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Tiago Cadete: partir também é uma forma de cuidar

Por

 

Pedro Mendes
May 26, 2026

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Tiago Cadete: partir também é uma forma de cuidar

Artista transdisciplinar com um percurso marcado pela investigação em torno da História, da Identidade e da Migração, Tiago Cadete parte desta vez de um material mais próximo: a história da sua família paterna, que emigrou para França nas décadas de 1960 e 1970. O que começou como uma investigação sobre uma memória familiar pouco falada tornou-se num confronto com o próprio passado, e com a pergunta incómoda de por que razão nunca tinha perguntado.


SOUVENIR não se fica pelo palco. Em paralelo com o espetáculo, o projeto inclui um podcast-arquivo com 25 testemunhos de migrantes portugueses recolhidos de norte a sul do país, distribuído no Spotify, YouTube e Instagram, um sistema de escuta que circula de forma autónoma e que pode ser reencontrado, interrompido e retomado em qualquer momento. Depois de estrear em Torres Vedras e passar pela Moita, o espetáculo chega a Lisboa nos dias 28 e 29 de maio, no Teatro Ibérico, no âmbito do Temps d'images.


SOUVENIR parte de uma investigação sobre a migração da tua família paterna para França. Em que momento percebeste que esse material familiar tinha potencial para se tornar um espetáculo?
Eu comecei a pensar neste projeto depois de vários anos a trabalhar sobre migração, história e memória, sobretudo em relação a Portugal, ao Brasil e à América Latina. A vontade de abordar esta temática nasceu também de uma necessidade pessoal de olhar mais atentamente para a minha própria história familiar e perceber de onde vem esta tradição migratória da família paterna, marcada pela emigração de Portugal para França nas décadas de 1960 e 1970.


Antes de iniciar este trabalho, sabia muito pouco sobre esse percurso migratório. Conhecia apenas aquilo que faz parte de um imaginário mais geral sobre a emigração portuguesa para França, aquilo que circula nas narrativas mais comuns. Mas senti que existia ali uma história pouco contada, ou pouco aprofundada, sobretudo na sua dimensão íntima e quotidiana.


A motivação principal foi precisamente essa: olhar para uma memória que muitas vezes permanece silenciosa e aproximar-me dela através da escuta, da recolha de testemunhos e da prática artística.


O press release refere que o projeto acabou por se tornar "num confronto contigo mesmo e com o teu próprio passado". O que é que não estavas à espera de encontrar nesse processo?

Embora o mote inicial fosse pensar uma migração que não foi diretamente a minha, quando comecei a confrontar-me com a pergunta sobre porque sabia tão pouco desta história - e porque nunca tinha falado sobre isto com o meu pai - isso tornou-se um dos eixos centrais do projeto.


O silêncio em torno desta experiência familiar passou a interessar-me tanto quanto a própria experiência migratória. Esse silêncio pode também ser lido numa escala mais ampla, como parte de uma memória coletiva portuguesa. Existe, por vezes, um apagamento do passado migratório, como se algumas gerações se tivessem afastado da consciência de uma tradição longa de emigração forçada por condições de vida difíceis.


Aquilo que inicialmente parecia um tabu familiar revelou-se como um tabu mais amplo, de dimensão coletiva. A dificuldade em falar sobre precariedade, distância, trabalho duro, discriminação ou desenraizamento produz uma memória fragmentada entre gerações.


Ao revisitar estas histórias, tornou-se inevitável pensar o presente e as formas contemporâneas de acolhimento. Portugal continua a ser um país atravessado pela migração - tanto pela saída como pela chegada de pessoas - e talvez recordar que muitos portugueses foram migrantes, muitas vezes recebidos em condições difíceis, possa contribuir para uma relação mais empática e consciente com quem chega hoje.


A tua própria experiência como migrante acabou por entrar na equação. De que forma isso alterou a tua relação com as histórias que estavas a recolher?

Por também ter vivido uma experiência migratória - ainda que muito distinta daquela vivida nas décadas de 1960 e 1970 - reconheço motivações e impulsos que se aproximam. A minha migração aconteceu em 2012, um período de forte emigração portuguesa, à semelhança dos anos 60, que marcaram também um dos grandes movimentos migratórios do país.


O que me interessa é perceber como uma experiência situada num contexto específico pode ainda assim tocar questões universais da condição migrante: o que leva alguém a partir, o que se transforma no deslocamento, o que muda na relação com o lugar de origem e o que significa desejar voltar.


Hoje penso a migração também a partir do regresso. Depois de quase uma década no Brasil, regressei a Portugal, o que me permite olhar para este processo com outra distância e complexidade. Já não penso apenas a partida, mas também o retorno, com todas as suas ambiguidades e reconstruções.


Essa experiência pessoal altera também a forma como me relaciono com as pessoas com quem trabalho. Quando sabem que também fui migrante, a conversa desloca-se para um lugar diferente. Cria-se um reconhecimento mútuo que, mesmo sendo assimétrico, permite uma partilha mais horizontal e mais disponível para o indizível.


O projeto integra um podcast-arquivo com 25 testemunhos de migrantes portugueses recolhidos de norte a sul do país. Como foi esse trabalho de escuta? Houve histórias que te surpreenderam ou que te perturbaram?

Algumas histórias são escutadas durante a apresentação em palco, outras podem ser ouvidas fora do contexto performativo. Interessava-me pensar essa outra temporalidade do trabalho: a ideia de que nem tudo acontece no momento da apresentação. As pessoas podem ouvir uma voz específica, interromper, regressar mais tarde ou voltar anos depois. Essa possibilidade de circulação e reativação é central no projeto. Ao longo das entrevistas, comecei a identificar padrões. Muitas vezes eram os homens da família - pais, filhos ou irmãos - que partiam primeiro. Mas surpreenderam-me também histórias de mulheres que foram as primeiras a emigrar, contrariando expectativas familiares e sociais. Surpreenderam-me igualmente as diferentes modalidades de migração: partidas “a salto”, de forma indocumentada, e outras através de carta de chamada, com entrada mais formalizada. Entre as décadas mais intensas da emigração portuguesa para França, os mecanismos de controlo foram variando: da travessia entre Portugal e Espanha aos Pirenéus, até às mudanças entre incentivo à mão de obra migrante em França e políticas restritivas em Portugal.


Uma das histórias que mais me marcou foi a de uma mulher que, ao ouvir os pais falarem em segredo sobre uma dívida, decidiu partir sem os avisar. Trabalhou em França e enviava mensalmente o salário para Portugal num envelope cor-de-rosa. Os pais recebiam o dinheiro sem saber que ela tinha emigrado para os ajudar.


Essa história mostra algo transversal: a migração não é apenas perda ou dor. É também cuidado, responsabilidade e afeto à distância. Muitas vezes, partir é também uma forma de proteger quem fica.


Há uma dimensão de arquivo sonoro que circula em paralelo com o espetáculo, no Spotify, YouTube e Instagram. Interessa-te que SOUVENIR exista fora do palco, com uma vida própria?

Interessa-me que estas histórias possam ser escutadas em diferentes tempos e contextos: durante o espetáculo, antes ou depois, mas também num regime autónomo de circulação. A criação deste arquivo permite uma multiplicidade temporal. Não há um único momento de fruição, mas vários modos de acesso e retorno. Existe também uma dimensão de incerteza que me interessa: a possibilidade de o arquivo ser reencontrado ou perdido na internet, ativado em contextos imprevisíveis - um familiar, um investigador, ou alguém que chega por acaso a uma dessas vozes. Aqui, o gesto artístico passa precisamente por abrir a autoria e permitir que o material circule de forma autónoma. Mais do que um objeto fechado, trata-se de um sistema de escuta em circulação. As gravações não são apenas matéria para a cena: são o próprio trabalho.


O teu trabalho tem percorrido sistematicamente temas como História, Memória, Identidade e Migração. Sentes que SOUVENIR fecha algum ciclo ou abre um novo?

Não penso que feche um ciclo. Quando termino um trabalho, surgem quase sempre zonas de sombra e perguntas que não ficam resolvidas. Essas perguntas não são problemas, mas tensões que passam a orientar o que vem a seguir.


Neste momento, ainda estou a perceber qual será essa nova questão. Mas interessa-me cada vez mais trabalhar com processos de emigração ligados à comunidade portuguesa que saiu do país e que agora regressa, ou que vive novamente uma condição de deslocamento.Há um deslocamento de perspetiva que me interessa: pensar não só a partida, mas também o retorno, e a forma como esse retorno reorganiza memória, identidade e relação com o passado migratório.


O espetáculo estreou em Torres Vedras e passou pela Moita antes de chegar a Lisboa no âmbito do Temps d’images. Esses territórios, com histórias de emigração muito concretas, influenciaram o processo criativo?

O trabalho permitiu construir uma diversidade territorial de testemunhos migrantes, não apenas nos locais de apresentação, mas também nas residências artísticas. Essa circulação contribuiu para uma multiplicidade de vozes que atravessa o arquivo.


Outro aspeto importante foi a relação com o público. Em diferentes contextos surgiram conversas após o espetáculo com públicos muito distintos. Por um lado, pessoas da geração do meu pai, com experiência direta de migração ou com familiares emigrados. Por outro, adolescentes que contactavam com estes testemunhos pela primeira vez, com outra intensidade e surpresa. Uma das dimensões mais importantes do trabalho é precisamente essa extensão da conversa para além da sala. O espetáculo não termina no palco: continua nas conversas, nas memórias ativadas e nas relações que se reconfiguram depois da escuta. É nesse intervalo que o trabalho realmente acontece.

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