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Isadora Alves: entre erupções, a escrita como escuta

Por

 

Pedro Mendes
May 19, 2026

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Isadora Alves: entre erupções, a escrita como escuta

Isadora Alves chegou ao vulcão antes do amanhecer e ficou imóvel durante todo o dia. Com uma máquina de escrever presa ao corpo e poemas a nascerem letra a letra sobre o solo de Reykjanes, a artista e atriz portuguesa habita os intervalos entre erupções como quem habita uma pergunta. Archives of the Earth, projeto que desenvolve em parceria com o designer austríaco Christoph Matt e a vulcanóloga Céline Mandon, é uma performance site-specific na Península de Reykjanes, na Islândia, apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O projeto constrói um arquivo em camadas de matéria, tempo e atenção, onde gravura, escrita e presença performativa se encontram nas coordenadas de erupções passadas e futuras. Uma investigação pensada para durar cem anos, tanto quanto se prevê o ciclo eruptivo da região. Conversámos com Isadora sobre vulcões, máquinas de escrever, o medo de perder o chão e a autoridade dos sentidos.


Archives of the Earth nasce de uma presença prolongada num território em erupção. O que é que muda na tua prática artística quando o próprio chão pode transformar-se a qualquer momento?

A práctica, da forma como a tenho vivido, está mais ligada à experiência de estar num só lugar a olhar para o que está à minha frente, imóvel durante muito tempo, deixar que a meteorologia faça coisas comigo e perguntar com cuidado “o que está aqui, o que vejo?”. No solo vulcânico de Reykjanes, onde decorre a peça, esse risco é eminente, sim, o solo está em visível transformação, mas também é altamente monitorizado. Em minha casa em Lisboa, por exemplo, escrevo sempre em frente a uma janela onde corre muito vento. Para mim, na crise habitacional actual, a minha práctica sofre muito mais com essa infeliz realidade, onde o chão das casas onde vivemos pode transformar-se a qualquer momento, sem grande proteção do estado. Ou até mesmo de qualquer violência que provém dos humanos, que nos retira o chão e que muitas de nós encontrámos em meio laboral. Sozinha num vulcão podem sofrer-se brutalidades de outra ordem mas não se sofre de assédio. Para mim, uma paisagem não se reduz a um campo de flores com um monte ao longe, estende-se numa aprendizagem sem fim. Quando ali estou, sinto-me com uma certa força, entre placas tectónicas que divergem, onde terra nasce continuamente, e sinto força como cidadã, uma vez que a Islândia é um dos países mais avançados em igualdade de género, com leis fortes como a igualdade salarial obrigatória e elevada participação política das mulheres.


A performance acontece num intervalo entre erupções, um tempo suspenso, de atividade latente. Como é que trabalhas criativamente com aquilo que ainda não aconteceu?

Não trabalho. Vivo com o que me aconteceu. Vivo com o passado e relembro-me continuamente do quão limitada é a percepção humana. Uma vez que a luz leva tempo a chegar até nós, sei que é o passado que vejo quando estou parada e é o passado que observo e com que trabalho criativamente. Procuro habitar um equilíbrio, honrar a bagagem que carrego, o que pesquisámos sobre o lugar onde estamos e libertar-me de tudo isso. Habitar esses tempos e lugares tão precisos entre erupções relembra-nos que merecemos essa presença, que devemos essa felicidade como resistência. (risos) Esta seria uma ideia de resposta ponderada. A verdade, é que talvez por ser actor acredito que o tempo nos acontece de outra forma, como uma dobra. Estou sempre a mover-me para o que ainda não aconteceu, a criatividade, a resistência está aí. Na relação comigo mesma ou com quem amo penso muito “quem serão essas pessoas no futuro e como cuidar do que está por vir?”. No trabalho nos vulcões, o imprevisto por exemplo, faz me trabalhar com o que não me aconteceu ainda e com o que nunca sonhei que acontecesse (risos) e sinto-me permitir pertencer à terra. Ali paradas, tem sido sobre deixar que o que está ao nosso redor venha até ao nosso encontro, dialogue e atue primeiro conosco, nos diga o que é possível ser dito, e tantas vezes um longo silêncio. Quando escrevo, primeiro destrinço padrões, eventos singulares, ou talvez siga o rasto de um fulmar-glacial que cruza o quadro... mas o passado, o futuro não acho que existam. Será certo dizer que a escrita daquele momento, enquanto sobrevive, caminha para uma reinterpretação num amadurecimento próximo e será certo dizer que essas palavras marcadas no papel existem como portal que se acede para voltar ali, àquela paisagem que já não existe. Um lugar que não existe no momento que se lê e parte dele permanece continuamente ali, morto-vivo, como uma foto, um guião de cinema, sim, o arquivo é um futurismo absurdo.


A máquina de escrever está fisicamente presa ao teu corpo durante a performance. De que forma esse constrangimento físico molda a escrita que produz?

Importante talvez dizer porquê uma máquina de escrever. A função de print ou decalque que a máquina de escrever é, é um gesto importante por ser paralelo ao do Christoph que coleta pigmentos do solo que piso e os decalca numa folha tal qual a minha, em simultâneo. A máquina de escrever é o único objecto que resiste àquelas condições atmosféricas, muitas vezes em graus negativos. A máquina em si carrega um léxico próprio e as suas possibilidades moldam a minha escrita porque ela inspira a possibilidades simples e claras como a quebra do verso, os espaçamentos, a forma como o papel é colocado, a meditação de decalcar letra a letra até construir uma palavra... Numa máquina de escrever há impacto sobre o papel, como um tremor de terra, e há um deslocamento horizontal, cada letra empurra o papel para a esquerda, como a terra que ali se abre. O constrangimento low-tech cyborg em que me coloco, considero que me ajuda a manter presente que é com o meu próprio corpo que sustenho a escrita. O aparato torna-me principalmente consciente das minhas costas, que é para mim um lugar fascinante do corpo humano, que nos sustém, que permite o movimento… as costas… é um lugar muito corajoso do corpo.


Os poemas que escreves no terreno não pretendem descrever a paisagem, mas estabelecer uma relação com ela. Como defines essa diferença na prática?

Gosto muito da palavra descrever. Ao que parece, vem do encontro em latim do prefixo de- , movimento de cima para baixo, com a palavra scribere, que significa escrever. E é de facto o que faço, escrevo de cima para baixo. De qualquer forma, parece-me que a palavra foi sendo repetida muitas vezes desde aí e descrever , parece dar um tipo de autoridade a quem escreve, com um olhar que tudo sabe, que não me interessa. Prefiro perguntas, prefiro relação e profundidade. Gostava que a palavra tivesse poderes mágicos e não autoritários. Respeito demasiado o que vejo e a possibilidade de ali ter estado e voltado ilesa para dizer que o que escrevi é a definição exacta de um lugar. É o meu ponto de vista naquele preciso momento e acontece em colaboração com tudo o que me rodeia, com o espaço entre o que vejo, onde estou e de onde venho. Já que habitamos tempos tão instáveis, sabemos que muitas das paisagens que vemos irão perecer durante o tempo da nossa vida, porque não então procurar um arquivo sensível? Penso muito no conceito que Trinh T. Minh-ha evoca desde os anos 80, de speaking nearby.


Trabalhar com uma vulcanóloga como Céline Mandon implica cruzar linguagens muito distintas. O que é que o conhecimento científico trouxe à tua prática que a arte sozinha não alcançaria?

São linguagens diferentes, quase tanto quanto se trabalhasse com uma outra artista. Há contudo algo nas práticas que nos aproxima. Celine, em conjunto com o Icelandic Meteorological Office, caminha, pára, escuta e estuda as mesmas coordenadas que eu e Christoph habitamos desde 2021, e é muito apaixonada por elas. Celine traduz a composição do ar nesses lugares, dá nome ao invisível como se lesse os poemas que escrevo e os pigmentos que Christoph separa e colecta, de uma outra forma. A relação performática que precede o estudo é muito semelhante, que é simplesmente a de dar tempo, atenção a um só lugar em imobilidade, de atribuir àquele ecossistema uma maior agência e talvez procurando reduzir a nossa. Não sei o que alcança a arte nem penso que a Celine sabe o que alcança a sua investigação na totalidade. Neste sentido, o que nos interessa aos três é o encontro. Os três habitamos estes lugares onde nunca viveram seres humanos e olhamos para estes lugares com muitas perguntas e com muito respeito.


O projeto propõe o corpo como superfície oracular, em diálogo com Empédocles. Como é que essa dimensão filosófica se manifesta concretamente no que fazes no terreno?

Uma pedra é já um arquivo de forças. Aprendo muito com o que é habitar o tempo ao olhar para uma pedra. Em Archives of the Earth a presença humana é mais um nó dentro de um sistema mais amplo. Interessa-me uma superfície oracular que escuta, regista e se inscreve nos ritmos do mundo, como o corpo de uma rocha basáltica. Gosto de tentar materializar conceitos, vivê-los ao invés de os representar. Por isso, a filosofia de Empédocles não aparece como referência ilustrativa ou simbólica do projecto mas como performance-tese, como conceito habitado. Empédocles nomeia quatro elementos e fala-nos de duas forças cíclicas que tudo governam: amor (philia) que une elementos e conflito (neikos) que os separa.
Em 2022 comecei uma série de trabalhos chamada visões.


A visão 1, Caixa-relâmpago, desenvolveu-se em conjunto com mulheres residentes em Lisboa que perderam a visão em vida. Trabalhámos sobre que pensamentos tinham sobre o futuro e como se relacionavam com relâmpagos. Este trabalho materializou-se numa escultura e num poema apresentados numa exposição colectiva em Lodz, na Polónia.


Nesse mesmo ano comecei a trabalhar sobre a visão 2, Archives of the Earth, que em conjunto com Christoph Matt e diversas comunidades na Islândia, parte do gesto de Empédocles, que se terá lançado para o Etna como performance-tese da sua filosofia, gesto considerado incompleto porque, após o salto, o vulcão devolve uma das suas sandálias. Gosto de pensar nesse imprevisto que é a sandália, não como oráculo que falha, mas como vestígio e visibilização do comportamento dos ecossistemas.


Reykjanes é um lugar no mundo onde os pensamentos de Empédocles são visíveis tanto num tempo profundo como em tempo perceptível para nós humanos. Há fogo, vento, terra e água nos seus vários estados num só lugar em simultâneo. Uma erupção vulcânica arquiva terra sobre terra. Dizer que destroi parece-me uma conclusão precipitada, na verdade, uma erupção em Reykjanes abre espaço a novos ecossistemas, que em breve desaparecerão para de novo nascerem.


Torna-se claro que a paisagem afinal não fala apenas de morte, mas de reorganização. Para mim tem sido muito importante renomear a morte numa sociedade que não dá espaço aos nossos lutos. Neste projecto há um testemunhar sobre estar-se entre e por isso fora do binário vida e morte. Este corpo oracular não reside no ato de prever e ditar um futuro mas em mover-nos em eixos menos obcecados com a individualidade, talvez entregar-nos à aventura, reaprender a ler o que está fora do domínio dos humanos e restabelecer a consciência de pertencermos ao mundo por um tempo limitado, e que o mundo continuará. Nenhum destes arquivos tem ambição de perdurar mas de se transformar.


Archives of the Earth questiona quem tem autoridade para ler e interpretar o mundo. Como é que esse questionamento se relaciona com o teu percurso mais amplo enquanto atriz e artista de performance?

Como actor devo dizer que estou sempre a redescobrir o sentido dessas palavras: ler e interpretar… Há muitos caminhos que me levam até vulcões… sinto que vimos de incontáveis gerações de precariedade emocional onde nos é ensinado a não confiar nos nossos próprios sentidos, a calar a nossa voz e submeter-nos a ideias de outros… Ou a assistir a outros seres humanos a fazerem coisas no telefone. Procuro estar em relação com o mundo, na experiência da pele, a aventura de existir e ouvir o que se cruza connosco. A proximidade com a mortalidade faz-me querer ver e sentir o mundo pelos meus olhos, e aprender com os mundos dos outros, humanos e além deles. Aprendi muito com um gato da minha mãe, por exemplo. Acredito que os nossos mundos quando são escutados, dados espaço e visibilidade podem tornar-se mais fortes e férteis. Talvez essa força ameace quem vive com muito medo de perder poder. Para mim a beleza de ser actriz é a de brincar, pensar, viver e redescobrir o que é estar viva, é essa aventura. Gosto tanto de ler as ideias de outras pessoas e tentar encontrar o meu lugar dentro da visão delas tanto quanto gosto de criar e convidar pessoas para se juntarem na materialização de pequenas revoluções. Há quem se dedique e estude muito determinado assunto, ou quem tenha passado por situações singulares, às quais acho que devo ouvir com muita atenção e aprender, mas autoridade… não tem qualquer piada para mim, não gosto do medo. Ser actriz ou fazer performance é muitas vezes ter medo e continuamente enfrentá-lo. Este projecto nasce de um processo colectivo, sonhámos em conjunto, decidimos mover-nos e as condições atmosféricas têm permitido que aconteça. É uma pesquisa performativa pensada para durar 100 anos, que é o tempo expectável das erupções em Reykjanes, e que esperamos que continue através de quem quiser fazer parte do arquivo. Esta decisão de chamar “performance” ao que fazemos é também uma forma de deslocar o olhar, de escutar actores maiores do que humanos, de abrir espaço. Por assistir ao desgaste excessivo dos nossos ecossistemas e outras crueldades humanas, nos últimos anos preferi dar autoridade ao interior da terra. Como em Empédocles, trata-se de reconhecer forças que já operam antes de nós e para além de nós. Ler e interpretar o mundo… pergunto mais vezes como tornar as vidas de que fazemos parte continuamente mais férteis face às maiores atrocidades pelas quais vamos passando? não sei ainda, mas aprendo muito quando saio de casa para caminhar.

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