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Tita Maravilha: "Há vida além de um espetáculo"

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Ana Grebler
20 de Maio de 2023

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Tita Maravilha: "Há vida além de um espetáculo"

Entre linguagens e espaços transitórios, o processo e a transformação tornam-se protagonistas. Graduada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília, Tita Maravilha é uma artista que se movimenta entre os circuitos independente e institucional, dissolvendo fronteiras. Nesta entrevista, Tita fala sobre sua prática, atuais projetos, e experimentações que cruzam vida e espetáculo.

 

Seu trabalho materializa um encontro entre o teatro, a música e a performance. A transversalidade está, não só no cruzamento de disciplinas, como também na conexão entre arte e vida presente em sua obra. Como percebe essa relação multidisciplinar e o encontro entre a experiência cotidiana e a prática artística? 

Costumo brincar que, enquanto criadora, sou uma inventora de universos. Quase numa estrutura de pós linguagem. Pensar por que me tornei uma artista ativista híbrida? Primeiro, acho que pela necessidade de borrar algumas bordas do normativo, pela própria experiência de quem sou, mas também dentro das linguagens. Não sou uma coisa só e não posso ser uma coisa só. As referências que me interessam são de diversas fronteiras. São para além das fronteiras. E realmente, pensar que a cultura não é estática. Me interessa muito repensar as tradições, o que é tradicional, e entender que o processo está sempre em constante transformação. Acho gostoso pensar que o teatro é uma excelente porta para as artes e que isso é a base da minha profissão. É o lugar que escolhi direcionar o meu olhar, e é uma base realmente transformadora. Não é terapia, mas pode ser muito terapêutico o processo, principalmente enquanto base de conhecimento. E quando, dentro da universidade, vou entendendo e me debruçando no que é a performance, foi ali que veio o primeiro fascínio. Enquanto o teatro parecia muito convencional, a performance borrava todos os padrões de linguagem, quase nessa ideia de que tudo podia ser performance. Isso me interessa muito. Sinto que no processo de composição em vida e em obra, preciso estar sempre em movimento, e o olhar precisa estar aguçado. Quando venho, em 2018, para Portugal, começo a criar minhas primeiras obras. No início, era confuso entender o que estava fazendo, numa exigência de tentar colocar ainda dentro de caixas, enquanto na verdade eram cinco ou seis linguagens misturadas. É um concerto, mas é performance, é poesia, é escrita autoral, é imagem. E as pessoas com quem vou me encontrando, como o projeto Trypas Corassão, a partir do meu encontro com a artista Cigarra, e como foi potente e transformador para mim.

 

Percebemos a presença da construção coletiva em suas obras, como em Tita no País das Maravilhas e Precárias, festival de performances realizado na Rua das Gaivotas. Como foi a experiência de atuar na curadoria do festival? 

Cada vez mais, percebo o meu trabalho como um processo de coletividades. Voltando a pensar sempre que preciso entender a importância desse corpo, dessas subjetividades, para conseguir compartilhar em coletivo. Em Tita no País das Maravilhas, a equipe fica toda à mostra no espetáculo. Não quero gerar a ilusão de que estou sozinha, então mostro cada pessoa da equipe fazendo o que faz. Foi um trabalho importante por isso, por uma perspectiva coletiva. Quando chego na proposta de Precárias, que aconteceu em novembro de 2022, na Rua das Gaivotas, a partir do projeto Artista no Bairro, onde tive o apoio do Self Mistake, Plataforma 285, Cão Solteiro e Rua das Gaivotas, o desafio era para mim mesma. De como, primeiro, entender que há vida além de um espetáculo. Não consigo mais perceber onde vida e arte se separam e não me interessa muito entender onde está o fim. Esse processo de curadoria foi muito importante e desafiador, porque me ajudou a recortar também o olhar de onde estou vendo minhas referências. Precárias é um recorte de performances e de pessoas que são referência para mim, que estão vivas e compartilhando o mesmo tempo que eu. Numa perspectiva de fortalecer esse olhar, dentro de um processo de curadoria, compreendendo que corpas queer, corpas trans não binárias, corpas LGBTQIA+, mulheres, pessoas racializadas, imigrantes, têm o seu recorte específico dentro da história da arte. Essa criação de curadoria, que tenho chamado de curadoria afetiva, é mais do que só um lugar de composição, de olhar direto, e sim um recorte subjetivo de desejo. Para onde levar o olho, mostrar possíveis novos lugares. 

 

Ainda sobre Precárias, em que traz o conceito da falta de acabamento como sofisticação. Esta linha se relaciona a uma espécie de metodologia do improviso

Não que eu chegue já com uma metodologia pensada, mas no processo, essas coisas vão virando metodologia. Fracasso pode ser extremamente pedagógico. O erro, insistiremos como uma pedagogia. A falta de acabamento, nunca no sentido de mal-feito, mas no sentido realmente estético, como uma decisão. Agora estou entendendo que tenho um interesse radical em interagir a partir do humor. O humor é matemático, mas ele não é uma forma finita. Ele não tem uma lógica direta, é tentativa e erro. E pensar dentro do que se pode mudar. Acho que existe uma busca no processo contemporâneo pela vulnerabilidade, uma palavra que se torna mágica e que é um desafio para mim. Citando MC Carol, “Minha fragilidade não diminui minha força. Então, como construir dentro desses dois contrapontos, para gerar emoção dentro da performance? Realmente reconhecer que, para que aconteça, eu preciso estar viva e preciso estar proponente. Se estou insegura, é essa que levo. Me interessa muito mais expor o processo como também uma potência. Por isso, muitas vezes também estou dentro da minha obra, comentando a obra. 

 

Você foi contemplada com o prêmio da quinta edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, com o projeto As Três Irmãs. Uma reinterpretação do clássico do Tchékhov, que estreia nos dias 12 e 13 de maio, no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo.

 É um momento importante para mim, num lugar de condição individual e, também, num caminhar coletivo, dessa equipe que se forma. Uma bolsa importante e um momento em que lembro de voltar para as aulas de teatro. Tinha algumas ideias. Se remontasse um clássico, seria As Três Irmãs, exatamente por ter sido uma das peças mais montadas do mundo, uma peça importante para a história do teatro. A minha estratégia é um golpe narrativo, acho que o meu toque vai ser suave e que, de alguma forma, se espera uma quebra. É uma readaptação, onde algumas estruturas ficam ali impressas. Ainda não sei muito bem onde quero chegar, mas consigo compreender algumas texturas. A primeira coisa é repensar a ideia de um interior. Nesta estrutura: pessoas trans, que vivem no interior e o desejo é voltar para Moscou, sua Terra Natal. Vou recortar com o meu olhar, de quem é do interior do centro-oeste brasileiro, ao mesmo tempo buscando como compartilhar essas referências de um interior em Portugal. Então, no espetáculo fala-se de Rússia, parece Brasil mas é em Portugal, porque é onde a gente está. Outra transfiguração é que a maior parte daquelas personagens, o grande sonho delas é trabalhar, porque elas vêm de famílias burguesas, dentro de uma estrutura militar, onde as três irmãs, Olga, Maria e Irina, estão completamente desprotagonizadas. Acho que tem um lugar muito localizado do que era a mulher na sociedade. Me interessa revisitar quem são essas três irmãs e a possibilidade de inseri-las no mundo contemporâneo, onde as coisas já mudaram. Repensar no passo de um pensamento feminista, de um pensamento queer. Numa realidade mais próxima da minha. Então, elas são imigrantes e estão em lugares transitórios. E trabalham muito, têm vários subempregos, e pagam uma renda cara em Lisboa. Também repensar como algumas coisas não mudaram e que, dependendo do seu recorte social, a sua experiência vai ser diferente. E poder brincar com a diversidade dessas performances, sabendo que vou estar lidando com Luan Okun, com a Ivvi Romão e com a João Abreu, pessoas de nacionalidades diferentes, identidades diferentes, subjetividades diferentes. As personagens vão servir de base para alguma conexão, mas realmente adaptá-las, se essas três pessoas fossem irmãs. E por aí repensar todo o conceito de família que foi gerado tradicionalmente, e pensar agora nesse lugar de que família se constrói. Não se nasce família, torna-se família.

 

O filme Pirenopolynda, em que você retorna à sua cidade de origem no Brasil, Pirenópolis, no interior de Goiás. Pode contar um pouco sobre? Há previsão de lançamento?

Estamos finalizando os últimos processos. Este é um dos projetos da minha vida, que é essa volta ao Brasil depois de ter vivido várias coisas, e no qual tive o suporte de uma equipe de amigas do audiovisual no Brasil. Pirenopolynda é um trabalho de uma busca ancestral dentro dessa cidade que se chama Pirenópolis, no interior de Goiás, através do meu fascínio e de como eu vibro a partir da festa tradicional da minha cidade, a Festa do Divino Espírito Santo. Festa de tradição cristã mesclada, uma festa entre o sagrado e o profano, com muitas releituras de ideias e festividades que aconteciam na Europa. Portugal, Espanha e França. Numa cidade (Pirenópolis tem 283 anos) que, durante todo esse tempo, está sendo refeita a partir do processo colonial. Pirenópolis foi uma das primeiras cidades erguidas no ciclo do ouro, erguida por pessoas escravizadas. Me interessa voltar, enquanto pessoa trans, num lugar onde as tradições foram todas meio que divididas e subdivididas, num processo normativo de lugares para meninos, lugares para as meninas ocuparem, no qual eu nunca pude participar. Depois, quando criei a autonomia de entender que essa tradição também é minha, e que sempre vibrei com a música, com as cores, com a peça, com a missa... Aos poucos, fui entendendo que essa possibilidade também era minha. E me propus a adentrar em todos os sonhos de infância que não realizei em relação à Festa do Divino Espírito Santo. Me assumo como uma filha da divina Espírita Santa, e vou em busca das minhas memórias. A gente considera que é um documentário, mas é um documentário dentro dos meus sonhos, porque nem todas as coisas aconteceram. Elas acontecem, de fato, a primeira vez dentro do filme. Criamos toda uma lógica onde eu visto algumas personagens e lendas. O filme também é para provar que todo mundo tem, ou deveria ter acesso, e pensar essa festa como um patrimônio imaterial. Que, como o fluxo da história consegue dizer que algumas coisas são, ou não são, para algumas pessoas. E utilizo algumas coisas que me interessam, como pensar as festividades tradicionais.

 

Beleza Como Vingança, título do EP das Trypas Corassão, seu projeto com a artista Cigarra. Pode falar sobre este conceito e sobre o projeto?

Beleza Como Vingança se torna esse álbum, mas ele é um processo híbrido dentro do que foi a criação de Trypas Corassão. Fomos fazendo e movimentando muita coisa nesse encontro entre a música e a performance. Beleza Como Vingança é um mix de sonoridades, de referências minhas e da Cigarra, que não necessariamente precisam estar estruturadas em algo que faça sentido. É um álbum e uma ideia que é feita para confundir, e que está transbordando de desejo, de raiva, de tesão, de amor. Um som que pode se revelar ser intenso, ao mesmo tempo que é um abraço em comunidade. No sentido de que a nossa visão de som e de performance não é estática. De que vamos sempre aprender com o que está surgindo agora, ao mesmo tempo que com coisas que amo e que nunca saíram de mim desde a infância. Isso é um exercício que eu e a Cigarra fazemos muito dentro de Trypas Corassão, misturar para compreender. Dentro de um conceito que amarra isso e que veio do Brasil comigo para Portugal. Vingança. Foi a primeira palavra. Beleza. Felicidade como vingança. Nos vingaremos sendo felizes. Beleza Como Vingança vem do mesmo jeito que nas linguagens que trabalhamos dentro da música enquanto ideia, para provar que a beleza não ficará estática. A beleza não é e não será uma beleza branca, magra e cisgênera. A beleza realmente é diversa e precisamos espalhar esse pensamento para conseguir borrar e re-compreender essa beleza. Pode ser que a beleza esteja localizada também na nossa monstruosidade e em lugares não tão acessados. Nessa nova fase do meu trabalho, que é o Proteja suas Subjetividades, o que está inserido é: guarde contigo o que é intransferível. E a beleza muito mais nesse lugar subjetivo, um lugar que vem de dentro para fora e que vai ser construído além dos padrões da norma.

 

Uma cena potente de artistas queer e imigrantes, que trazem esse hibridismo entre música, performance e arte contemporânea, tem se formado e ocupado cada vez mais espaços em Portugal.

 Acredito que vivemos um momento de potência criativa em Portugal, onde o caldeirão se mistura realmente, do que está sendo produzido por pessoas portuguesas e pessoas residentes em Portugal, mas que vêm de diversos lugares. Acho que a gente tem que se abrir e permitir que essa fusão aconteça. Entender esse deslocamento e reconhecer, dentro do que foi a colonização - todo o meu processo em arte se coloca enquanto uma proposta anticolonial -, que esse pensamento tem muita coisa que precisa ser revista e precisa morrer. O Brasil precisa transicionar, Portugal precisa transicionar. Os ideais precisam transicionar. As fronteiras precisam transicionar e deixar de ser tão óbvias. Por que é que pertenço e caibo em um lugar, e em outros sou ilegal? Reconhecer esses parceires é muito importante, saber que a caminhada nunca foi feita sozinha. Portugal, neste momento, é um campo fértil. Ainda que alguns lugares possam precisar de readaptações de pensamento. Mas acredito que fazemos isso em movimento e provando que é possível e que já está acontecendo. A gente não pode ficar presa no passado e também não podemos deixar esse futuro num lugar longe. Já sinto saudades do futuro, de coisas que ainda nem aconteceram. O mais importante é estar com um pé lá e outro cá, nesse processo ancestro-futurista. O que está no meio? Trago todas as outras pessoas que já fizeram por mim e que permitem ser o que eu sou hoje, a artista que sou hoje, a pessoa que sou hoje. E movimenta um futuro para que outras pessoas possam vir com mais tranquilidade e dignidade. Recorto meu pensamento também com outras artistas, para mim é importante a leitura da Jota (Mombaça). De pensar o Não Vão Nos Matar Agora. Como um espaço de recusa mesmo, ressaltar que a nossa resistência é importante. E no futuro, como na metáfora da transição, não existe um lugar de chegada.


“Não é que me interesse estar na margem, mas que a estética marginal persista, independente dos espaços. Estar nos espaços do chamado underground e, ao mesmo tempo, borrar essa estrutura e conseguir transitar por todos com a mesma linguagem.”


Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Umbigo Magazine. A UMBIGO é uma plataforma independente dedicada à arte e cultura, que inclui uma revista trimestral impressa, uma publicação online diária, uma rede social virada para arte e um programa de várias atividades de curadoria.

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