E se os nossos quadros de referência no que diz respeito à ideia de libertação não forem universais, mas sim herdados? O pensamento político moderno assenta em histórias e em corpos europeus. Há muito que se pede à maioria global que teorize a sua liberdade numa linguagem alheia. Nesta conferência, questiona-se o que acontece quando deixamos de o fazer.
Com base em duas décadas de trabalho com instituições culturais ocidentais e numa década a programar cinema africano, Jacqueline Nsiah traça um percurso pessoal, que é, ao mesmo tempo, político: de ter crescido sem qualquer visibilidade nos ecrãs alemães até
à mudança para Acra para construir um espaço dedicado ao cinema pan-africano, onde as histórias africanas ocupam o centro e não a margem.
Esta é uma palestra sobre a imaginação radical, não enquanto abstração, mas enquanto prática. Sobre formas ancestrais de conhecimento que são sentidas e vividas, não apenas teorizadas. Sobre o momento em que o cinema africano mudou não só o que Nsiah via, mas também a sua compreensão de si. E sobre os mundos que nos é permitido ou que recusamos habitar.
A questão a que regressa é a de como imaginar de outra forma.
Imagining Otherwise
Ciclo de filmes com curadoria de Jacqueline Nsiah
Afronauts (2014)
Nuotama Bodomo
Na véspera da chegada da missão espacial Apollo 11 à Lua, em 1969, um pequeno grupo de sonhadores zambianos prepara-se para chegar ao espaço antes dos americanos. A curta-metragem de Nuotama Bodomo é simultaneamente uma reflexão sobre futuros africanos, um gesto de recuperação histórica e uma crítica à ideia de que a imaginação pertence apenas aos poderosos. Filmado a preto e branco, Afronauts abre este programa lançando uma questão: que mundos se tornam possíveis quando ousamos sonhar nos nossos próprios termos?
Kwaku Ananse (2013)
Akosua Adoma Owusu
Uma jovem mulher viaja dos Estados Unidos para o Gana para o funeral do pai e é conduzida ao universo de Anansi, uma figura central no folclore e na mitologia da África Ocidental, frequentemente retratado como uma aranha. Owusu entrelaça mito, memória e luto num filme que afirma a vitalidade dos saberes ancestrais. Contar histórias através de Anansi não é um gesto nostálgico, mas a reafirmação de que essas formas de conhecimento nunca desapareceram — apenas aguardavam para ser redescobertas.
The Story of Ne Kuko (2023)
Festus Toll
Quando o ativista pan-africanista Mwazulu Diyabanza entra num museu neerlandês, retira deliberadamente um objeto da exposição, sai calmamente e é detido por furto, o filme coloca uma questão fundamental: quem é, afinal, o verdadeiro ladrão? Centrado em Ne Kuko, chefe de Boma (na atual República Democrática do Congo), cujas terras e um nkisi, uma escultura sagrada, foram saqueados por um aventureiro belga por volta de 1878, este documentário, enriquecido com imagens de arquivo, acompanha as consequências duradouras de um único ato de pilhagem colonial. O objeto roubado, considerado detentor de poder espiritual, não representou apenas uma perda material, mas uma fratura profunda para toda uma comunidade. Um século e meio depois, o nkisi continua à espera de regressar a casa.
ACESSIBILIDADE
Em inglês com tradução simultânea