Parece-nos que uma especulação sobre Macbeth começa por um entendimento dessa banalização da violência e por uma inacreditável consciência desses atos violentos por quem os pratica e por quem os dá a ver. Não há paradoxo, assiste-se antes a visões unilaterais do mundo, e essas visões são violentas, as mesmas que Macbeth vê no início da peça. A par desta conscientização de uma circunstância violenta atual, observa-se uma alienação coletiva. Sabemos o que está a acontecer, mas demitirmo-nos de pensar, de interferir, de enfrentar. A percepção desta circunstância contemporânea é muito dolorosa.
Há um outro Macbeth a estrear este ano no D. Maria II. Pensam nesta coincidência como um problema ou como uma oportunidade de mostrar duas leituras possíveis do mesmo texto?
Aguardamos com grande expectativa esta nova encenação, sobretudo por acontecer num espaço tão carregado de memória e significado. Na nossa proposta cénica evocamos um episódio marcante da história do teatro português: o incêndio do Teatro Nacional durante uma representação desta célebre “peça amaldiçoada”. Macbeth — ou, como dita a superstição teatral que se recusa a nomeá-la, “a peça escocesa” — permanece envolta numa mitologia própria que atravessa séculos e encontra um eco singular na nossa própria tradição teatral. Conhecendo o rigor conceptual e a sofisticação estética que caracterizam as encenações de Pedro Penim, é inevitável querer acompanhar também o seu olhar sobre este texto.
O trabalho do coletivo tem sido descrito como uma reflexão constante sobre a noção de crise. Onde é que Macbeth encaixa nessa linha?
Macbeth parte de uma crise de identidade que desagua numa crise política. Aliás, estão as duas relacionadas, os conflitos mundiais mostram-nos isso. O que acontece num contexto particular tem influência num contexto universal, e vice-versa. O facto de, nos dias que correm, assistirmos a identidades que, na força de se tornarem válidas, recorrem a vícios machistas e misóginos, homofóbicos, racistas, excludentes do outro, e os propagam como uma tendência contemporânea bestial, tem implicações na forma como as sociedades operam. Os dias tornam-se perigosos. Neste espetáculo, a besta torna-se bestial, e besta outra vez.
São três a assinar direção e criação, mais um elenco alargado. Como é que se decide, em coletivo, até onde vai a ambição de uma personagem em palco?
Nós não fazemos personagens na aceção clássica do termo, ou pelo menos tentamos não o fazer. Estas figuras que aparecem em palco têm ambições comuns. Parece-nos que o limite está na gratuitidade com que essa ambição e violência são experienciadas em cena. Trabalhar sobre ambição, em vez de esbater limites, é estabelecê-los.
O espetáculo estreou em Gouveia, num teatro mais pequeno, antes de chegar ao Capitólio em Lisboa. Essa mudança de escala alterou alguma coisa na peça?
O espetáculo já foi pensado e criado para ter a maleabilidade de se inserir em distintas arquiteturas.
Que peso tem a imagem vídeo ao vivo nesta encenação?
O namoro entre o teatro e o vídeo é uma relação que temos investido em vários projetos, já há alguns anos. Temos feito várias experiências que têm contribuído para um discurso da imagem filmada cada vez mais sólida. Neste Macbeth, concentramo-nos na ideia de manipulação, isto é, no gesto da câmara de filmar que pode manipular uma narrativa ao captar uma dada imagem: privilegia certos elementos em detrimento de outros. Este gesto faz com que o vídeo conduza uma discurso para o público, ao mesmo tempo que o seduz.
O texto do dossier diz que "qualquer semelhança com o atual escrutínio político não é coincidência". Que exemplo concreto do presente estava na vossa cabeça quando escreveram isto?
Preferimos que o público venha ver e que tire as suas próprias conclusões. :)
Foto: © Alípio Padilha
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