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Já não há primaveras é um ciclo de café-teatro que inclui seis espetáculos originais, entre janeiro e julho de 2026, no Bar Ubu e no Salão Nobre do Teatro São João.
O compromisso da Palmilha Dentada com um público, fiel, público que foi conquistando ao longo dos anos, desde o tempo em que era residente no saudoso Tertúlia Castelense, é fazer rir.
Procura-se gargalhada e descontração. A linguagem do humor é construída a partir de um retrato social e político engajado, espoletado por uma situação inusitada ainda que quotidiana.
A reflexão é sempre desempoeirada, arrancada da provocação e de uma improvisação que torna cada espetáculo uma experiência única e irrepetível de entretenimento. Desta vez, os textos não são, como habitual, do Ricardo Alves (que, contudo, é também responsável pela criação) e, sim, do ator Rodrigo Santos. Claro que se nota. A narrativa é, à imagem de um ator que gosta de arrojar, de sair fora de pé, menos coesa, mais fragmentada e, porventura, mais imediatista. É café-teatro, meus amigos…
A parelha Rodrigo Santos e Ivo Bastos é como um dueto de música sertaneja, é um chamego artístico entre pessoas que se conhecem bem e que sabem que o flirt com o público, a oportunidade de fugir do texto para voltar a ele, quando os atores quiserem e conseguirem, é parte do que o público procura. Ambos sabem, sendo certo que o Rodrigo Santos parece ter especial gosto em navegar nessa onda, enquanto o Ivo Bastos tenta manter o barco a salvo, que algum descontrolo programado, é também contagiante. Faz parte do show. É, assim, um espetáculo “meio bossa nova e rock’n’roll”, como a música do Cazuza, sem tiques nem salamaleques.
O registo café teatro, tão bem conhecido desde a origem da Palmilha, é propenso a essa paródia com elementos do espaço, a uma interação contínua com os espetadores: ora sai um chapéu, ora sai um careca, aí vem uma mulher de branco (embora não seja, à partida, a da Tieta do Jorge Amado), aí vai um Mário Moutinho a assistir, ali, mesmo à mão de semear. Há a oportunidade de satirizar com o espetáculo anterior e com o sotaque cheio de erres, do “franciú”…
O café teatro é o lugar para poderem explorar a verborreia desbragada que, claro está, dá e torna a dar a gargalhada, mais ou menos fácil. O momento político, véspera de eleições, deu mote a algumas piadas feitas a partir do quotidiano, o café em Custóias, o sentido de voto do filho do Rodrigo, o pedido para os eleitores do partido de extrema-direita se ausentarem da sala com recurso ao vernáculo.
Entre duas personagens, encharcadas, a lamentar a chuva, o tempo, a dificuldade da rotina evocando a morte do pai de uma delas como se fosse uma piada, afinal, entre a comédia e o drama não vai nem um salto de distância, duas pessoas que se contrariam permanentemente, com todo o potencial performativo que daí advém, um casal que fala com sotaque alemão que parece saído da Heidi, um homem de farda, nada como “ir para militar e ser um bom soldado”, uma conversa telefónica filosófico coisa e tal (voz da Gabriela Barros), o casting de um ator, para permitir, claro está, essa ridicularização permanente que o Rodrigo Santos faz de tudo (a começar de si e do seu ofício) e o hino da Internacional… o que existirá em comum? Lançar algumas sementes e empurrar para fora de palco o medo de ser sério em momentos severos, chamando para aquelas mesas um início do despertar necessário, agora que a democracia surge ameaçada e a discriminação parece normalizada. Ali expurgam-se feridas. Ali parece evocar-se, ainda que veladamente, atrás da máscara do humor, a necessidade da primavera, não a Marcelista, mas aquela que faz florir a esperança.
Disse-se que o texto ficou interrompido pela greve geral. Deixa perfeita para evocar um momento de protesto coletivo. E é nas interrupções que se ganha balanço para começos e recomeços, mas, sobretudo, para mudanças. Nesses intervalos vão ao Teatro Nacional de São João. Mesmo que a névoa percorra a cidade do Porto e não consigam ver um palmo à frente do nariz, ali encontram alguma luz e podem pedir um vinho enquanto aquecem na cadeira.
Foto: © José Caldeira
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