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Miguel Maia e Filipe Abreu: dez anos de Esta noite grita-se

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Pedro Mendes
October 20, 2026

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Miguel Maia e Filipe Abreu: dez anos de Esta noite grita-se

O Esta noite grita-se celebra 10 anos. O festim de leituras interpretadas de textos de teatro já passou por bibliotecas, armazéns, bares e adegas, e trabalhou mais de 50 textos de dramaturgia ocidental, sobretudo do século XX e contemporânea. A 10.ª temporada olha para trás e para a frente ao mesmo tempo. Por um lado, há um Best Of que repõe com os elencos originais Cantigas de uma Noite de Verão, de David Greig, Os Mentirosos Simpáticos, de Anthony Neilson, e Lacuna, de Luz Ribeiro. Há também a exposição fotográfica Ressonância, de Sónia Godinho. Por outro lado, abre uma nova linha de tradução inédita de autoras estrangeiras, que começou com Nova Era Dourada, de Karen Hartman.


A programação inclui ainda Samotrácias, pela Mákina de Cena, estrutura convidada desta edição, e Vitória, de Pau Miró. Inclui também a estreia do texto vencedor da 6.ª edição do Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, que este ano recebeu 178 candidaturas, o número mais alto desde a criação. Nesta conversa, os diretores artísticos Miguel Maia e Filipe Abreu falam sobre a década do projeto, a criação do Prémio e a temporada que marca o fim de um ciclo. É a última de Filipe Abreu na direção do festim.


Samotrácias apresenta-se de 23 a 25 de outubro nas Bibliotecas de Lisboa. Vitória sobe ao palco de 6 a 8 de novembro, na Bota-Anjos, na Casa do Comum e no Teatro Paulo Claro, e a 13 de novembro em Lagos. O Best Of acontece de 20 a 22 de novembro no São Luiz Teatro Municipal, onde a leitura do texto premiado se apresenta a 28 e 29 de novembro, antes de seguir para Lagos a 4 de dezembro.


O Esta noite grita-se faz 10 anos. Quando começaram, imaginavam que um ciclo de leituras ia durar uma década?

Filipe Abreu (FA): Começamos, portanto, com a pergunta mais simples. Julgo que o Esta noite grita-se começou como um lugar de encontro entre os nossos textos e intérpretes favoritos. O que se seguiu foi simplesmente espetacular. Encontrámos prazer nestas leituras de forma surpreendente e percebemos que os nossos colegas e os nossos públicos também tinham saído surpreendidos da primeira edição. Sem sequer pensar duas vezes, decidimos continuar.


Tratam as leituras como espetáculos autónomos e não como ensaios ou etapas de uma futura encenação. O que é que a leitura permite que uma produção completa não permite?

Miguel Maia (MM): As nossas leituras são uma produção completa na medida que levamos ao palco algo que queremos mostrar. A forma como as palavras são ditas torna-se o espetáculo, e a força interpretativa de atrizes e atores aquilo que o público aguarda com expetativa. Costumamos dizer que levamos algo em carne viva, dúvidas que sobreviveram aos ensaios de mesa e que precisam de público para serem esclarecidas, formas de dizer que são ainda muito plásticas e variam de dia para dia. Talvez estas leituras permitam uma certa leveza com que ideias, histórias e imagens são levadas à presença do público. 


O festim já passou por bibliotecas, armazéns, bares e adegas. Como é que o espaço muda a forma como um texto é lido e ouvido?

FA: Para mim, o segredo é o poder da concentração aliado a uma sensação de íntima informalidade. Embora já tenhamos provado que as leituras funcionam num auditório de média/grande dimensão, sabemos que o encontro ideal acontece em espaços pequenos e intimistas. É claro que os espaços onde começámos, como o (entretanto encerrado) Bar Irreal e a Fábrica Braço de Prata trazem os seus desafios, como o concerto da sala do lado, ou o elétrico a passar a dois metros de distância, mas confesso que espaços como estes me fascinam. Porque podemos olhar nos olhos o público e saber realmente que eles sabem que lhes estamos a contar uma história com carinho e dedicação. Acima de tudo, notamos a versatilidade deste formato, que tanto funciona na rua como numa blackbox, numa biblioteca, num armazém ou encostados a uma grande talha de vinho enquanto lemos a história do fim-de-semana louco de um casal na casa dos trinta.


Ao longo destas temporadas trabalharam mais de 50 textos e mais de 100 intérpretes. Como escolhem os textos? Há uma linha que os une?

MM: Na verdade fizemos as contas e já trabalhámos com quase 140 e chegaremos aos 160 este ano, o que até a nós nos surpreende. A linha curatorial é muito livre - queremos partilhar o entusiasmo de ler textos que dão a conhecer autores novos mas também clássicos a um público muito diverso. Embora tenhamos tido linhas temáticas em alguns dos anos, ultimamente temo-nos preocupado em ter um leque de textos que sejam funcionem bem em formato de leitura interpretada e que tenham origens o mais distintas possível.


Em 2021 criaram o Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, depois de identificarem um viés de género na vossa própria programação. Como foi chegarem a essa conclusão?

FA: Não soou a uma grande revelação. O que aconteceu foi que as peças que lemos nas três primeiras temporadas foram (na sua esmagadora maioria) escritas por homens e que, ao começarmos a pensar no Esta noite grita-se a médio prazo, isso nos pareceu errado. Ao acedermos ao espólio da Biblioteca da Escola Superior de Teatro e Cinema, ao revermos as nossas estantes e procurarmos nas livrarias por peças escritas por dramaturgas, verificou-se que, aliada ao nosso próprio viés de género, a discrepância de género entre obras publicadas e traduzidas era brutal. Depois de percebermos que eramos apenas mais uma peça enviesada num sistema defeituoso, decidimos criar o Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, celebrando novas escritas, trazendo à ribalta novos textos de novas autoras e, esperamos, reafirmando que as futuras dramaturgas são mais que bem vindas no teatro português.


Esta 6.ª edição do Prémio recebeu 178 candidaturas, o número mais alto até agora. O que vos diz esse crescimento sobre a escrita teatral feita por mulheres em Portugal?

MM:  60% desses textos vêm de fora de Portugal, o que não quer dizer que mesmo assim não existam muitas autoras com vontade de tornar o seu trabalho visível no nosso país. Quanto mais oportunidades existirem no meio para que as obras ganhem vida, mais gente continuará a escrever. Neste caso é a oportunidade que aguça o engenho. No entanto há ainda muita gente que deixa o seu trabalho da gaveta por não o achar à altura de um concurso - costumo aconselhar o envio, porque são também distinguidos textos com potencial de se tornarem grandes peças, e que poderão beneficiar do processo de mentoria com o júri.


Nova Era Dourada fala de uma megacorporação tecnológica que vigia e controla a vida privada. Vitória, de Pau Miró, passa-se na Barcelona franquista. O que aproxima estes dois textos nesta temporada?

FA: A necessidade de encarar e pensar um mundo onde os direitos e uma certa ordem social que julgávamos garantida, se vai encaminhando para lugares incertos, mas assustadores. A necessidade de lutar pela liberdade, pela privacidade e pela transmissão de mensagens não filtradas e não gravadas. Um, num futuro distópico, e o outro num passado franquista. Duas realidades com demasiados paralelismos entre si. E demasiado paralelas à atualidade. Julgo que é essa preocupação, entre o presente e o futuro, que nos levou a escolher estes dois textos.


No Best Of voltam a Cantigas de uma Noite de Verão, Os Mentirosos Simpáticos e Lacuna, com os elencos originais. Como escolheram estas três leituras entre tantas?

MM: Foi muito difícil, porque nos envolvemos muito com cada texto que levámos a palco. Optámos pelo Cantigas, do David Greig, em que excepcionalmente interpreto eu e o Filipe, juntamente com a Inês Lago, e é um texto com uma crueza poética fascinante (e cantamos!); depois os Mentirosos Simpáticos do Anthony Neilson é um texto brilhantemente divertido e acho que estamos todos a precisar disso; por último o Lacuna foi um dos textos mais poderosos que saiu do Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina e por isso quisemos revisitá-lo.


Como é revisitar um texto anos depois com as mesmas pessoas? O que mudou na leitura, ou em vocês?

FA: A memória é extraordinária. Quando pego num texto que fiz há quase uma década e começo a ler, muitas vezes é como se estivesse a ouvir o elenco original, embora antes disso muitas vezes nem tivesse memória presente do enredo. E noto que os outros intérpretes, nas reposições, leem de forma muito parecida com “a original”. A única diferença é uma espécie de calma, ou maturidade. A capacidade de acertar no ponto certo. Nas reposições continuamos a encontrar novos mistérios. E a decifrar outros. Por outro lado, as primeiras apresentações têm um grau de imprevisibilidade e experimentação que potencia a leitura.


Esta temporada chega pela primeira vez ao Teatro Paulo Claro, dos Artistas Unidos, e ao São Luiz. Para um projeto que nasceu descentralizado e intimista, o que significa estar num teatro municipal?

MM: Já estivemos antes em teatros grandes e claro que isso pode criar um afastamento desse conceito intimista. Mas acredito que a intimidade pode ser criada nesses espaços também e é isso que continuaremos a tentar fazer. É mesmo um projeto todo-o-terreno!


A Mákina de Cena é a estrutura convidada desta edição. Como funciona esse convite e o que procuram nas estruturas que acolhem?

FA: Desde 2019 que todos os anos convidamos a juntar-se ao festim uma estrutura que esteja ligada à dramaturgia, à leitura, ou ao teatro de texto. Achamos que este espaço que fomos conquistando deve ser partilhado, por isso vamos convidando outros para nos presentearem com a sua leitura de um texto à sua escolha. Tem sido uma viagem muito interessante, for dramaturgias e formatos de leitura que raramente são como o nosso. Isso dá-nos novas ideias e expande-nos o horizonte. A Máquina de Cena é uma estrutura sediada em Loulé e há dois anos que mantemos uma parceria de leitura no Clube de Leitura deles, onde partilhamos as peças finalistas e premiadas no PNDAF. Gostamos de pensar no Esta noite grita-se como um clube de leitura dois ponto zero e portanto fez-nos todo o sentido contar com eles para a temporada de 2026.


Vários momentos da programação têm interpretação em LGP e há uma sessão bilíngue com legendagem integral. Como têm trabalhado a acessibilidade no festim?

MM: Temos tido sempre parte dos texto com interpretação em LGP mas não tem sido fácil ter público surdo presente nas sessões. Desenvolvemos tamvém contactos para que o público cego possa usufruir de um projeto que na sua génese já é adaptado a quem não vê. Mas queremos fazer mais e por isso faremos este ano uma leitura bilingue (em português e Língua Gestual Portuguesa)


O dossier fala do fecho de um ciclo e do início de uma nova era. Que nova era é essa?

FA: Depois de dez anos a co-dirigir o Esta noite grita-se, deixo ao Miguel a liberdade de guiar o festim para novos formatos e horizontes. Para mim, é uma questão de mudança de vida, de trocar a vida das artes por outra mais ligada à terra. Portanto esta será a minha última temporada a dirigir esta programação. Saio de barriga cheia e com a sensação que o Esta noite grita-se ultrapassou em muito qualquer expectativa que pudesse ter sobre este projeto.


MM: A minha barriga também está cheia mas ainda tenho fome :) Estamos a preparar algumas novidades para os próximos anos, que em breve serão públicas e que nos continuarão a alimentar neste festim de textos e palavras.


Foto: © Sónia Godinho

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