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O encenador Diogo Infante “apropriou-se” de “A Gaivota”, de Anton Tchékov, escrita há 131 anos, e aproximou-a do público atual, mantendo a essência da “identidade do artista”, num espetáculo que se estreia quinta-feira, no Teatro Trindade, em Lisboa.
Escrita em 1895, “A Gaivota” é uma das mais emblemáticas peças de Tchekhov, frequentemente considerada um comentário metateatral à natureza da arte e dos artistas, que agora ganha uma versão atualizada, mas “o mais fiel” possível “ao espírito do texto, mantendo as premissas que o tornam tão sedutor e atrativo e tão intemporal”, explicou Diogo Infante, no final de um ensaio.
Nesta versão, o espetáculo começa ao som de “Solidão”, de Janeiro, ainda com a cortina descida, que entretanto sobe para dar lugar a um cenário rural, no qual um homem trabalha acompanhado de um rádio que toca essa música, transportando imediatamente o público para a atualidade.
A história passa-se numa propriedade, situada à beira de um lago, onde são explorados os conflitos românticos e artísticos entre as personagens Irina Arkadina (uma atriz famosa, vaidosa e dominadora), Alexandre Trigorin (um escritor consagrado e amante de Arkadina), Constantino Treplev (jovem dramaturgo idealista que quer revolucionar o teatro, e filho de Irina) e a jovem Nina Zarechnaya (uma aspirante a atriz cheia de sonhos).
No início do espetáculo, há um momento em que Constantino critica o recurso dos encenadores aos textos clássicos, que não trazem nada de novo, afirmando que são necessárias novas perspetivas, uma temática que serviu para questionar Diogo Infante sobre a razão de escolher este clássico teatral.
“A peça, efetivamente com 131 anos, quando a reli fiquei maravilhado com a sua atualidade. E depois debati-me com ‘mantenho o texto na sua época, naquele contexto, que faz todo o sentido?’”, porque a peça foi escrita num período político e social de pré-revoluções e transformações grandes na sociedade russa”, contou.
Acabou por perceber que isso o iria “restringir”, além de que quis perspetivar também novos públicos que pudessem aderir ao texto.
“Curiosamente, contrariando aquilo que me é habitual, eu decidi transpor para a realidade. E então, isolei-me durante mais ou menos 10 dias, levei várias versões, levei o texto comigo e comecei a criar a minha própria.”
Detalhando o processo de atualização da linguagem, Diogo Infante confessou que acabou por não ser tão difícil como imaginara, tendo despido o texto de tudo aquilo que o pudesse datar, como referências a carroças e cavalos, ou certas opções linguísticas, e introduzindo elementos que não existiam na época, como computadores e internet.
“Eu comecei simplesmente - permitindo-me alguma liberdade poética - a conversar com o Tchékhov. Disse-lhe: ‘não me levas a mal, mas eu vou-me apropriar’. E foi isso que fiz. Basicamente o que fiz foi: comecei a transformar o texto numa linguagem que fosse contemporânea, que fosse atual, que pudesse aproximar-se do público, mas também das personagens, ou seja, estas personagens que à época retratavam vários grupos sociais e classes da sociedade russa, hoje em dia conseguimos criar aqui um equivalente à nossa sociedade".
O encenador explicou que, na adaptação, manteve a essência e a estrutura do texto original, apesar de realizar cortes significativos para tornar a peça mais acessível ao público contemporâneo, tendo trabalhado com atenção a todas as personagens, procurando preservar “a musicalidade e os arcos dramáticos” de cada fala, de forma a respeitar o espírito de Tchékov.
No caso de Constantino Treplev, tentou criar uma linguagem própria que distinguisse o jovem encenador das restantes personagens, refletindo os seus dilemas e dúvidas sobre a banalidade, a moralidade e o lado banal da vida, explicou, sublinhando que embora tenha comprimido o texto, não o subverteu, mantendo a integridade da personagem e a essência da narrativa.
“Há, evidentemente, aqui uma temática que me é particularmente querida e que tem que ver com esta identidade do artista, a essência do artista, seja ele ator ou escritor. No fundo, o sofrimento que a arte pressupõe. Há uma ideia ‘glamourosa’ do que são os artistas em geral, dos atores em particular. Mas ninguém sonha o processo doloroso que representa a procura, a busca incessante por algo que é inatingível, por uma suposta perfeição. Os atores poderão obviamente falar disso, porque em todos os momentos nós nos duvidamos, nos boicotamos, sentimos que somos uns impostores, uma fraude, e que nunca conseguimos corresponder às expectativas. E também eu passei por tudo isso sabendo que estou a lidar com um clássico e há necessariamente e legitimamente uma expectativa e uma grande curiosidade, mas depois pensei, ‘não, não te agarres a isso, aproveita o texto para poder falar de algumas coisas que te inquietam’”, revelou.
Esta adaptação aborda igualmente o amor e os conflitos geracionais, temas centrais do texto, que 130 anos depois se mantêm, ainda que haja hoje mais abertura, permissividade e tolerância, como assinalou o também diretor artístico.
“Ainda assim, a frustração do amor mantém-se idêntica. Ou seja, os desamores, os amores não correspondidos podem destruir-nos. E, portanto, é algo que é inato à natureza humana. E é isso que torna este texto tão extraordinariamente atual. A questão das gerações continua de uma enorme atualidade, estes conflitos, esta dicotomia entre o passado, o moderno, o velho, o novo, o homem, a mulher, são questões que estão na ordem do dia”, acrescentou.
Relativamente ao elenco, Diogo Infante revelou que o espetáculo “foi construído à volta de Alexandra [Lencastre]”, que interpreta Irina Arkadina, 34 anos depois de ter dado vida à personagem de Nina, no Teatro da Graça.
“Foi a primeira atriz em que eu pensei para este papel, foi com ela que eu falei e [quem] tive que seduzir, porque Alexandra tem sempre muitos medos, muitos receios [...]. E comecei paulatinamente a construir o projeto à volta dela, fomos discutindo os atores, pessoas que ela também reconhecia que tinham, para além do talento, as características que servissem à história, à narrativa, e isso era importante haver aqui uma verosimilhança”, recordou.
Questionado sobre a sobrevivência do teatro numa altura em que o cinema atravessa uma crise com várias salas a fechar por todo o país, Diogo Infante destacou a sua relevância, num contexto de transformação de audiências.
“De há uns anos a esta parte, o número de espectadores, genericamente, tem vindo a aumentar significativamente. A maior parte dos espetáculos que temos feito aqui têm mais espectadores do que a maior parte dos filmes que são exibidos. Isto também tem a ver com escolhas. Nós fazemos um teatro, se calhar mais ‘mainstream’, com base nos clássicos, mas eu assumo que estou a trabalhar para a generalidade do público, ou seja, para o grande público. Há outros projetos que são mais específicos, são mais de nicho, trabalham noutros tipos de fatias de mercado, e todos são válidos”, afirmou.
“A Gaivota” conta ainda no elenco com os atores André Leitão, António Melo, Flávio Gil, Guilherme Filipe, Ivo Canelas, Margarida Bakker, Pedro Laginha, Rita Rocha Silva e Rita Salema, e vai estar em cena até dia 05 de abril.
Foto: © Alípio Padilha
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