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O festival Bons Sons celebra 20 anos de 06 a 09 de agosto, em Cem Soldos, Tomar, mobilizando dezenas de voluntários para transformar uma aldeia de 800 habitantes num palco dedicado à música portuguesa, à comunidade e à resistência.
"O espírito mantém-se. Queremos manter sempre a essência da aldeia e que ela não se perca. Se a aldeia se perder, isso já não é Bons Sons", afirmou à Lusa Filipe Cartaxo, presidente da direção do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), associação organizadora do festival que, sob o lema "Vem viver a aldeia", espera receber cerca de 32 mil visitantes ao longo de quatro dias.
Naquela pequena aldeia do concelho de Tomar, distrito de Santarém, onde residem cerca de 800 pessoas e a associação organizadora reúne mais de mil sócios, os preparativos intensificaram-se nos últimos dias.
Ruas, largos, garagens, quintais, eiras e hortas voltam a transformar-se num recinto cultural a céu aberto, acolhendo dez palcos espalhados pela localidade, cada um com identidade própria, num modelo que distingue o Bons Sons no panorama nacional.
Filipe Cartaxo conhece bem essa transformação. Tinha 10 anos quando ajudou a preparar a primeira edição, em 2006, abrindo buracos para postes, passando cabos e acompanhando os mais velhos nas tarefas de montagem.
Hoje, aos 30 anos, lidera a associação organizadora e continua a ver na participação da população o maior património do festival.
"Há um sentimento de pertença muito grande. As pessoas querem ter a aldeia no seu melhor para receber quem nos visita", afirmou, apontando como exemplo as casas recentemente pintadas, os espaços públicos preparados para acolher milhares de festivaleiros e o envolvimento da Junta de Freguesia na limpeza e embelezamento da localidade.
Segundo o responsável, cerca de 600 a 700 pessoas estarão envolvidas na organização durante os quatro dias do festival, entre habitantes da aldeia, familiares, amigos, voluntários vindos de outras regiões e equipas de apoio, assegurando desde a montagem dos palcos aos bares, cozinhas, campismo, transportes, informação e logística.
A edição dos 20 anos marca igualmente uma renovação na direção artística do festival, agora assumida por João Rufino, de 39 anos, e Sérgio Alves, de 37, ambos naturais de Cem Soldos e ligados ao Bons Sons desde a juventude.
Os dois preferem, contudo, definir-se como parte de uma direção de programação alargada e coletiva, recusando protagonismos individuais num projeto construído por dezenas de pessoas.
Depois de anos ligados à produção, às equipas técnicas e, mais recentemente, à programação, representam uma nova geração que cresceu com o festival "dentro de casa" e que assume agora a responsabilidade de preservar a identidade do Bons Sons sem abdicar da renovação.
"O próprio festival já é, em si, um movimento de resistência", afirmou Sérgio Alves, explicando que o manifesto desta edição procura homenagear "as pessoas que continuam a fazer o Bons Sons acontecer", conciliando voluntariamente a organização do festival com a vida familiar e profissional.
"É uma resistência à desistência, à preguiça e ao facilitismo. É uma resistência no sentido da persistência, de querer fazer", acrescentou.
Para João Rufino, essa ideia ganha ainda maior significado num contexto marcado pelo individualismo e pelo progressivo desaparecimento das comunidades rurais.
"O individualismo e a perda das comunidades têm vencido um estilo de vida que nós conhecemos na infância. É isso que continuamos a defender e que o Bons Sons representa", declarou, sustentando que o festival continua a afirmar a importância da cultura fora dos grandes centros urbanos.
A programação mantém a aposta exclusiva na música portuguesa, reunindo artistas consagrados e novos projetos de diferentes gerações, regiões e estilos musicais, numa diversidade que os responsáveis consideram parte da identidade do festival.
"O maior elogio que podemos receber é alguém dizer que já tem bilhete mas praticamente não conhece nenhum nome do cartaz", afirmou João Rufino, defendendo que o Bons Sons deve continuar a desafiar o público a descobrir novos projetos musicais.
Entre as novidades desta edição destacam-se o Palco Rosa Ramalho, entre outros instalados em hortas e eiras da aldeia, e o reforço da programação paralela, que inclui cinema, debates, percursos, oficinas, exposições e atividades para famílias.
"Há muito mais para descobrir em Cem Soldos do que só a música", resumiu João Rufino, indicando que o objetivo passa por proporcionar uma experiência onde os visitantes possam assistir a concertos, participar em conversas sobre território e cultura, descobrir o património local e viver o quotidiano da aldeia.
O Bons Sons decorre entre 06 e 09 de agosto, com capacidade máxima para cerca de 8.500 pessoas por dia, distribuídas pelos vários espaços da aldeia, mantendo o modelo que, há duas décadas, transformou uma pequena comunidade do interior do país numa referência nacional da música portuguesa e da participação comunitária.
O programa completo pode ser consultado no 'site' do festival (www.bonssons.pt).
Foto: © Carlos Manuel Martins (Bons Sons)
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