Podemos perder o controlo, nos quebrar, nos desgastar, nos cansar da vida
num mundo desenhado para alguns corpos e não para outros. Um desajuste
do corpo, um desacoplamento de ideias, um desenquadramento no espaço,
uma dissemelhança de identidade, um desfasamento do ser, implicam sempre
tensão e incompatibilidade. Como não nos habituamos ao mundo tal como o
conhecemos, movemo-nos, desfazamo-nos. E, para não sucumbir e persistir
na existência, esboçamos mundos diferentes. O mundo pode ser hackeado e
redesenhado a partir de um movimento de desfasamento. Por necessidade e
de forma criativa, abrimos espaços que nos deixem respirar e, no mesmo
gesto, aspiramos a outra forma de vida.
Como se libertam e criam espaço os corpos asfixiados por um mundo que
não foi desenhado para eles?
Um movimento de desfasamento pode ser uma
forma de sobreviver à pressão da produtividade e a um ideal supremacista
que não conseguimos nem queremos cumprir?
Se um desfasamento nos
descompõe mas, ao mesmo tempo, pode recompor-nos, que composições
podemos praticar a partir das nossas dissociações?
De que forma estamos a
gerar ambientes íntimos de exploração coletiva e, ao mesmo tempo, de
cuidado, através de práticas sensíveis, regenerativas e reparadoras, quando
as ficções do poder nos fazem acreditar que os nossos conflitos são
individuais?
É possível desfazer a agenda emocional heterocolonial com
histórias e formas de vida alternativas e negadas?
Nesta oficina, vamos relacionar-nos através de práticas corporais e de
movimento coletivas; leituras teóricas e conversas; práticas de desenho e
escrita.
Esta oficina é falada em espanhol - ou portunhol.
SILVIO LANG é artista da Argentina, residente em Buenos Aires. Dedica-se à
direção cénica, ao ativismo cuÍr, ao ensino artístico e à investigação em
práticas e teorias performativas do corpo. O seu trabalho artístico,
pedagógico e ativista foca-se na experimentação coletiva, através de
práticas sensíveis em públicos íntimos cuÍr. É docente em estudos de
pós-graduação e coordena espaços de formação e criação cénica de forma
autogerida.
QUILLÉN MUT nasceu em Rosário, Argentina. Dedica-se à dança e as suas
práticas oscilam entre a performance, a direção coreográfica, a pintura, o
desenho e a instalação. Fragmentar, perverter e romper a ideia de
identidades totalizantes motiva, alimenta e define a sua obra. Investiga a
relação entre o movimento e os “sentimentos baixos” — sentimentos que
podem ser indesejados, “feios” ou desconfortáveis de habitar —, em oposição
a uma visão felizista do mundo. É docente universitário e coordena oficinas
de dança experimental de forma autogerida.