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Máquinas de Ser

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Duarte Amado
February 11, 2026

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Máquinas de Ser

Canine Jaunâtre 3 de Marlene Monteiro Freitas chegou à Culturgest quase oito anos após a sua criação (2018) e a passagem ao reportório do Ballet de l’Opéra de Lyon (2024). Vinte e quatro em roda, entoam The Weeping Song, de Nick Cave. Voltam para dentro e regressam como quem desistiu de sair ou estava só a aquecer para a falsa partida.


Atravessados pela qualidade canina das perguntas que se perseguem e mordem a si próprias atrás da cauda, a roda voltará a formar-se perto do fim para cercar a hipótese cruel, chocalhada, trocista, de que a ação humana é só outra voltinha circular bem ensaiada. Só muda mesmo o inominável que corrói, instala e reprograma.


Até lá CJ3 monta um corpo de contrações: organiza trios e micro-solos em sequências e movimentos peristálticos que contaminam e alternam entre triatlos férreos, feéricos, miméticos, e o regresso à hipnose e dissolução singulares. Um tutorial sempre interrompido antes do «3» estampado nas costas, desempate que nunca chega, onde o apito só interrompe para mandar seguir e acentuar a dificuldade em retomar algo que nem vem de fora nem sai de dentro.


Os movimentos com ar de arranque, como arrancados, vêem-se como uma técnica proposital, inacabada, para prosseguir, perseguir, sondar, tactear o espaço, o corpo e as próprias acções. Tetris tétrico; in loco, em louco.


O tempo – presente, digital, analógico, indiferente –, corre em linha reta até aos 90 minutos de espetáculo medido por metrónomos, cronómetros, últimas chamadas de aeroporto, ou o berro mecânico que pontua o esvaecimento coletivo com um sobressalto que não reage a nada nem anuncia qualquer catarse. Só diz que aprendemos a gritar pelo meio disto tudo e a chamar-lhe presença. Nesse registo torcionário, sem render-se nem resistir, tenta marcar-se qualquer coisa que ‘pegue’ para convencer o Tempo que resta.


“Done!” será outro corte repetido para o ar. Um bluff que valida pequenos números individuais, sofríveis, que arranja razões para o que assistimos a posteriori; imagem da nossa queda íntima para fazermos passar pulsões por firmeza, acidentes por narrativa; espasmos por criação. O “Como se fosse”, de Chico Buarque, debitado no início por um grupo que dança como se dançasse, redimido por pausas e aplausos gravados que se oferecem entre si, como se o fim fosse um efeito especial que Canine recusa.


A graça cruel de CJ3 está muito nestes espasmos militantes, auto-consolos e tréguas mínimas, que desautorizam constantemente quanto ao que é possível assinar com o corpo. Alguém tem de dizer “feito” para que a coisa exista e pareça controlada. O corpo vira um funcionário de si próprio, um jurista que aplica um Código sem legislador para regrar relações entre o arbítrio e o arbitrário. Uma dança que coopera para não colapsar com a contagem – única certeza paradoxal capaz de dar ritmo, ordem provisória e sentido mínimo aos sobreviventes.


O único animal


A qualidade de resistência-servil do corpo ao movimento – movendo-se –, é uma força sabida, contrária, bela e boçal, nas criações da coreógrafa, como uma carne viva daquilo que em nós depende do que contesta; consome-se no que resiste. A urticária virulenta que se apodera do grupo será a imagem desse corpo coreográfico invadido por si mesmo. Se coçar piora o prurido, controlar-se agrava o sintoma. O Humano sobra como um diagnóstico vulgar do corpo, uma reação adversa ou uma alergia auto-imune. Adivinha-se estar lá como em qualquer outra espécie que se comportasse como tal.


Farted!” ou “Power. Super Power”, serão outras formas de roast aos nossos slogans e elevações existenciais, em antítese com os gases. Um Lago dos Cisnes em modo milícia (preciosa imagem coreográfica da obra e da dança como armas), será o resumo dessa Tradição contra as partes-baixas da espécie protegida.


Caberá ainda uma imagem perfeita desse solo-acompanhado (Jackson Haywood) contra a paisagem do grupo em ebulição, entre o banquete e o acidente animal (‘I just shot man down’, dirá Rihanna em coro). Descarnado, exangue, exultante, a careta torce-nos como testemunhas e semelhantes projetivos. Pressentimos que não há conversão moral possível da experiência, lições a retirar, personagens para culpar, histórias capazes de justificar muito mais do que aquela cara de “único animal que…”.


Nessa máscara de rosto, o reportório de Marlene (estético, ontológico, gestual), está lá todo. Informa o corpo a cada instante e transmite a coreógrafa como outro vírus que desequilibra o grupo na tentativa de calibrar a cara-corpo o tempo inteiro, e que concorre particularmente em Canine para a noção de que muitas vezes o corpo é só um mecanismo a tentar funcionar. Que de uma forma estranha e óbvia, na experiência do limite expressivo, o corpo é o sintoma da Dança.


Canine Jaunâtre 3, Marlene Monteiro Freitas
Culturgest, 24-25 janeiro
Ballet de l’Opéra de Lyon

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