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Unsafe Space Garden: "A gaveta já berrava para ser arrumada"

Por

 

Pedro Mendes
28 de Março de 2026

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Unsafe Space Garden: "A gaveta já berrava para ser arrumada"

Há bandas que chegam ao português como quem descobre uma língua nova. Os Unsafe Space Garden chegaram como quem finalmente arruma a gaveta certa. O Melhor e o Pior da Música Biológica, o quarto álbum do sexteto vimaranense, é o resultado natural de anos a acumular canções numa língua que sempre esteve lá, à espera do momento certo para sair. Um disco que quer ser curativo, no sentido mais literal do termo: biológico como os legumes do supermercado, nas próprias palavras da banda.


Falámos com eles sobre arquitectura emocional, tradição oral, abraços filmados em pátios de Viseu e a arte de ensaiar duas vezes por semana mesmo sem concertos à vista.


O Melhor e o Pior da Música Biológica é descrito como um disco onde o português se assume como matéria-prima. Foi uma decisão consciente desde o início, ou foi algo que foi emergindo naturalmente ao longo da criação?

Já existem músicas nossas em português desde 2019. Não existia era bem um contexto para as lançar até porque na altura estava a sair o “Bubble Burst”, o nosso primeiro EP. Ao longo dos anos foram surgindo mais e mais músicas apenas cantadas na língua portuguesa, então começou-se a cristalizar no nosso subconsciente a ideia de fazer um disco apenas cantado em português. Foi um processo bastante natural nesse sentido, apenas tinha de existir uma decisão relativamente ao “quando?”, e pronto, foi agora.


"FKNKU" e "Mais Uma Voltinha" parecem dois lados de uma mesma moeda, o furacão e o curativo. Como é que pensaram a sequência e a arquitectura emocional do álbum?
Queríamos que fosse um disco com “saldo positivo”, em termos de astral. Queríamos que tivesse força, que puxasse para a celebração e que pudesse provocar algum êxtase - quanto mais não seja em nós próprios. A sequência tem sempre o que se lhe diga, até à última era uma coisa que não estava totalmente fechada. As canções vão saltitando de posição ao longo do tempo e até houve uma ou outra que saltou fora. Mas no fundo procurámos um equilíbrio entre o sentido das canções propriamente ditas e a condução dinâmica que elas têm já de si. Aliámos isso à forma como gostaríamos que começasse e acabasse o disco e lá chegámos a um consenso.


O que significa exactamente "música biológica" no título? É uma metáfora, um manifesto, ou algo mais literal?
Em parte, dizemos tantas vezes a palavra “vida” ao longo do disco que naturalmente foi dar a Biologia. Depois a ideia de algo ser “biológico”, como os legumes do supermercado, tem uma conotação de saudável e curativo. Desejamos que este trabalho tenha essa função, que as pessoas ao ouvi-lo se possam sentir emocionalmente compreendidas, capazes, confiantes e com esperança. 


O coro dos Alunos de Música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos é um elemento central de "Mais Uma Voltinha". Como surgiu essa ligação e o que trouxe concretamente ao processo criativo?
A ligação surgiu do convite para fazer o Excentricidades, projecto que visa descentralizar a cultura em Guimarães. Na altura, estávamos ativamente a trabalhar com diferentes comunidades, a convite do nosso amigo Rui Souza, em projectos de criação musical que depois culminavam em apresentações públicas. Neste caso, fomos convidados a criar um espectáculo com os Alunos de Música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos e assim se deu uma ligação muito bonita que se alongou até aos dias de hoje. Depois, sabendo que íamos ter um disco em português, tivemos a ideia de os chamar e foi um reencontro muito belo ao qual eles responderam com enorme generosidade. 


Falem um pouco do trabalho que o Nuno e a Alexandra têm desenvolvido com comunidades por todo o país. De que forma é que essas experiências mudaram a vossa relação com a música que fazem?
Começou com um convite do Rui Souza para fazer uma criação com a comunidade em Ourém e em Vila Nova da Barquinha, associada ao projecto CAMINHOS, um programa de cultura em rede na região do Médio Tejo. Para além de uma educação musical vasta, ele vinha de trabalhar imenso com o projecto Outra Voz, formado em Guimarães em 2010 para a Capital Europeia da Cultura - o qual ainda hoje se mantém vivíssimo. Depois desse espectáculo formámos a estrutura Discos de Platão e fizemos vários em conjunto em múltiplos pontos do país. Foram experiências duma riqueza incalculável porque nos activaram o contacto com um arquivo de tradição oral e musical portuguesa que desconhecíamos. Para além disso, contactar com tantas pessoas diferentes, conhecer as suas formas de estar, de sentir e de pensar, a associação que têm aos seus sítios e lugares e a generosidade com que abraçavam as sugestões (muitas vezes “malucas”) que lhes dávamos é algo que nos moldou e que vamos guardar pra sempre. Tudo isso aconteceu em paralelo com a formação da banda e, naturalmente, os dois mundos entrecruzaram-se.


Há uma tensão interessante entre o psicadélico e a tradição oral portuguesa. Como é que gerem esse equilíbrio sem que um anule o outro?
O mote inicial é sempre o de fazer algo que faz sentido pra nós, que é honesto pra nós. A partir daí, seguimos intuitivamente o fio da meada e o resultado final é o que for. Nunca pensamos em que géneros podemos estar a tocar. Tentamos que a escala de equilíbrio seja no sentido que o resultado tem pra nós, em termos do que está a ser dito e de que forma está a ser suportado musicalmente.


A ideia de renascer e recomeçar parece muito presente. Foi um disco escrito num momento particular para a banda, ou para cada um de vocês individualmente?
O disco foi sendo escrito desde o início da banda porque tem músicas dessa altura (2019). Apenas por não termos um contexto para as lançar, elas foram-se acumulando. Achámos que esta seria a altura porque chegou a um ponto em que tínhamos tanta coisa na gaveta que parecia que ela já berrava para ser arrumada, não dava mais para ignorar. 


A animação 3D do Studio Sparks parece uma extensão natural do vosso universo. Como é que essa relação com o visual se constrói? A música vem primeiro, ou há uma conversa paralela desde cedo?
A música vem sempre primeiro e tudo o resto depois acontece. Neste caso, o vídeo apareceu duma ideia que o Filipe teve por causa dum abraço que demos todos antes dum concerto no pátio do Carmo’81 [Viseu]. Ele filmou esse momento, sugeriu que isso podia ser o mote para um vídeo da “Mais Uma Voltinha” e sugeriu que fosse dar a um vídeo de animação em que o abraço funciona como roldana de companheirismo e esperança. Apresentámos estas ideias ao Studio Sparks e eles foram fantásticos na concretização. 


Com o SXSW e o The Great Escape, como é que preparam um live que faça jus a um disco com esta densidade e esta sonoridade coletiva?
Nós tentamos ensaiar pelo menos duas vezes por semana sempre, mesmo que não haja concertos à vista. Isto porque a logística de tocar tudo isto tem que se lhe diga e há muita coisa que tem de ser adaptada para um registo ao vivo. É um processo denso, mas que adoramos fazer porque implica uma entrega e minúcia que nos obriga a ser melhores músicos, melhores performers e, provavelmente, melhores pessoas até. 


Foto: © Matilde Cunha

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