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Thiago Lacerda em Portugal: três vozes, um só palco

Por

 

Pedro Mendes
29 de Novembro de 2025

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Thiago Lacerda em Portugal: três vozes, um só palco

Thiago Lacerda chega a Portugal com um regresso que é também um reencontro. Depois de ter passado pelos palcos nacionais há duas décadas com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o ator volta agora com Quem Está Aí?, um monólogo que reúne fragmentos decisivos de Hamlet, Medida por Medida e Macbeth. É um exercício de proximidade radical com Shakespeare – apenas uma mesa, uma cadeira e a palavra – resultado de uma parceria artística de mais de 13 anos com o encenador Ron Daniels, com quem já percorreu este universo trágico em diferentes montagens.

Em cena, Lacerda habita três figuras marcadas por dúvida, poder, ambição e fraqueza. Hamlet suspende a vingança para confessar incertezas, Ângelo expõe a própria corrupção moral, Macbeth encara a morte com o peso da culpa às costas. A proposta é simples no dispositivo e enorme no impacto: levar o espectador ao centro da interioridade destes homens, onde a imaginação e o conflito são motores de humanidade. Em Lisboa e no Porto, o público tem a oportunidade de testemunhar este gesto de despojamento cénico que procura fazer ouvir Shakespeare no aqui e agora.

À conversa com o Coffeepaste, Thiago Lacerda fala sobre a construção deste espetáculo, a relação de longa duração com Ron Daniels, o espelho que o Bardo ainda hoje lhe devolve e as razões pelas quais continua a mergulhar em textos que expõem, com crueldade e beleza, aquilo que somos.

Como nasceu a ideia de transformar estes três monólogos de Shakespeare num só espetáculo?
As três peças contidas na nossa experiência do 'Quem Está Aí?' são as três peças que nós fizemos juntos, eu e o Ron Daniels. Nós fizemos em 2012 uma montagem do Hamlet, em 2015 uma montagem do Medida por Medida e do Macbeth.

Na circunstância da pandemia, com a necessidade de encontrar um monólogo para o formato online em uma semana, o que a gente tinha era condições de reunir esses monólogos, acrescentar entre esses monólogos alguma narração das fábulas para inserir um pouco a plateia no contexto das peças, e assim nós fizemos.

Então, na verdade, o critério era o critério de que nós tínhamos em repertório as três peças, né? E por isso, em função do tempo necessário para montar o que a gente precisava, a melhor saída era realmente reunir os monólogos dessas três peças que nós tínhamos feito e tínhamos em repertório.

Como é que este formato minimalista - apenas uma mesa e uma cadeira - transforma a tua relação com o texto e com o público?
Existe uma proposta muito clara do Ronaldo e minha na direção da clareza e da simplicidade, da potência da palavra shakespeariana.

Nesse sentido, a ideia de limpar a experiência de recursos acaba transformando essa relação de intimidade de uma forma muito potente. O resultado da limpeza cênica, o resultado de se abrir mão de recursos cênicos, é direcionar o foco da plateia única e exclusivamente para o que está sendo dito, para a palavra e para a imaginação shakespeariana.

Já trabalhas com o Ron Daniels há mais de uma década. O que distingue esta parceria e o que ainda te surpreende nela?
Eu ouço falar do Ron Daniels em 2001, quando eu tinha logo... recém feito Terra Nostra, durante o processo da novela, quando o Ron foi montar o Rei Lear com o Raul Cortez no Brasil, em 2001. Naquela ocasião eu quase fiz essa montagem, mas não aconteceu.

8 anos depois eu me encontro com o Ron... na verdade 11 anos depois, eu me encontro com ele para o nosso Hamlet.

Sempre acreditamos... sempre reconheci no Ronaldo um grande parceiro e um grande mestre.

Quem Está Aí?” convida o público para uma relação íntima com Hamlet, Ângelo e Macbeth. O que te atraiu nesse mergulho na interioridade destes personagens?
Eu acredito que a provocação shakespeariana pega a gente num aspecto humano mesmo. Todos nós nos reconhecemos nos conflitos do Hamlet, na hesitação... nos conflitos do Macbeth, no medo, na imaginação…

A questão do homem diante do poder, o homem sentado no trono. A questão da precariedade, da dúvida, do medo. E ao mesmo tempo da sabedoria, da imaginação, da criatividade.

Eu acho que tudo que nos diz respeito, todos os nossos conflitos e as nossas reflexões a respeito de quem nós somos, está contido nas peças que o Shakespeare nos oferece. Nessas três - o Hamlet, o Macbeth e o Medida por Medida - não é diferente.

Shakespeare é conhecido por revelar as sombras da condição humana. Que espelho te oferece ele hoje, enquanto ator e enquanto pessoa?
Eu imagino que o tempo inteiro seja possível a gente associar a provocação humana que o Shakespeare propõe para os dias de hoje. Se a gente for imaginar as circunstâncias de guerra, as circunstâncias da corrupção, as circunstâncias da contradição humana, da precariedade humana, está tudo em Shakespeare.

Então, naturalmente, a gente pode associar essa provocação aos dias de hoje, sem sombra de dúvida, especialmente no Brasil, mas não só no Brasil. Eu acho que essa é uma... é uma circunstância comum a todos nós.

O espetáculo é apresentado pela primeira vez em Portugal, e é também a tua primeira vez em palcos portugueses. Que significado tem para ti esta estreia?
Na verdade não é bem uma estreia nos palcos portugueses. Eu tive uma temporada em 2004, 2005, se não me engano, de uma montagem que nós fizemos do Evangelho Segundo Jesus Cristo, da obra do Saramago.

Portanto, eu já tenho uma experiência em cena aqui em Portugal, imagino bem o que... o que a gente pretende encontrar. Uma plateia sempre atenta, sempre envolvida com o objeto artístico.

Então, na verdade, é um retorno a Portugal com o nosso teatro, com o nosso trabalho. E a expectativa é imensa e a melhor possível.

Há algo de confessional nestes monólogos, quase como se os personagens falassem diretamente de ti. Sentes isso em cena?
Eu acredito que todo ator em algum momento se encontra com a obra do Shakespeare. Para mim foi natural quando eu comecei a minha carreira me interessar pela obra do Shakespeare. Naquele momento era um estudo necessário de um ator jovem começando a carreira, querendo conhecer as peças e tudo mais, até que em 2012 eu me encontro com o Ron Daniels. E a montagem do nosso Hamlet transforma a minha carreira, inicia a nossa parceria que já dura há 13 anos.

E claro, me apaixonei, me envolvi verdadeiramente com a importância da obra, com a beleza das peças, com a qualidade da investigação humana contida nas peças do Shakespeare. Tudo isso em parceria, essa descoberta toda em parceria com o olhar de um grande mestre no que diz respeito ao Shakespeare; a própria carreira do Ron, o currículo dele conta isso pra nós.

Esse processo é um misto de necessidade técnica, artística, com curiosidade humana, com circunstâncias profissionais. E o resumo disso é que já são 13 anos de pesquisa, de um trabalho em torno da obra e do pensamento shakespeariano e que dessa vez a gente tem o prazer de levar para Portugal.

Trabalhaste com textos de Shakespeare e também com “A Peste” de Camus. O que procuras, como artista, nestas obras tão intensas e existenciais?
Sim, a possibilidade de trazer a adaptação da Peste é um projeto concreto nosso, essa vinda a Portugal também faz parte dessa ideia. E se tudo caminhar bem, no ano que vem nós voltamos a Portugal e quem sabe não só a Portugal, mas outros países também de língua portuguesa, com essa adaptação da obra eterna do Albert Camus.

O projeto é itinerar pelos países de língua portuguesa, sem exatamente um itinerário definido, mas fazer em Lisboa, fazer no Porto, quem sabe entrar para dentro de Portugal com o espetáculo. Quem sabe visitar Angola novamente, quem sabe ir a Cabo Verde, Moçambique e tantos outros lugares por onde a gente se sinta desafiado a levar o pensamento existencialista do Camus por aí.


Foto: © Marcelo Elias

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