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Entre a vida e a cena: Raquel André e Tonan Quito recriam famílias e memórias

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COFFEEPASTE / Pedro Mendes
June 23, 2025

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Entre a vida e a cena: Raquel André e Tonan Quito recriam famílias e memórias

“Começar Tudo Outra Vez” não é só o nome de uma peça — é uma espécie de convite para imaginar novas possibilidades de estar no mundo. O espetáculo, que junta pela primeira vez Raquel André e Tonan Quito, nasce do diálogo e da escuta, do confronto e do entendimento, entre modos distintos de pensar e fazer teatro. Não foi um encontro no vazio, mas antes uma parceria feita de cumplicidade e de uma curiosidade partilhada, mediada por nomes tão essenciais como Bernardo de Almeida e André Tecedeiro, e sustentada pela confiança necessária para transformar memórias íntimas em matéria de cena.

Através de uma dramaturgia construída a quatro, Raquel e Tonan partilham uma reflexão sensível e política sobre nascimento, herança e cuidado. Partem das próprias histórias para imaginar as famílias e comunidades que somos e poderíamos ser, ampliando o sentido de uma prática tão simples e tão radical como “sentarmo‑nos à mesa”. Porque educar uma criança, dizem, é um acto político — e começar tudo outra vez pode representar uma maneira de pensar futuros possíveis, tão densos e tão poéticos como as relações que nos tecem.

Nesta entrevista, Raquel André e Tonan Quito revelam como conceberam esta travessia entre a vida e o teatro, e como a linha que os separa ou une se tornou tão transparente e tão necessária para ensaiar não só uma peça, mas a própria vida porvir.

Começar Tudo Outra Vez  nasce de modos distintos de fazer teatro. Como foi esse processo de conciliação artística entre os dois? Que descobertas fizeram um sobre o outro?

Raquel e Tonan: O processo foi um desafio. O encontro e a conciliação aconteceram com muita conversa, muito diálogo. O Bernardo de Almeida, co-criador deste projeto, é um óptimo mediador e o André Tecedeiro, com quem nunca tinhamos trabalhado, também foi importante nesse diálogo. O facto de nos conhecermos bem, mesmo que nunca tivéssemos trabalhado juntos, conhecemos bem os trabalhos um do outro, sabemos como trabalhamos, de forma indireta vamos participando nos trabalhos um do outro, o que também ajudou para que soubéssemos que mundos queriamos juntar, não foi um encontro completamente no vazio.

Raquel: Eu descobri que o Tonan tem uma relação muito especial com o texto, é do detalhe, de cada palavra, e que também escreve - ou voltou a esse exercício com este trabalho.

Tonan: Eu descobri que a Raquel tem uma enorme capacidade de trabalho, de concentração e de organização, ao mesmo tempo que adora perder-se a ouvir histórias, e a dedicar tempo a transformar essas histórias em dramaturgias.

O espetáculo convoca temas como nascimento, herança e cuidado. Que relação têm estes conceitos com a vossa própria biografia? E como os transportaram para o palco?

Raquel: Uma das camadas dramatúrgicas do espetáculo é precisamente essa: a confusão sobre a possibilidade de sermos nós personagens de nós mesmos. Inevitavelmente, e isso achamos que é inerente ao trabalho dos dois, trabalhamos assuntos que na nossa vida estão a fazer sentido, às vezes de forma mais pessoal outras com a motivação de uma urgência coletiva. Neste trabalho, foram ambas, nós temos essas perguntas. O que é educar uma criança hoje? Como? Como prepará-la, como rodeá-la de referências e inspirações? Que pessoas estão perto? Ao mesmo tempo, a questão de ter filhos ou não, ser madrasta, aumentar a família…

Tonan: A Raquel trouxe a questão desse trabalho invisível das pessoas que ajudam a pôr pessoas no mundo. A partir dessa pesquisa começámos a ampliar todas estas questões, chegámos a nós, à nossa família e inevitavelmente ao teatro. O trazer estes assuntos para o palco foi a partir da conversa e discussão com o Bernardo e o André, que teve que ser numa base de muita confiança neles para partilharmos de uma forma íntima e isso se tornar material.

Qual é a linha que separa - ou une - a cena e a vida neste espetáculo?

Raquel e Tonan: (Risos) É uma linha muito transparente às vezes, outras muito distante, às vezes tracejada deixando passar pistas, sugerindo possibilidades. Talvez se tenha tornado um trabalho mais terapêutico do que tínhamos imaginado, o que pode ser estranho porque não era a proposta, mas cumpre também uma outra linha dramatúrgica do espetáculo que é como o teatro é uma possibilidade de ensaiar a vida.

Que tipo de "arquitecturas familiares" foram criadas ou reinventadas durante o processo de criação?

Raquel e Tonan: As principais foram as da origem, os nossos nascimentos. Esse material foi um dos primeiros que criámos. Entrevistamos os nossos pais e perguntámos como tinha sido esse dia. A partir desses depoimentos percebemos o quanto são narrativas criadas, e como na verdade saberemos muito pouco sobre a verdade desse dia, o que é perfeito para o teatro, porque podemos imaginar a partir daí. Depois esses arquétipos dos papéis sociais-familiares que todos cumprimos -- mães, pais, filhas, filhes, amigos, irmãs, irmãos, cunhadas, sobrinhos… --, e aí o teatro e a vida entregam esses papéis da mesma forma em narrativas que se multiplicam, reais e ficcionais.

Como é que o texto de André Tecedeiro dialoga com a encenação e os vossos corpos em cena?

Raquel e Tonan: O texto do André foi criado de uma forma muito colaborativa, em conjunto, com ideias dos quatro, com propostas que foram saindo da sala de ensaio. A maioria do texto foi criado na sala de ensaio através da nossa conversa e dos nossos diálogos. Então essa relação com a encenação e a nossa presença foi muito orgânica, ou seja, foi-se escrevendo na relação direta com o espaço, com o tom, com o objetivo dramatúrgico.

"Educar uma criança é um ato político". Como é que esta frase se traduz na prática teatral de Começar Tudo Outra Vez?

Raquel e Tonan: Essa frase tocou-nos já há algum tempo, e o próprio movimento de querer fazer este espetáculo é em si um ato político. É um ato político fazer um espetáculo que pensa as redes de afeto e cuidado na criação de uma criança, e que na verdade é uma rede que precisamos sempre -- porque ninguém larga a mão de ninguém. Pensar esta frase levou-nos à origem, o que acontece quando nasce alguém? O que se organiza e desorganiza? O que mexe, política, geográfica, económica e emocionalmente quando uma criança chega a este mundo? Todas as crianças nascem com uma herança, um nome, uma família, uma tradição, uma cultura, e muitas expectativas, sejam de género, ou de correspondências emocionais e familiares. Se o nascimento é um assunto tão pouco falado, se o início de tudo é tão pouco debatido, tão afastado da nossa sociedade, se esse momento de empoderamento, de força e de conhecimento do corpo foi-nos retirado e desinformado, a partir daí todo o processo de educar uma criança hoje, neste mundo, agora, é uma luta política. Começa no parto essa luta e só acabará quando todos os direitos de todas as crianças forem cumpridos. Ensaiamos futuros possíveis, passados questionáveis e lançamos perguntas.

De que forma o espetáculo propõe ou imagina "futuros possíveis"?

Raquel e Tonan: Com o jogo mais simples e primordial da história do teatro, o “E se”. “E se?” A partir deste jogo de faz de conta imaginamos futuros, reescrevemos passados e narrativas densas, trazemos com alguma leveza e poesia um novo olhar, sem muitas respostas mas com várias perspectivas.

A peça parece construir-se a partir de uma comunidade alargada - artística, afetiva, familiar. Que papel teve essa rede de pessoas no processo criativo?

Raquel e Tonan: Não queremos fazer spoiler, venham assistir ao espetáculo!! Mas, convidámos a nossa primeira aldeia para fazer parte deste espetáculo -- as nossas famílias, amigos, e equipas do espetáculo. Esse convite tornou-se central e uma das camadas dramatúrgicas que viaja durante todo o espetáculo, neste caso, especificamente em vídeo.

Esta é a vossa primeira colaboração. Que pontes encontraram entre as vossas linguagens e percursos? Houve surpresas ou fricções que tenham sido férteis?

Raquel e Tonan: Sim, na verdade, todas. Fomo-nos complementando nas diferenças e nas semelhanças, fomos somando. Foi intenso, é intenso, mas nunca chegaríamos a este espetáculo em processos de trabalho independentes um do outro. Ou seja, este projeto é mesmo a união dos dois mundos. Na relação estética e dramatúrgica, é novo e único para nós, porque foi feito por nós e por esta equipa. E é sem dúvida especial pela relação afetiva que o trabalho carrega.

Há um tom íntimo e autobiográfico no espetáculo. Como equilibram a exposição pessoal com a construção ficcional? Há coisas que decidiram não partilhar?

Raquel e Tonan: Sim. Há materiais que tiveram na mesa algum tempo e que decidimos ajustar. Retirámos detalhes que nos colavam demasiado à história, não só para nos distanciarmos um pouco, mas também para dar espaço a outras leituras.

Como imaginam que o público será convocado a "sentar-se à mesa"? Que tipo de escuta ou envolvimento esperam provocar.

Raquel e Tonan: Gostávamos que todas as pessoas se reconhecessem como aldeia de alguma criança ou de alguém, e que se sentissem impelidos a “fazer de conta” quando convidados, como possibilidade de ensaiar novas narrativas e futuros possíveis.

O que é que gostavam de começar outra vez - no teatro, na vida, ou nas relações humanas?

Raquel e Tonan: Gostaríamos de Começar Tudo Outra Vez por um teatro mais democrático, mais próximo do público, mais urgente. Gostaríamos de Começar Tudo Outra Vez por uma vida mais democrática, mais próxima uns dos outros, com mais tempo de cuidado, mais vida e menos trabalho. Gostaríamos de Começar Tudo Outra Vez por relações humanas mais humanas, onde se pense mais sobre nascer e criar e menos em morrer. Mais inícios coletivos e menos genocídios.

 

Foto: © Tiago Jesus Brás

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