Conteúdos
Agenda
COFFEELABS
Recursos
Sobre
Selecione a area onde pretende pesquisar
Conteúdos
Classificados
Notícias
Workshops
Crítica
Por
Partilhar

Criado em Cascais e com ambição internacional, o Cascais Ópera tem vindo a afirmar-se como uma das plataformas mais relevantes para jovens cantores líricos em Portugal. Mais do que um concurso, o projecto cruza formação, criação de oportunidades profissionais, circulação internacional e uma relação consistente com o território e os públicos.
À frente desta iniciativa está Alexandra Maurício, diretora geral do Cascais Ópera, responsável por uma visão que conjuga excelência artística, sustentabilidade e pensamento estratégico num sector frequentemente marcado pela precariedade e pela escassez de estruturas de médio e longo prazo.
À medida que o Cascais Ópera entra na sua terceira edição e consolida parcerias, prémios e redes internacionais, conversámos com Alexandra Maurício sobre o crescimento do projecto, os desafios de fazer ópera hoje, o impacto real nos percursos dos artistas e a visão de futuro para esta plataforma que procura reposicionar Portugal no mapa lírico internacional.
Como nasceu a ideia do Cascais Ópera e qual foi o momento em que percebeste que valia a pena apostar num projecto tão ambicioso em Portugal?
A ideia nasce de um desafio lançado em 2021 pelo grande barítono Sergei Leiferkus ao pianista Adriano Jordão e a mim, desafio que nos honrou enormemente e que nos fez, imediatamente, imaginar e começar a estruturar o que viria a ser o Cascais Opera – Concurso Internacional de Canto. Surgiu com o objetivo dar palco, visibilidade e oportunidades de carreira a jovens cantores líricos internacionais, permitindo ao mesmo tempo uma maior projeção de Cascais e de Portugal no circuito mundial da ópera. Desde o início percebemos, sentimos que valia a pena apostar num projecto tão ambicioso para Portugal, que havia “espaço” para este Concurso.
Depois e à medida que fomos contactando as parcerias institucionais e os mecenas, a todos a ideia de um Concurso de Canto Internacional, a partir de Portugal, fazia bastante sentido. A ambição foi a de criar mais do que um concurso — pensámos num verdadeiro ecossistema artístico onde a formação artística, a exigência e as oportunidades profissionais coexistissem. O momento decisivo surgiu quando a resposta da Câmara Municipal de Cascais foi inequívoca no reconhecimento da mais valia para Cascais e para Portugal , a que se juntaram em seguida os nossos principais mecenas: Associação Égide, Fundação La Caixa / BPI e Fundação Millennium Bcp. Devemos destacar o apoio decisivo da Associação Égide, foi a Égide, logo depois da validação do Turismo de Cascais, que nos permitiu passar do sonho à realidade . Devo aqui referir e agradecer a Sergei Leiferkus e a Adriano Jordão, ambos directores artísticos do Cascais Ópera, pois a sua visão e experiência artística têm sido determinantes para muitas das nossa conquistas.
Nesta 3.ª edição, o concurso abriu candidaturas até 15 de janeiro e promete mais de 50 000 € em prémios e contratos internacionais. Como se construiu essa expansão dos prémios e parcerias?
Essa expansão foi construída de forma progressiva, sustentada e estratégica. As primeiras edições foram essenciais para afirmar a seriedade artística e organizativa do Cascais Ópera, permitindo criar relações de confiança com instituições, teatros, festivais e profissionais do meio operático internacional e até com a imprensa da especialidade. Esse percurso culminou, em 2025, com a integração do concurso como membro efetivo da World Federation of International Music Competitions (WFIMC) e ainda em final de 2024 fomos aceites na rede Ópera Latinoamérica (OLA), um reconhecimento que reforçou significativamente a credibilidade e visibilidade global deste Concurso. Temos aprofundado e diversificado as parcerias nacionais e internacionais, não apenas com apoios institucionais, mas com colaborações artísticas concretas. Os prémios do Cascais Ópera passaram assim a traduzir-se em oportunidades reais de carreira, incluindo contratos para apresentações em festivais, temporadas de concerto e colaborações com orquestras e casas de ópera em diferentes países. Estas parcerias são cuidadosamente selecionadas para responder às necessidades reais dos jovens cantores no início das suas carreiras, privilegiando contextos profissionais de qualidade e acompanhamento artístico. Este crescimento resulta de um trabalho contínuo de diálogo com o setor operático nacional internacional, de presença ativa em redes profissionais sempre alinhadas com a missão do concurso: apoiar o desenvolvimento sustentável de carreiras artísticas. Mais do que aumentar números, a prioridade tem sido garantir que cada prémio e cada contrato represente um passo concreto e significativo no percurso profissional dos participantes.
O Cascais Ópera é descrito como concurso e como experiência formativa. Como equilibram a vertente competitiva com a de formação artística e pedagógica?
Esse equilíbrio é central para o projeto. A competição existe e é importante, mas nunca é um fim em si mesma. Paralelamente às provas, os participantes têm acesso a masterclasses, sessões de trabalho com pianistas, maestros e profissionais do setor, bem como momentos de reflexão artística com os membros do Júri pois quando não prosseguem para a fase seguinte da competição recebem imediato feedback. O objetivo é criar um ambiente exigente, mas saudável, onde cada cantor sai mais preparado, estimulado a continuar, independentemente do resultado final. No futuro temos em mente desenvolver mais aprofundadamente a componente de formação.
De que forma o Cascais Ópera tem impactado a comunidade de Cascais (artistas, públicos e parcerias locais)?
O impacto do Cascais Ópera na comunidade de Cascais tem sido progressivo e multifacetado, estendendo-se aos públicos e às parcerias locais. Existe uma clara aposta na criação de raízes no território, envolvendo instituições culturais, educativas e sociais da vila.Desde logo a extraordinária parceria e relação mútua de confiança com a Fundação D. Luis I e com o Centro Cultural de Cascais. Ao nível artístico a OCCO - Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras tem actuado em todas as edições do concurso e em 2026 será responsável pelo concerto de abertura e da Final, através da Orquestra Sinfónica de Cascais. Este ano, aprofundamos a relação com o Conservatório de Música de Cascais com o envolvimento de jovens músicos e estudantes no nosso programas de voluntariado. Esta proximidade contribui para a formação de novas gerações e para a criação de referências artísticas de excelência no contexto local. O Cascais Ópera trabalha também em estreita parceria com associações locais, integrando uma dimensão social e comunitária no seu projeto artístico. Iniciativas como o Concerto Solidário de Verão, cujas receitas revertem para instituições como a Associação Gaivotas da Torre e o Centro Paroquial do Estoril, reforçam o compromisso do concurso com a responsabilidade social e com o apoio a organizações que desenvolvem um trabalho essencial junto da comunidade. Estas parcerias prolongam-se ao longo do ano, através de projetos de colaboração criativa e sustentável, nomeadamente na reutilização de materiais de comunicação. Ao envolver espaços emblemáticos de Cascais e ao promover eventos de acesso gratuito ou aberto ao público, o Cascais Ópera contribui para a diversificação e ampliação dos públicos da música clássica, aproximando a ópera da comunidade e reforçando a sua presença no quotidiano cultural da vila. Este impacto é também simbólico: afirmar Cascais como um território onde a ópera é viva, acessível e contemporânea, e onde a cultura se assume como um motor de coesão, educação e desenvolvimento social.
O concurso pertence a redes internacionais como a World Federation of International Music Competitions. Que oportunidades concretas tem trazido essa ligação aos participantes?
A integração nestas redes coloca o Cascais Ópera num circuito internacional de excelência, garantindo elevados padrões de transparência, rigor artístico e reconhecimento profissional. Para os participantes, esta ligação traduz-se em oportunidades concretas de projeção internacional e para o Cascais Ópera permite-nos aprender com os outros concursos e com eles estabelecer parcerias a nível de organização e de prémios. Aprendemos muito uns com os outros e nós em particular, quando nos deparamos com concurso que têm 20, 30 ou mais anos de experiência. Uma das outras redes a que pertencemos, já referido em cima, é a rede OLA e um exemplo claro destas oportunidades concretas foi a criação do “Prémio Carlos Gomes”, em parceria com o Festival Amazonas de Ópera. Este prémio ofereceu em 2025 ao cantor distinguido um contrato para a realização de quatro concertos no Brasil, integrados na programação do festival de Ópera, com atuações também em Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. Trata-se de uma experiência profissional real, que permite ao jovem artista coreano Sunu Sun contactar com novas equipas artísticas e novos públicos, e dar mais um passo no desenvolvimento da sua carreira. Por outro lado, foi e é muito importante que Portugal ofereça o prémio que leva o nome de Carlos Gomes, um dos maiores compositores brasileiros de ópera, no sec. XIX, prestamos assim a nossa profunda homenagem a Carlos Gomes e contribuímos para a divulgação internacional do seu nome.
Quais foram os maiores desafios na consolidação do Cascais Ópera como plataforma global de ópera em Portugal?
O maior desafio foi construir credibilidade internacional a partir de um país sem uma tradição contínua de concursos de ópera desta dimensão. Isso exigiu, desde a primeira edição, um elevado rigor artístico, planeamento e estratégia a médio e longo prazo, capacidade organizativa e equipas com elevado sentido de responsabilidade e grandes seres humanos. Um outro desafio foi e é o de garantir sustentabilidade financeira sem comprometer a qualidade artística, algo que só é possível com visão estratégica e parceiros alinhados com o projeto.
Olhando para as edições anteriores, que aprendizagens fundamentais surgiram e influenciaram a forma como pensam esta 3.ª edição?
Aprendemos a importância de ouvir - os participantes, o júri e os parceiros e as equipas que trabalham por dentro todos os dias na construção de cada edição. Ajustámos formatos, melhorámos a experiência dos cantores e reforçámos a componente formativa. A 3.ª edição reflete essa maturidade: é mais ambiciosa, com mais atividades artísticas fora da competição, fortalecendo a formação de novos públicos.
Como imaginas o Cascais Ópera daqui a cinco anos? Há planos para novas vertentes?
O Cascais Ópera é pensado como uma referência incontornável no circuito internacional, com uma identidade própria bem definida. Existem planos para desenvolver produção própria, reforçar programas de formação contínua e criar pontes com outras artes. Queremos reforçar e aprofundar as relações internacionais no que respeita aos futuros membros do Júri e aos prémios que ofereceremos aos candidatos. A ambição é a de que funcione como uma plataforma permanente de criação, formação e circulação artística, a componente educacional vai ser impulsionada, bem como novos prémios serão introduzidos, novos desafios para os concorrentes, desde logo a introdução, em breve, de um prémio dedicado a mulheres compositoras de ópera e mais surpresas que serão anunciadas a seu tempo.
Qual é a tua visão pessoal sobre o papel da ópera, e da música clássica em geral, no tecido cultural português atual?
A música faz parte daquilo que somos, das expressões que manifestamos, da nossa ligação aos outros. Genericamente todas as artes do espectáculo, as artes perfomativas o fazem, a música o teatro e a dança. São uma extensão nossa, individual, mas também colectiva e o mundo seria inimaginável sem arte e sem a música em particular. São melodias e ritmos que nos ligam, a música inspira-nos, desafia-nos, aproxima-nos do divino e está presente, sempre, ao longo da nossa vida. Eu tive a sorte de os meus pais fazerem essa escolha de conexão com a música por mim, pude fazer os meus estudos académicos em paralelo com o ensino artístico, estudei na Academia de Música de Santa Cecília, e acabei a minha formação académica, após a universidade, com uma pós-graduação em Gestão de Artes. A música clássica ou não, tem que nos tocar de alguma forma no nosso mais íntimo. Mas sim, a música clássica tem cânones e uma lógica na sua composição e depois na sua interpretação que nos interpela, inquieta e tranquiliza, que nos transporta sensorialmente para outros lugares, é em meu entender absolutamente extraordinária senão como se explica que esteja presente há tantos séculos entre nós, onde para além da criação contemporânea, Bach, Mozart, Monteverdi, Verdi, Puccini, Beethoven, Haendel, Rachmaninoff e tantos outros continuam a ser escutados tanto em gravação quanto em concertos ao vivo? A ópera e a música clássica têm um papel fundamental enquanto linguagens vivas e contemporâneas, não como património distante. A ópera é realmente a arte total, onde a vida passa à nossa frente naquele momento em palco, a ópera reflete as diferentes épocas com todas as suas idiossincrasias e conta-nos uma estória, através de uma expressão que é de uma enorme beleza. Temos que conhecer a ópera, as várias óperas ao longo da nossa vida pois creio que devem estar em sintonia com o nosso processo de evolução pessoal. O facto de terem sido introduzidas as legendas na ópera, parece-me ter sido um momento capital para uma melhor compreensão do que acontece em palco e permite-nos avaliar e entender com mais rigor a cumplicidade entre o texto e a música. A ida a uma Ópera pode ser uma das experiências mais enriquecedoras. Em Portugal? Temos apenas uma Ópera Nacional, acho que isto diz tudo. É triste quando comparamos com outros países com a mesma dimensão e a mesma população e se compararmos com Espanha falamos então de uma realidade totalmente diferente. Há um trabalho que os Festivais de Ópera, Ciclos, Encontros de Ópera têm vindo a desenvolver e que é muito importante, falo por exemplo do Festival de Ópera de Óbidos, cujo trabalho tem sido notável na descentralização da Ópera. As grandes casas de Ópera, a presença de mais Casas de Ópera em Portugal daria uma outra estabilidade a esta expressão artística, permitiria a fixação de corpos artísticos, a rotatividade de produções, mais trabalho para os cantores, para os novos compositores, o enriquecimento do tecido cultural português e traria mais público para a Ópera. Em Portugal existe talento, curiosidade e público; o que falta são estruturas consistentes e com continuidade no processo educativo. A minha visão sobre a arte é que esta deve estar no centro da nossa vida. O tecido cultural português em particular os intérpretes, tem vindo a aumentar em quantidade e em qualidade, mas a formação musical não está no centro da educação. Qual o papel do ensino musical e artístico na escola? quais as oportunidades que todas as crianças em Portugal têm de ter acesso a uma formação artística digna e que os possa transformar em melhores pessoas, que lhes dê as componentes de desenvolvimento musical, rítmico, de abstração , de improvisação , de desenvolvimento motor, de trabalhar com os dois hemisférios do cérebro e de verdadeira escuta? Poucas e muitas delas com grande sacrifício e com muito amor por parte dos pais.., mas há uma grande ausência do papel do Estado na componente de formação artística.
Que conselho darias a um jovem cantor lírico que está a pensar candidatar-se pela primeira vez?
Que encare o concurso não apenas como uma prova, mas como uma oportunidade de crescimento e de networking. Irão estar em Portugal importantes nomes da ópera internacional.
Já surgiram convites para concorrentes que nem passaram à Final para fazer audições para prestigiadas casas de ópera e Festivais. Preparar-se bem, manter curiosidade, abertura ao trabalho e às críticas construtivas, e lembrar-se que uma carreira se constrói passo a passo.
Mais do que ganhar, o essencial é aprender, criar relações e afirmar uma identidade artística própria. Os membros que constituem o Juri são personalidades de referência mundiais, e a nossa preocupação permanente com o bem-estar dos concorrente são factores decisivos e, dizem-nos, ser distintivos em relação a outras competições. O local: Cascais, a sua beleza natural e cultural não tem rival, e tem sido algo extremamente valorizado por todos. Eu desafio os jovens cantores: venham, pois estamos à vossa espera. É para vós que este concurso foi concebido. Viva a Ópera!!
Foto: © Jorge Carmona
Apoiar
Se quiseres apoiar o Coffeepaste, para continuarmos a fazer mais e melhor por ti e pela comunidade, vê como aqui.
Como apoiar
Se tiveres alguma questão, escreve-nos para info@coffeepaste.com
Mais
INFO
CONTACTOS
info@coffeepaste.com
Rua Gomes Freire, 161 — 1150-176 Lisboa
Diretor: Pedro Mendes
Inscreve-te na mailing list e recebe todas as novidades do Coffeepaste!
Ao subscreveres, passarás a receber os anúncios mais recentes, informações sobre novos conteúdos editoriais, as nossas iniciativas e outras informações por email. O teu endereço nunca será partilhado.
Apoios