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A elegância como fricção: conversa com Lígia Soares

Por

 

Pedro Mendes
November 30, 2025

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A elegância como fricção: conversa com Lígia Soares

Lígia Soares chega a Dressing Room com um gesto simples e desconcertante: um vestido que consome todo o orçamento de produção. A partir daí, constrói um solo que vira do avesso a relação entre arte, luxo e consciência política. O espetáculo expõe contradições, entre ética e glamour, discurso e desejo, e usa a ficção para revelar mecanismos muito reais de legitimação, poder e desigualdade. Entre humor e desconforto, a criadora coloca o público perante o brilho e a sombra do consumo, pedindo-lhe que pense no valor dos objetos, mas também no preço que pagamos, material, social e simbólico, para existir em cena e no mundo. Nesta conversa, falamos do vestido, da ironia, do desconcerto, e dessa linha fina onde a representação se confunde com a vida.

O espetáculo estreia no dia 4 de dezembro na Escola do Largo, em Lisboa, com apresentações de 4 a 7 e de 11 a 14 de dezembro de 2025.

O ponto de partida de Dressing Room é um vestido que absorve quase todo o orçamento. O que te interessou neste gesto e que perguntas querias que ele levantasse?
Antes de mais, usar exatamente essa afirmação “o vestido custou o valor total designado para os gastos de produção deste espetáculo” para estabelecer imediatamente perante o público que estamos no campo da não-ficção. E, isso estabelecido, confrontar-me duramente e ao público com as questões éticas associadas à aquisição ou presença de um artigo de luxo ou que celebra o luxo.

A peça coloca em tensão arte, consumo e ética. Em que momento sentiste que estas contradições precisavam de ser tratadas em cena e não apenas pensadas teoricamente?
Consigo senti-lo cada vez que sinto que o reconhecimento do valor humano ainda está refém da ascensão às classes altas e que ainda se serve de sinais de riqueza material para o legitimar.

Como a criação artística, pela sua natureza pública, está também muito dependente do reconhecimento e da visibilidade, acaba por cair nessa caricata contradição que é estar a defender direitos laborais ou a chamar a atenção para comunidades invisíveis ou discriminadas, ao mesmo tempo que enverga um vestido de gala ou um papillon de um smoking ou tuxedo, não sei bem como se chama a essas casacas.

O espetáculo interroga a própria ideia de representação. Para ti, o que é que ainda faz sentido “representar” hoje?
Quando escrevi o texto tive muito presente algumas frases do Guy Debord presentes na Sociedade do Espetáculo e que me permitiram novas entradas nessa ideia de representação muitas vezes circunscrita à atividade artística ou de entretenimento.

Diria que, como noutras criações minhas, uso a ficção como um pretexto ou dispositivo para revelar ou denunciar realidades que me parecem obscurecidas. Assim problematizo diretamente a ideia de ficção como instrumento de um sistema que afeta toda a nossa sociedade afirmando que “este espetáculo é apenas a representação de uma realidade em que ninguém mas ninguém, independente da sua capacidade económica, está na posse de si ou da sua realidade”.

Nesse confronto entre estética e engajamento político, onde te situas atualmente enquanto criadora?

Normalmente é difícil ver nos meus trabalhos essa fronteira entre estética e discurso político. Contudo, neste trabalho são realmente usados como parte da dramaturgia do próprio espetáculo constituindo o próprio motivo do que é exposto. Os valores estéticos ou éticos aparecem neste espetáculo como um dilema que nos leva sempre a aproximar ou a distanciar de questões difíceis e que de uma maneira muito simples mostram como o ser humano incorpora a incongruência entre os assuntos do espírito e da sobrevivência e como isto está plasmado nas diferentes oportunidades que caracterizam as classes sociais. É, por exemplo, ironicamente afirmado que os artistas normalmente vêm de boas famílias porque têm mais acesso a sabores e objetos que lhes refinam os sentidos.

Dressing Room trabalha muito com ironia. Como é que equilibras a crítica com o humor sem diluir a carga política do espetáculo?
Normalmente olho para o mundo com a incredulidade suficiente para diluir a distância entre humor e crítica. É-me natural sentir tão fortemente o absurdo do estado do mundo que, descrevê-lo diretamente com palavras exatas já me parece uma caricatura. Por isso, gosto de escrever viajando nesse desequilíbrio entre o riso e as lágrimas, como se todo o espetáculo fosse um levar as mãos à cabeça que descrevem tanto o horror como o humor como duas faces da mesma moeda. Em Dressing Room, o facto de ver o meu corpo com um vestido de gala, o que para algumas pessoas é uma ação natural, para mim é de um ridículo atroz. E é nesse sentimento real que baseio toda a ação. Ridicularizando tanto a minha presença como o olhar do público sobre estes objetos de desejos.

O público é chamado a refletir sobre o valor simbólico dos objetos. Que tipo de reação esperas - desconforto, riso, identificação?
Aqui na verdade o espectador é convocado também a refletir sobre o valor numérico do objeto/vestido já que é confrontado com este número logo à partida. Penso que neste espetáculo o desconforto é um lugar de identificação, e que as pessoas que se sentem mais desconfortáveis com a desigualdade social e com a representação generalizada do luxo como um valor socialmente positivo, se irão sentir confortáveis com o espetáculo, como uma espécie de desabafo e, nesse sentido, pode ser um espetáculo até conciliador. De resto, imagino que o seu papel seja tornar o conforto desconfortável.

O espetáculo surge num momento em que se discute cada vez mais a sustentabilidade da criação. Este trabalho é também uma resposta às condições de produção que enfrentamos?
Primeiramente pensei que sim, que iria dar alguma resposta. Já que a sua proposta também integra essa possibilidade de economia circular em que um objeto feito para durar, pode ser veículo de redistribuição de riqueza. Essa premissa alimenta a própria peça, como uma possibilidade de reparação social e de recuperação de valores materiais que reparem os desequilíbrios do mundo - vender os vestidos a quem os veste em troca de dinheiro para comprar bens essenciais. Dois polos opostos do consumo de bens postos assim, simplificados, numa relação tão direta que se torna reveladora. Mas finalmente, achei mais sincero, terminar o espetáculo com o reconhecimento de que todos baixamos os braços e encolhemos os ombros quando regressamos ao pragmatismo das nossas vidas profissionais. Tal como, mais uma vez Debord afirmou, a nossa vida laboral é um grande espetáculo e desapropria-nos de nós próprios. Este espetáculo vem, no fim, reforçar isso. Este regresso desanimado a uma realidade em que já adormecemos todas as possibilidades abertas até ali.

Tens uma longa pesquisa sobre dispositivos cénicos que integram o espectador na dramaturgia. De que forma Dressing Room dialoga com esse percurso?
Aqui, se não fosse o olhar do público sobre este vestido e a pessoa que o enverga, nada daquilo que se passa faria sentido. A visibilidade é um fator essencial e incorporado diretamente na situação espetador/espetáculo. De resto, ele vai ser muitas vezes interpelado como corresponsável do destino do vestido que se apresenta ali, como se, tanto no vestido como no espectador, vivesse ainda a hipótese de mudar o mundo.

Para quem te acompanha há muito tempo, o que achas que pode surpreender em Dressing Room?
Eu estar bem vestida.

E, para quem te vê pela primeira vez, qual é a porta de entrada ideal para este espetáculo?
Que dei o meu melhor para juntar o glamour a um discurso politicamente engajado, que este espetáculo será uma espécie de dois em um, em que apesar de garantir vários aspetos da espetacularidade não sairemos iludidos por esta, e continuaremos a ver no teatro a função de crítica social que lhe é tão “cara”.

Foto: © Alípio Padilha

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